07 Julho 2026
Pesquisa do IBGE mostra impactos duradouros da tragédia climática que atingiu o Sul do país em 2024; população mais pobre concentrou os maiores prejuízos
A informação é de Observatório do Clima, 06-07-2026.
Quase dois anos após as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, os efeitos ainda persistem: 67,5% das vítimas afirmam que a saúde mental foi afetada, mostra uma pesquisa do IBGE divulgada na última semana. População de baixa renda é a que mais sofreu os impactos da tragédia.
O levantamento buscou avançar na compreensão sobre os impactos provocados pelo evento climático extremo que atingiu o Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024 e a avaliar a percepção da população afetada quanto à qualidade de vida após o desastre.
As chuvas afetaram 92,4% dos 497 municípios gaúchos. Para a pesquisa, o IBGE entrevistou moradores de 133 municípios, que concentram 56,3% da população do estado e cerca de 2,3 milhões de domicílios.
Segundo o levantamento, quase 67% dos domicílios atingidos pertenciam a famílias com rendimento mensal de até R$ 5 mil, e parte significativa dessas pessoas ainda enfrentava dificuldades no período em que as entrevistas foram realizadas, entre 15 de setembro de 2025 e 27 de fevereiro de 2026. A qualidade de vida piorou para parte das pessoas.
“A pesquisa contemplou entrevistas diretas com a população, o que até então nunca tinha acontecido. Foram ouvidos os próprios moradores dos domicílios e o desenho da amostra assegurou que fossem contemplados aqueles que estavam localizados nas áreas mais atingidas pelas chuvas”, explica Juliana Paiva, gerente substituta de Estudos e Pesquisas Sociais do IBGE.
Cerca de um quarto dos entrevistados afirmou que residia em lugares onde as condições gerais de vida no momento das entrevistas eram piores do que as vivenciadas no mês anterior às enchentes.
Entre as pessoas que precisaram deixar suas casas após as enchentes — 14,6% do total —, quase 30% viviam em domicílios com renda de até R$ 2 mil. Segundo o IBGE, os dados mostram uma concentração de mudanças de endereço entre os moradores de menor rendimento.
Nos domicílios com renda de até R$ 3 mil, 45,4% estavam localizados em áreas que sofreram impactos nas proximidades. Também foi entre essa faixa de renda que se concentrou a maior parte das pessoas que precisaram de atendimento médico em decorrência das enchentes.
A interrupção das aulas também foi um dos principais reflexos do desastre. Entre as 1,6 milhão de pessoas que frequentavam a escola em abril de 2024, 79% deixaram de estudar temporária ou permanentemente durante as enchentes. Na época das entrevistas, quase 5% não haviam retornado à escola.
A percepção de piora na qualidade de vida também foi mais frequente entre as famílias mais pobres. Metade dos entrevistados que afirmaram viver pior após as enchentes tinha rendimento mensal de até R$ 3 mil. Entre os principais problemas apontados estão o acesso aos serviços de saúde, o abastecimento de água, o escoamento das águas das chuvas, o esgotamento sanitário e o transporte coletivo.
Um estudo da rede World Weather Attribution (WWA) publicado logo após o evento, em junho de 2024, revelou que as mudanças climáticas dobraram a probabilidade de ocorrência das chuvas históricas que devastaram o Rio Grande do Sul. A crise climática também tornou a precipitação de 6% a 9% mais intensa, somando-se aos efeitos do fenômeno El Niño na região à época.
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