Donatella Di Cesare analisa o tecnofascismo: quando a técnica governa e o sangue mobiliza. Artigo de Márcia Rosane Junges

Foto: Miguel Á. Padriñán | Pexels

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28 Agosto 2026

Há momentos em que uma época começa a escapar das palavras e das categorias com as quais costumávamos compreendê-la. O retorno do fascismo ao vocabulário político contemporâneo talvez seja um desses momentos: reconhecer em nosso presente os sinais de uma velha gramática autoritária não significa, para Donatella Di Cesare, reencontrar o fascismo histórico sob nova aparência. A questão é mais inquietante. O que se desenha é uma configuração política na qual a técnica deixa de ocupar o lugar aparentemente neutro de instrumento para participar da própria organização do mundo, enquanto a identidade fundada no nascimento, na descendência e no solo reaparece como princípio de pertencimento. Entre plataformas, redes financeiras, dispositivos de administração e fronteiras protegidas contra o estrangeiro, duas lógicas que pareciam inconciliáveis, a tecnocrática e a etnocrática, começam a compor uma mesma forma de governo.

O artigo é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

É dessa zona de convergência que emerge o tecnofascismo, conceito que Di Cesare mobiliza para interrogar uma transformação que já não pode ser descrita apenas como crise ou erosão da democracia. O que está em jogo é o esvaziamento do kratos do demos: a democracia permanece como forma institucional, mas a potência política se desloca para instâncias técnicas, ao mesmo tempo que o povo é progressivamente redefinido como comunidade de sangue. A guerra aparece, nesse processo, não como interrupção excepcional da política, mas como seu horizonte de administração permanente, lugar em que o cálculo técnico e a mobilização identitária se encontram. Contra esse movimento, a filósofa recoloca a migração no centro da questão política e filosófica: diante da tentação de transformar a terra em propriedade dos que chegaram primeiro, o estrangeiro residente e o verbo coabitar tornam-se figuras de uma outra possibilidade de mundo comum.

O fascismo voltou a fazer parte do léxico político contemporâneo, mas talvez o maior equívoco seja imaginar que seu retorno possa ser compreendido simplesmente como repetição. A história não se repete: reconfigura-se. É nesse deslocamento que a filósofa italiana Donatella Di Cesare situa sua reflexão sobre o tecnofascismo. O que está em jogo não é apenas o reaparecimento de velhos discursos autoritários, nem uma restauração das formas políticas do século XX, mas a emergência de uma configuração histórica para a qual ainda não dispomos inteiramente de palavras, conceitos e categorias.

Na Aula Inaugural da Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), realizada na noite de 24 de agosto, a pensadora chamou atenção para uma transformação que atravessa as democracias contemporâneas: processos de legitimação autoritária já não precisam necessariamente romper frontalmente com as instituições democráticas. Podem operar a partir delas, corroendo-as por dentro. É justamente essa ambivalência que torna o fenômeno mais difícil de nomear. O problema não é somente a erosão da democracia, mas a formação de outra modalidade de governo, marcada por traços totalitários e sustentada por uma combinação até então pouco inteligível entre comando técnico e identidade étnica.

Entre o neofascismo e o pós-fascismo

Antes de compreender o tecnofascismo, é preciso distinguir aquilo que Di Cesare chama de neofascismo e pós-fascismo. O primeiro conserva uma relação mais explícita com a herança dos modelos fascistas anteriores, reivindicando elementos reconhecíveis de sua tradição. O segundo, ao contrário, participa de uma dinâmica distinta: preserva determinados traços do fascismo histórico, mas os combina com transformações próprias do presente. É nesse segundo terreno que a extrema-direita contemporânea deve ser analisada.

Não se trata, portanto, de procurar no presente uma cópia de Mussolini ou Hitler. A novidade está justamente na transformação das condições em que o poder político se exerce. A globalização neoliberal, a financeirização, as redes transnacionais e as plataformas tecnológicas deslocaram os centros efetivos de decisão para espaços que frequentemente escapam à deliberação dos cidadãos. Di Cesare já havia observado que esse deslocamento contribui para a perda de alcance político das comunidades e para a formação de redes de poder que comandam sem necessariamente depender dos aparatos institucionais tradicionais. É nesse terreno que o tecnofascismo aparece como uma nova dominação histórica.

A técnica não está simplesmente a serviço do poder

A palavra "técnica" exige, nesse contexto, uma cautela filosófica. Não se trata simplesmente de computadores, algoritmos, plataformas ou instrumentos digitais. A questão remete à compreensão heideggeriana da técnica como modo de desocultamento, como uma maneira de fazer aparecer e organizar o mundo. Na figura da Gestell, a técnica não é apenas um conjunto de ferramentas disponíveis para o ser humano utilizar; ela configura um modo de apreender aquilo que existe, dispondo-o como algo calculável, ordenável e disponível.

A consequência política dessa perspectiva é decisiva. A técnica não modifica apenas aquilo que fazemos no mundo: modifica o modo como o mundo é experimentado, administrado e governado. Antes mesmo que uma decisão política seja tomada, existe uma configuração técnica que delimita o campo do possível. A decisão política não desaparece, mas é precedida por uma ordenação técnica da realidade.

É por isso que a técnica não pode ser compreendida como simples instrumento colocado nas mãos do poder. Ela própria prepara novas formas de autoridade. Quanto mais o poder se apresenta como procedimento, algoritmo, expertise, necessidade administrativa ou inevitabilidade econômica, menos aparece como poder político. E justamente aí reside sua eficácia: o poder torna-se mais efetivo quando consegue não parecer poder.

A tecnocracia é a forma política correspondente a essa transformação. Segundo Di Cesare, configura-se um poder tecnocrático sem precedentes, no qual a política é progressivamente reduzida à governança administrativa e subordinada a estruturas econômicas, financeiras, empresariais e tecnológicas. O demos permanece formalmente presente, mas perde aquilo que deveria constituir sua força própria: o kratos.

O paradoxo entre a técnica e o sangue

É justamente aqui que surge o paradoxo central do tecnofascismo. Técnica e sangue parecem pertencer a mundos incompatíveis. De um lado, uma racionalidade global, abstrata, deslocalizada, apoiada em fluxos financeiros, redes tecnológicas e dispositivos administrativos. De outro, a reivindicação de uma comunidade fundada na origem, no nascimento, na descendência, no sangue e no solo. Para Di Cesare, entretanto, essas tendências não se excluem. Elas se reforçam.

A tendência tecnocrática esvazia a política e transforma o governo em administração. A tendência etnocrática recompõe a comunidade a partir de uma identidade supostamente natural. Uma opera em escala global; outra precisa de uma tradução local. Uma dissolve os vínculos políticos em redes anônimas; outra oferece aos indivíduos a promessa de pertencimento, proteção e identidade. O resultado é uma aliança paradoxal entre o comando da técnica e o comando do sangue.

O tecnofascismo seria, assim, uma espécie de Janus bifronte: olha simultaneamente para o global e para o local, para a deslocalização dos poderes e para a hiperidentificação dos povos. A fotografia de Donald Trump cercado, em sua posse do segundo mandato à presidência da República norte-americana, por representantes do universo das Big Techs torna-se, nessa leitura, uma imagem particularmente eloquente de uma configuração difícil de classificar segundo as categorias políticas tradicionais.

Não estamos simplesmente diante de uma tecnocracia. Tampouco de um retorno ao nacionalismo clássico. O que emerge é a combinação de duas formas de comando que parecem contraditórias, mas que encontram uma funcionalidade comum.

Do demos ao ethnos

É nesse ponto que a democracia sofre uma transformação particularmente profunda. O demos democrático não pressupõe uma origem comum. Seu fundamento não é a genealogia, mas a participação. Uma democracia não deveria ser uma família de iguais, mas um comum de iguais.

A etnocracia introduz outra lógica: transforma a comunidade política em uma espécie de hiperfamília, fundada no nascimento e na descendência. O pertencimento deixa de ser principalmente uma questão de participação e passa a ser apresentado como herança. A genealogia ocupa o lugar da política.

O paradoxo é que a democracia pode continuar funcionando formalmente enquanto seu princípio é progressivamente alterado. Instituições permanecem, eleições acontecem, procedimentos são preservados, mas o demos é progressivamente reduzido ao ethnos. O outro deixa de ser um cidadão potencial e passa a ser uma ameaça à comunidade.

É nesse deslocamento que o migrante adquire uma importância política decisiva. Ele não é apenas aquele que atravessa uma fronteira geográfica. Torna-se a figura diante da qual uma comunidade revela os critérios pelos quais decide quem pode pertencer e quem deve ser excluído. A política migratória, portanto, deixa de ser uma questão periférica: ela expõe a própria concepção de democracia em funcionamento. Di Cesare já identificara esse mecanismo naquilo que denomina "democracia imunitária": uma forma de proteção que produz simultaneamente um lado de dentro e um lado de fora, protegendo os incluídos mediante a exposição daqueles que são percebidos como ameaça.

A promessa política deixa, então, de ser a construção de um mundo comum e passa a assumir a linguagem da proteção. Proteger a nação. Proteger as fronteiras. Proteger a identidade. Proteger os cidadãos. Mas proteger de quem? A resposta tende a ser construída pela fabricação de um exterior ameaçador.

O estrangeiro torna-se, assim, o ponto de condensação dessa nova racionalidade: objeto de gestão técnica e, simultaneamente, inimigo identitário. É classificado, controlado, filtrado e vigiado pelos dispositivos técnicos; ao mesmo tempo, é apresentado como aquele que ameaça a suposta homogeneidade do corpo nacional. A tecnocracia fornece os dispositivos; a etnocracia fornece o inimigo.

Uma democracia sem kratos

É nesse sentido que a democracia imunitária pode ser compreendida como uma democracia esvaziada de seu próprio poder. O demos permanece, mas o kratos se desloca. A população continua sendo convocada como sujeito formal da soberania, enquanto decisões fundamentais são cada vez mais transferidas para circuitos econômicos, financeiros, tecnológicos e administrativos.

A consequência não é necessariamente a supressão imediata da democracia, mas sua transformação em uma estrutura cada vez mais desprovida de potência política. A democracia continua sendo pronunciada, celebrada e institucionalmente preservada, enquanto seu núcleo participativo é corroído.

Por isso, o tecnofascismo não deve ser interpretado como uma simples volta ao passado. Ele não quer restaurar exatamente as estruturas políticas de outrora. Sua novidade está em transformar a identidade em último recurso político, ao mesmo tempo que submete a decisão a uma racionalidade técnica.

A Alemanha, com o crescimento da extrema-direita, e os Estados Unidos, com políticas apresentadas como formas de proteção diante da presença de estrangeiros indesejados, podem ser lidos nesse horizonte mais amplo de transformação da relação entre identidade, técnica e democracia. O problema não é apenas a emergência de forças de extrema-direita, mas a transformação do próprio terreno sobre o qual elas conseguem prosperar.

A guerra como forma de governo

Se há um ponto em que essas tendências convergem de maneira particularmente intensa, ele é a guerra. Na leitura de Di Cesare, a guerra deixa de ser apenas um acontecimento excepcional e passa a ocupar o horizonte permanente da política. Rearmamento, administração da ameaça, indústria militar e cálculo estratégico tornam-se componentes de uma governança que opera sob o signo da emergência.

A guerra é, nesse sentido, o ponto máximo do tecnofascismo porque nela convergem as duas dimensões que o constituem: técnica e sangue. A técnica calcula, administra, seleciona e executa; o sangue mobiliza identidades, pertencimentos e antagonismos. A primeira oferece os meios; o segundo fornece a energia política da mobilização.

Mas a guerra contemporânea não se reduz somente ao confronto entre exércitos. Ela acontece também como campo de batalha calculado, administrado e tecnificado. A eliminação de vidas pode tornar-se uma operação técnica. O conflito é transformado em variável, dispositivo e gestão. A guerra deixa de ser somente aquilo que interrompe a política e passa a ser uma forma pela qual a própria política se organiza.

É por isso que a afirmação de Di Cesare, "a técnica governa conflitos e o sangue mobiliza os sujeitos", concentra uma das chaves de sua análise. A guerra contemporânea une o cálculo abstrato das tecnologias à mobilização concreta das identidades. Nesse cenário, a política corre o risco de se tornar administração permanente da ameaça. E uma democracia que governa continuamente sob a promessa de proteção pode descobrir, pouco a pouco, que a emergência deixou de ser exceção para converter-se em normalidade.

Ainda temos palavras para o que está surgindo?

Talvez uma das provocações mais importantes do pensamento de Di Cesare esteja justamente na dificuldade de nomear o presente. As categorias herdadas do século XX já não parecem suficientes. Fascismo, totalitarismo, nacionalismo, tecnocracia, soberania: cada uma delas ilumina uma dimensão, mas nenhuma parece capaz, isoladamente, de apreender a nova composição.

O tecnofascismo nomeia justamente essa zona de intersecção. Não é fascismo histórico redivivo. Não é mera tecnocracia. Não é somente nacionalismo. É uma configuração na qual a política se esvazia enquanto a identidade se exacerba; na qual os centros de poder se tornam globais enquanto os sujeitos são convocados a se reconhecer em comunidades fechadas; na qual a técnica administra e o sangue mobiliza. O desafio filosófico, portanto, não consiste apenas em denunciar a erosão da democracia. É preciso compreender que tipo de democracia está emergindo desse processo e que forma de governo começa a tomar corpo em seu interior.

O estrangeiro residente como tarefa política

É diante desse cenário que a filosofia da migração proposta por Di Cesare adquire sua dimensão mais radical. Sua aposta não está no nativo nem no colono, mas no estrangeiro residente. Não se trata simplesmente de acolher aquele que chega, mas de repensar a própria política a partir da condição daquele que habita sem poder reivindicar a terra como propriedade originária.

O verbo decisivo passa a ser coabitar. A terra não é apropriável em sentido absoluto. Ninguém possui um direito metafísico de precedência sobre aquele que chega. A comunidade política não deveria ser fundada na origem, mas na convivência. O estrangeiro residente desloca, assim, a política de uma genealogia do sangue para uma experiência compartilhada do mundo. Essa perspectiva recoloca a migração no centro da filosofia política. O estrangeiro não é somente aquele que precisa ser integrado a uma ordem já constituída. Ele interroga essa própria ordem. Pergunta quem tem o direito de pertencer, sobre que fundamento se constrói uma comunidade e até onde pode chegar a pretensão de transformar nascimento em título político.

A questão decisiva talvez seja, então, menos saber como proteger uma comunidade contra aqueles que chegam do que perguntar que comunidade ainda podemos construir se aceitarmos que ninguém possui a terra como herança absoluta.

É nesse ponto que a crítica ao tecnofascismo encontra sua tarefa política. Contra um mundo em que a técnica administra e o sangue mobiliza, Di Cesare recoloca a política no terreno do comum. Contra a genealogia, a participação. Contra a imunização, a coexistência. Contra a comunidade concebida como família fechada, a coabitação.

Talvez o futuro da democracia dependa precisamente da capacidade de reabrir esse espaço antes que o demos, privado de seu kratos, seja definitivamente substituído pelo ethnos e antes que a técnica, tendo deixado de ser apenas instrumento, passe a determinar silenciosamente quem pode viver, quem pode pertencer e quem deve permanecer do lado de fora.

Quem é Donatella Di Cesare?

Donatella Di Cesare é filósofa, ensaísta e colunista italiana que leciona Filosofia Teorética na Università di Roma "La Sapienza". É uma das pensadoras mais influentes no debate público italiano e internacional, seja acadêmico, seja midiático. Colabora em vários jornais e revistas, incluindo L'Espresso e il Manifesto. Seus livros e ensaios são traduzidos mundialmente, dentre os quais destacamos: O complô no poder (Aynè, 2022), Vírus soberano? A asfixia capitalista (Aynè, 2020), Estrangeiros residentes: uma filosofia da migração (Âyiné, 2020), Terror e modernidade (Aynè, 2019) e o mais recente Tecnofascismo (Einaudi, 2025).

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