03 Julho 2026
Enchentes fizeram 349 mil pessoas mudarem de casa; 2 em cada 3 gaúchos tiveram sua saúde mental afetada pela tragédia, mostra IBGE.
A informação é publicada por ClimaInfo, 02-07-2026.
Com a possibilidade de um El Niño forte a partir do 2º semestre – somado ao impacto das mudanças climáticas -, cresce o temor de que a tragédia climática como a que atingiu quase todo o Rio Grande do Sul em maio de 2024 se repita. Ainda mais porque um estudo inédito do IBGE mostra que o estado ainda não se recuperou do que aconteceu há mais de dois anos.
A Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (PEERS) foi divulgada na 4ª feira (1º/7). A coleta de dados foi realizada pelo instituto entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026, em 133 municípios gaúchos. O desastre climático matou 185 pessoas e deixou 23 desaparecidos.
A PEERS estima que 6,3 milhões de gaúchos foram afetados pelas fortes chuvas de maio de 2024 – mais da metade da população do estado à época. Além disso, o total de domicílios nas áreas mais atingidas pelas enchentes é estimado em 2,3 milhões, informa a CNN Brasil.
Segundo a pesquisa, pouco mais de 349 mil pessoas mudaram de endereço por causa das inundações – o equivalente à toda a população de Vitória, a capital do Espírito Santo. Entre os entrevistados, 25% disseram morar agora em domicílios com piores condições do que em maio de 2024. Para 18%, as condições de moradia melhoraram, enquanto 57% disseram estar em moradias semelhantes às que perderam.
Surpreendendo zero pessoas, os dados confirmam que os mais pobres foram os mais atingidos: os danos estruturais nas casas foram mais frequentes na faixa da população que recebe até R$ 2 mil. Embora os domicílios com este nível de renda representem 24,6% do total da pesquisa, são 31,4% dos que tiveram avarias nos imóveis, explica o Matinal.
Dois em cada três gaúchos relataram abalo em sua saúde mental por causa das enchentes. E seis em cada 10 apontaram interrupções no convívio social e com a família em decorrência da tragédia climática.
Segundo o IBGE, mais da metade (55,5%) dos residentes avaliaram algum tipo de dano na estrutura de suas casas após as inundações. Além disso, a grande maioria (88%) dos domicílios apresentou ocorrências causadas pelo desastre climático, principalmente interrupção de fornecimento de água e luz (ambas com 66,3%), informa o Sul21.
Entrevistado pela Folha em 2024, o agricultor familiar Fabio Scheibel, de 43 anos, ainda sente os prejuízos da tragédia climática. Com a destruição causada pela cheia do rio Taquari, ele precisou deixar a sua casa na área rural de Cruzeiro do Sul, a cerca de 120 km de Porto Alegre. Dois anos depois, ele está morando com a família em um imóvel cedido pelos sogros. Para economizar, cortou despesas com planos de saúde.
O agricultor conseguiu retomar a produção de hortaliças com 30% do que era cultivado em sua propriedade antes da tragédia. Ele ainda aguarda melhorias na estrada que o leva até o local de trabalho. “Estamos caminhando, talvez não da forma como esperávamos no início. Os passos são lentos. Estamos reconstruindo as coisas devagarinho.”
Mais do que números e percentuais, o principal retrato obtido com a PEERS é o relato dos impactos do desastre climático pelo olhar das pessoas que o viveram na pele. “A pesquisa contemplou entrevistas diretas com a população, o que até então nunca tinha acontecido. Foram ouvidos os próprios moradores dos domicílios e o desenho da amostra assegurou que fossem contemplados aqueles que estavam localizados nas áreas mais atingidas pelas chuvas. Abordaram o que aconteceu no período, desde os impactos físicos nas suas casas e entorno e evacuação, passando pelos impactos na vida pessoal; citaram a saúde e o atendimento médico durante as inundações, por exemplo; condições de trabalho e estudo, até a avaliação a qualidade vida pós-desastre”, explicou a gerente substituta de Estudos e Pesquisas Sociais do IBGE, Juliana Paiva.
A pesquisa foi noticiada também por GZH, g1, Canal Rural, Valor, O Globo, CBN, Poder 360, O Sul, Metrópoles, Correio Braziliense e Carta Capital.
Em tempo
A chuva que atingiu o norte e o oeste do Rio Grande do Sul entre a noite de 4ª e o início de 5ª feira (1º e 2/7) causou alagamentos, quedas de árvores, danos em residências e comércios e deixou rios próximos do nível de transbordamento. Em algumas localidades, as aulas precisaram ser suspensas. Os maiores acumulados de chuva em 24 horas foram registrados em Jacutinga (143,6 mm), Esmeralda (109,6 mm), Erechim (100,8 mm), Marcelino Ramos (95,2 mm) e Paim Filho (95,0 mm), detalha a Folha.
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