12 Setembro 2026
É inevitável nos vermos pensando que a guerra existe e continua a existir porque foi preferida em relação aos outros modos então possíveis de reagir à invasão russa, porque foi querida.
O artigo é de Severino Dianich, publicado no blog Settimana News, 11-09-2026.
Severino Dianich é doutor em teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana com uma tese sobre a “Opção fundamental no pensamento de São Tomás de Aquino”. Em sua carreira acadêmica aprofundou sua investigação teológica especialmente no campo da Eclesiologia e também no da relação entre teologia e arte.
Eis o artigo.
Em 8 de março de 2022, treze dias depois de a Rússia ter invadido a Ucrânia, depois de já ter ocupado a Crimeia, eu observava a mídia, toda alinhada, e com razão, na denúncia da Rússia como a única culpada pela guerra, e da Ucrânia como nação e povo ignobilmente agredidos, que era dever defender.
A propaganda russa difundia a ideia de que se tratava de uma guerra relâmpago que, em poucos dias, terminaria com sua vitória.
A ucraniana alimentava a ilusão dos países ocidentais de garantir, com seu fornecimento de armas, a possibilidade de uma contraofensiva rápida e decisivamente eficaz.
Quase ninguém, como sempre acontece nas guerras, se arriscava a fazer um balanço prévio do preço, em número de mortos, que teria de ser pago. No blog do Settimana News, eu comentava essa situação, escrevendo: "Continua-se a dizer, sem pudor, para que nos armemos de uma confiança inabalável numa vitória, cada vez mais distante, que a guerra ainda será longa. Quanto? Um ano? Dois anos? Três anos?".
Muito menos se confessava em público a previsão do número de jovens ucranianos que teriam de deixar o trabalho, os estudos, a namorada, a família para ir para a frente de batalha, prontos a se imolar pela pátria.
E eis-nos aqui, hoje, 31 de agosto de 2026, quatro anos depois do início da guerra, tendo que ouvir dizer, das agências mais confiáveis, como a Reuters e a Associated Press, o Institute for the Study of War (ISW) e o Council on Foreign Relations, que a previsão mais séria não é "a Rússia vencerá" nem "a Ucrânia vencerá", mas sim uma solução negociada depois de um período adicional de desgaste. "Desgaste" é um modo asséptico de dizer destruições e mortes, destruições e mortes, destruições e mortes.
Eis, dito hoje, o que eu previa a poucos dias do início dos combates, sobre como as coisas se desenrolariam. Se um cidadão qualquer pôde prever o que efetivamente está acontecendo, imagine se os estrategistas da grande política não teriam feito as mesmas previsões, e se os governos não os teriam consultado antes de tomar suas decisões. Por que não se escolheu, então, o caminho daquela negociação, que agora se pretende retomar, depois de quatro trágicos anos de destruições e mortes?
É inevitável nos vermos pensando que a guerra existe e continua a existir porque foi preferida em relação aos outros modos então possíveis de reagir à invasão russa, porque foi querida. Isso é demonstrado pelo fato de que, quando, durante as negociações russo-ucranianas de Istambul, em março-abril de 2022, foi proposto declarar a Ucrânia neutra, com a condição de que a Otan se comprometesse a defendê-la caso se tornasse necessário, a Otan se recusou, declarando-se disposta, em vez disso, a acolher a Ucrânia entre seus membros. Era isso que interessava à aliança, não a busca do melhor modo de garantir a paz numa fronteira tão delicada como a que faz limite com a Rússia.
Corresponde a isso o que o Papa Francisco contou em 19 de maio de 2022, numa audiência concedida aos diretores das revistas jesuítas, ou seja, que cerca de dois meses antes da invasão russa de 24 de fevereiro de 2022 havia se encontrado com um chefe de Estado, que lhe disse que já fazia tempo que a Otan latia nas fronteiras da Rússia.
A continuação, por tantos anos, desta guerra, como, aliás, acontece em todas as guerras, não é fruto de consequências inelutáveis de um incidente de percurso, mas sim da vontade de determinados responsáveis, cúmplices de frentes opostas, que a quiseram e continuam a querê-la.
Dom Milani, na carta aos capelães militares e depois na carta aos juízes, faz um levantamento de todas as guerras travadas pela Itália, desde as do Risorgimento em diante, e desmascara suas razões, mostrando como são os jogos do poder econômico, e não o amor pela pátria, o verdadeiro móvel, para concluir com a afirmação de que também "a guerra defensiva já não existe mais".
Também no caso da guerra na Ucrânia, uma vez afirmada e sustentada a tese da responsabilidade originária e fundamental da Rússia, será preciso também perguntar por que, em vez da defesa armada, não se voltou às propostas de Istambul de março-abril de 2022.
Se, portanto, o primeiro responsável é a Rússia, também são responsáveis todos aqueles que escolheram o caminho da guerra, em vez de retomar o da diplomacia, já iniciado havia tempo. É que, se há guerras, é só porque, com as guerras, muitos ganham, instituições públicas e sujeitos privados, a começar, obviamente, pelos mercadores de armas.
A guerra transtorna profundamente a economia mundial, modifica seus equilíbrios, de modo que quem antes perdia agora ganha, e quem antes ganhava agora perde, e trata-se de cálculos que, obviamente, são feitos com cuidado pelos grandes potentados econômicos. Dado o que está em jogo, imensas perdas e enormes ganhos, é difícil pensar que quem vê nisso os próprios interesses não exerça sua influência sobre o andamento da situação.
Para agir de maneira eficaz pela paz não basta exaltar sua beleza e afirmar o dever de cada cidadão, e do cristão também em nome da fé em Cristo, de promover e sustentar as políticas de paz: é preciso também desconstruir as pseudorrazões que tradicionalmente são alegadas para justificar a guerra, desmascarando as ignóbeis motivações invariavelmente subjacentes e aquelas vergonhosamente proclamadas.
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