Avanço da extrema direita na América Latina é influência direta da pressão e ingerências de Trump

Foto: Wikimedia Commons

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04 Agosto 2026

A partir da análise das últimas vitórias de líderes conservadores, historiadores apontam alta interferência de Trump.

A reportagem é de Maria Teresa Cruz, publicada por Brasil de Fato, 03-08-2026.

Com a recente vitória do candidato de extrema direita na Colômbia, Abelardo de la Espriella, e de Keiko Fujimori no Peru, o mapa latino-americano voltou a ser pintado novamente de azul, ainda mais quando também consideramos os atuais governos na Bolívia, Equador, Honduras, Chile, Panamá, Paraguai, República Dominicana, Argentina e El Salvador: todos governados pela extrema direita.

O avanço da extrema direita pelo continente vem sendo articulado com especial atenção pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem promovendo ingerências em processos eleitorais e tomando medidas de pressão contra quem ainda ousa enfrentá-lo.

O cenário colocado impõe desafios para o campo progressista em toda a América Latina, mas oferece caminhos para a resistência desse campo da esquerda. Em participação no podcast Dilemas do Sul, Joana Salém, historiadora e professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), avalia que, no contexto da Colômbia, apesar da derrota de Iván Cepeda, a esquerda saiu fortalecida do processo, ainda mais considerando o histórico colombiano de sucessivos governos de direita nas últimas décadas.

“Havia algumas variações dentro do campo conservador, mais neoliberais, mais agressivas na política antidrogas, uma direita mais moderada, mas eram variações da direita, e a esquerda colombiana sempre teve muita dificuldade de emplacar eleitoralmente. O [atual presidente, Gustavo] Petro, por si só, já é um fato novo da conjuntura, que foi um presidente organizador e mobilizador da esquerda colombiana”, aponta.

A historiadora destacou alguns pontos importantes da gestão de Petro, citando a reforma no comando militar do país, ao retirar todos os militares ligados ao uribismo, a melhoria nas políticas sociais, como redução da idade de aposentadoria de mulheres, e a reforma trabalhista.

Salém destaca que, com a derrota, o projeto de país de esquerda acaba interrompido. Contudo, a campanha mostrou a capacidade de mobilização do campo progressista. “Essa campanha eleitoral foi bastante mobilizadora. A esquerda colombiana é muito diversa, com enraizamento popular, com movimentos organizados e que representaram uma confiança nas reformas feitas pelo Gustavo Petro”, pontua.

O historiador e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Miguel Stedile, acrescenta à fala de Joana Salém que o período de Petro na presidência será encarado, daqui a algum tempo, como “um momento histórico”.

Segundo ele, para compreender o atual momento político colombiano, é preciso compreender que a história do país foi atravessada por muita violência, que acabou criando um narco-estado no período de Pablo Escobar, com mortes e o aumento considerável da violência urbana. Esse contexto levou o país a entrar nos anos 1990 com uma forte militarização dos Estados Unidos. “A simples vitória do Petro, mesmo se ele tivesse feito um governo moderado, que ele não fez, já seria completamente uma exceção nesse contexto da própria história colombiana”, defende.

Stedile atribui a derrota de Petro ao contexto latino-americano, que teve até invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelo governo Donald Trump. “Há dois anos atrás, o Petro não tinha um governo Donald Trump assediando a América Latina como a gente tem hoje. Não tinha uma doutrina Monroe e não tinha um 3 de janeiro em que os Estados Unidos disseram: ‘Isso aqui são protetorados dos Estados Unidos, a China não deve comercializar e nós vamos importar a nossa hegemonia e, se preciso, violar a soberania territorial de um país e sequestrar o presidente’. Tudo baseado numa acusação que depois eles abandonaram”, ressalta.

“É um aviso para as eleições brasileiras. Que ninguém imagine que teve uma química entre o Trump e o Lula. Não tem química, não vai ter química com ninguém que se oponha aos interesses dos Estados Unidos. A outra questão é o próprio contexto de avanço da extrema-direita, que é consequência e é retroalimentado por esse trumpismo. Eu diria que o mapa não está pintado de azul. É azul, vermelho e branco”, afirma, em referência as cores da bandeira estadunidense”, complementa Stedile.

Confira a entrevista completa no link abaixo:

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