O conceito de ressonância segundo Hartmut Rosa

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02 Setembro 2026

Hartmut Rosa propõe a ressonância como uma forma de relação viva com o mundo que permite compreender a experiência humana para além da produtividade e da aceleração.

O artigo é de Juan Ángel Asensio, publicado por Ethic, 01-09-2026.

Eis o artigo.

O sociólogo e filósofo alemão Hartmut Rosa, professor de Sociologia da Universidade de Jena e herdeiro da Escola de Frankfurt, dedicou boa parte de sua obra a diagnosticar os efeitos da aceleração social sobre a experiência humana. Esse diagnóstico, desenvolvido em Alienação e aceleração (2016), descreve um mundo em que a vida moderna multiplica ritmos e estímulos sem que esse crescimento se traduza em maior bem-estar. A consequência, segundo o autor, é uma sensação difusa de desconexão que atravessa o trabalho, as relações pessoais, nossa conexão com o entorno e até mesmo a forma de habitar o próprio corpo.

Para responder a esse diagnóstico, Rosa desenvolveu o conceito de ressonância em seu ensaio Resonanz: Eine Soziologie der Weltbeziehung (2016), traduzido para o espanhol como Resonancia: una sociología de la relación con el mundo. Nesse livro, o pensador alemão propõe que a qualidade de uma vida depende menos dos recursos disponíveis do que do tipo de vínculo que a pessoa estabelece com aquilo que a cerca. A ressonância designa precisamente esse vínculo quando ele se mostra vivo, receptivo e transformador, tornando-se, assim, a pedra angular de uma teoria da vida boa que Rosa contrapõe à lógica da aceleração permanente.

O pensador evita reduzir a ressonância a um estado de espírito passageiro ou a uma simples sensação de felicidade. Em vez disso, entende-a como um processo com momentos identificáveis que permitem reconhecê-la e distingui-la de outras formas de vínculo. O primeiro momento é a afecção, que ocorre quando algo ou alguém consegue realmente tocar o sujeito, gerando uma resposta que combina dimensões emocionais, cognitivas e corporais. O segundo momento é a autoeficácia, termo que Rosa toma da psicologia para descrever a capacidade de responder a esse chamado e de se projetar para o mundo por meio de uma ação própria.

A esses dois momentos soma-se a transformação, terceiro elemento do processo. Quando uma pessoa entra em ressonância com algo, seja uma melodia, uma paisagem, uma ideia ou um vínculo afetivo, ambas as partes da relação saem modificadas do encontro. Esse caráter mútuo afasta a ressonância de qualquer forma de domínio ou de simples consumo de experiências, pois implica uma coprodução entre o sujeito e aquilo com que ele se relaciona. O quarto momento, a indisponibilidade, recorda que a ressonância jamais pode ser produzida à vontade, nem garantida por fórmulas ou técnicas. É possível preparar o terreno para que ela surja, por meio de hábitos, instituições ou rotinas favoráveis, mas sua chegada sempre preserva uma margem de incerteza que a distingue de qualquer mercadoria.

Essa estrutura procedimental permite a Rosa aplicar o conceito a esferas muito diferentes da vida social. No eixo horizontal, ele situa as relações com outras pessoas, do amor e da amizade à comunidade e à esfera política, âmbitos nos quais a escuta mútua e a capacidade de se deixar afetar pelo outro são decisivas. No eixo diagonal, localiza o vínculo com as coisas e as atividades, categoria que inclui o trabalho, o estudo e as práticas cotidianas quando conservam um sentido próprio e não se reduzem a um mero procedimento. O eixo vertical, por sua vez, abrange as relações com dimensões mais amplas, como a natureza, a arte, a religião ou qualquer horizonte de sentido que transcenda a experiência imediata.

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Frente à ressonância, Rosa coloca a alienação, conceito herdado de Marx e atualizado para ser pensado sem qualquer referência a uma natureza humana essencial. A alienação aparece quando o mundo é experimentado como mudo e indiferente, e as atividades que antes possuíam sentido próprio passam a funcionar como simples meios para alcançar outro fim. Nesse estado, as relações são administradas em vez de vividas, as pessoas são reduzidas a papéis funcionais e o tempo é percebido como uma ameaça a ser administrada, em vez de habitada.

Rosa apresenta a ressonância e a alienação como os dois polos de um mesmo contínuo, e não como categorias morais absolutamente opostas. Para ele, toda existência oscila entre esses extremos conforme os momentos e as esferas da vida, e é justamente essa oscilação que permite utilizar o conceito como ferramenta de diagnóstico social. O burnout, por exemplo, é descrito por Rosa como um estado em que os diversos eixos da ressonância são simultaneamente silenciados, deixando a pessoa presa a uma relação puramente instrumental com seu próprio trabalho e também com seu próprio corpo.

A proposta adquire, além disso, uma importante dimensão institucional, pois Rosa sustenta que as estruturas sociais podem favorecer condições propícias para a ressonância sem poder produzi-la diretamente. Escolas, empresas e políticas públicas cumprem, assim, uma função mais próxima da jardinagem do que da fabricação, na medida em que preparam um terreno fértil para que o encontro ressonante aconteça, sem poder decretá-lo. Essa distinção é central na crítica que Rosa dirige à modernidade tardia, acusada de buscar o controle e a disponibilidade total de recursos, tempo e experiências, quando a vida boa depende, na realidade, da aceitação de certa margem do incontrolável.

Com essa arquitetura conceitual, Rosa oferece uma leitura da sociedade contemporânea que combina o rigor sociológico com uma sensibilidade próxima à fenomenologia, em diálogo explícito com autores como Charles Taylor e com a própria tradição da teoria crítica alemã. Entendida dessa forma, a ressonância funciona como uma bússola para avaliar tanto as relações pessoais quanto as políticas públicas e nos lança uma pergunta que a aceleração social muitas vezes nos oculta: que tipo de vínculo com o mundo faz com que uma vida mereça ser chamada de plena?

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