Vozes de Emaús: Ecoteologia: Um saber interdependente. Artigo de Afonso Murad

Arte: Lauren Palma | IHU

27 Junho 2026

"É uma teologia aprendiz e peregrina, abrindo caminhos para um mundo sustentável e feliz"

O artigo é de Afonso Murad, professor de teologia na FAJE. Escritor e ambientalista.

Afonso Murad (Foto: Arquivo Pessoal)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto e ter acesso a todos os artigos da coluna, verifique o leia mais, no fim do texto. Para saber mais sobre o projeto, clique aqui.

Eis o artigo.

Ecologia e ecoteologia

A ecoteologia é uma corrente teológica teórica e prática, ética e espiritual. Ela realiza um diálogo vivo, profícuo e enriquecedor da fé cristã com a ecologia. Essa compreende ao menos três dimensões interligadas: ciência, paradigma e ética. Enquanto conjunto das ciências ambientais, a ecologia estuda como interagem todos os “habitantes” do planeta: os seres abióticos (água, ar, solo, energia do sol) e os bióticos (microorganismos, plantas e animais). Ela tece relações com várias áreas de estudos e disciplinas, como as ciências da saúde, a engenharia, o design, a geografia, etc visando uma civilização sustentável.

Ao questionar o antropocentrismo egóico da modernidade, a ecologia propõe um novo modelo de compreensão sobre o ser humano e seu lugar no planeta. Tal paradigma elucida a interdependência da nossa espécie com a vida em toda sua extensão. Inclui a ética, por meio de atitudes individuais e coletivas, processos institucionais de educação e novos modelos de produção e consumo. As ciências ambientais são insuficientes, se não questionam o modelo de sociedade e a visão sobre o ser humano. O paradigma ecológico e a ecosofia favorecem a reflexão sobre o sentido da existência humana e a forma adequada dela se relacionar com todos os seres.

A ecoteologia interage com essas três dimensões de ecologia. Ela aprende das ciências ambientais acerca do equilíbrio ecológico, das causas da crise ambiental e das alternativas viáveis. Subsidia a ética ecológica, com valores e práticas coletivas. A fé cristã contribui o paradigma ecológico com as leituras bíblicas, seus símbolos e valores, a ecoespiritualidade, a antropologia teológica e a proposta de um novo estilo de vida, marcado pela sabedoria e a sobriedade feliz. Em sintonia com elementos do pensamento atual, como a teoria da complexidade, abre janelas inusitadas. Recria-se, em contextos urbanos, a proposta do Bem Viver, proveniente dos povos originários andinos.

Teologia da Libertação e Ecoteologia

A ecoteologia do nosso continente se assemelha à filha que aprende com a mãe e o pai, internaliza os recebidos valores e faz seu caminho próprio, mantendo os vínculos de origem. Nossa ecoteologia recebe seu DNA da Teologia da Libertação e dela herda muitas características. Ao mesmo tempo, a ecoteologia amplia a relação entre saber racional e sabedoria, ao dialogar com a sabedoria dos povos originários, a ecosofia, a Deep Ecology e o paradigma ecológico.

A TdL denuncia a espoliação dos pobres e se empenha na construção de uma sociedade justa e fraterna. A ecoteologia se compromete nessas lutas, considerando que os pobres e a Terra estão feridos. Papa Francisco afirma na Laudato Si: “(Há) uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza”.

Alguns povos originários tratam os membros de outra etnia indígena como “parentes”. Analogicamente, a ecoteologia tem parentes próximos, irmãos e irmãs e companheiros. Há um grau de amizade, cooperação, troca de conhecimentos e partilha de “boas práticas”. Mais ainda: o mesmo teólogo ou teóloga se identifica com duas ou mais correntes teológicas. São teologias irmãs da ecoteologia: a teologia feminista, a teologia indígena, a teologia negra ou afro-americana, a teologia pública, a teologia das religiões e a teologia decolonial. Cada uma delas oferece uma contribuição singular para a ecoteologia, ao trazer visões de gênero, de etnias, de culturas, de religiões e de territórios, estabelecendo relações colaborativas e de aprendizagem recíproca.

Herança e recriação

A ecoteologia latino-americana herda da Teologia da Libertação vários elementos, tais como: produção teológica vinculada com a pastoral, sensibilidade às questões emergentes na sociedade; práticas transformadoras coletivas; releitura da bíblia; elaboração de material didático em perspectiva libertadora, espiritualidade encarnada; metodologia centrada na participação e protagonismo dos pobres e das mulheres.

A TdL enfatiza a dimensão comunitária da fé. Desperta a Igreja para as implicações políticas e sociais do seguimento de Jesus. Convoca a mudar as estruturas que geram e mantêm a pobreza e exclusão. A ecoteologia latino-americana acolhe e incorpora tal projeto e dá um passo a mais. Acentua a interdependência do humano com a “comunidade de vidada Terra. Isso impacta na espiritualidade, no jeito de formular e expressar o pensamento, e realizar a ação transformadora no mundo.

A ecoteologia não se contenta em ser teologia da práxis. Ela sustenta o caráter contemplativo da ciência da fé. Clama em alta voz e faz silêncio. Reverencia o mistério de Deus na história humana e na natureza. Desenvolve o louvor e a ação de Graças. Busca equilibrar eficácia com gratuidade, engajamento com fruição. Aprende da natureza a esperar o tempo favorável, a respeitar os ciclos e os ritmos. Conjuga indignação e encantamento.

Em suma, ecoteologia assume a TdL e amplia suas perspectivas. Dessa forma, contribui para a reflexão teológica, a prática pastoral, a sensibilização para as questões socioambientais, a ecoespiritualidade macroecumênica, as práticas coletivas sustentáveis, um estilo de vida simples e feliz, o diálogo interdisciplinar com outras ciências e saberes, além da relação estreita com outras correntes teológicas libertadoras. É uma teologia aprendiz e peregrina, abrindo caminhos para um mundo sustentável e feliz.

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