“Esse fenômeno irrompeu e deu início a uma onda que começou no Mali e rapidamente se espalhou para Burkina Faso e Níger”. Entrevista com Guadi Calvo

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24 Junho 2026

Guadi Calvo é um proeminente autor, jornalista e analista internacional argentino, reconhecido pelo seu trabalho aprofundado no estudo de conflitos e dinâmicas sociopolíticas em regiões frequentemente marginalizadas pela mídia tradicional. Seu trabalho se concentra na África, no Oriente Médio e na Ásia Central, áreas nas quais ele oferece uma perspectiva crítica e bem documentada, combinando rigor jornalístico com um compromisso de visibilizar realidades complexas e muitas vezes silenciadas.

A entrevista é de Wilkins Román Samot, doutor pela Universidade de Salamanca, publicada por Rebelión, 20-06-2026. A tradução é do Cepat.

Com vasta experiência em análise geopolítica, Calvo colaborou amplamente com a Agência Latino-Americana de Informação (ALAI), uma plataforma que promove o acesso à informação a partir de uma perspectiva crítica e a serviço dos direitos humanos. Além disso, seu trabalho foi divulgado em inúmeros veículos de mídia alternativos e comunitários, tanto na América Latina quanto no mundo, estabelecendo-o como uma voz importante para a compreensão das tensões globais a partir de uma perspectiva do Sul Global.

A abordagem de Guadi ultrapassa a mera descrição de eventos: ele aborda as raízes históricas, econômicas e culturais dos conflitos, com particular atenção aos efeitos do colonialismo, da interferência externa e das lutas pela autodeterminação dos povos. Essa perspectiva o levou a cobrir temas como as guerras no Sahel, os movimentos de resistência no Oriente Médio, a dinâmica de poder na Ásia Central após a retirada dos EUA do Afeganistão e o papel de potências emergentes como a China e a Rússia nesses cenários.

Calvo também se destacou por seu compromisso com o jornalismo independente, defendendo o acesso à informação como ferramenta de transformação social. Seu trabalho, disseminado por meio de artigos, ensaios e análises multimídia, contribui para desmantelar narrativas hegemônicas e amplificar as vozes das comunidades afetadas por conflitos e desigualdades estruturais.

Além de seu trabalho informativo, Calvo participa ativamente de debates, promovendo uma perspectiva decolonial na análise internacional. Seu trabalho reflete uma convicção: compreender o mundo exige ouvir aqueles que habitam seus cantos mais esquecidos. Por essa razão, continua a ser uma figura indispensável para aqueles de nós que buscam compreender as complexidades globais a partir de uma perspectiva crítica, ética e profundamente humana.

Eis a entrevista.

Guadi, após a intervenção internacional no Mali em 2013, o país passou por uma série de golpes de Estado e crescente instabilidade, apesar dos esforços para restaurar a democracia. Poderia explicar como a intervenção inicial e a instabilidade subsequente prepararam o terreno para a complexa situação atual?

As turbulências que o país viveu após o golpe militar contra o presidente Amadou Toumani Touré, no contexto da guerra civil que se desenrolava na Líbia após a morte do coronel Gaddafi – uma guerra infiltrada por milhares de terroristas financiados pelas monarquias do Golfo –, permitiram que os grupos tuaregues, que há muito reivindicavam a criação de seu próprio Estado, conhecido como Azawad, tomassem o controle de um vasto território que, à semelhança do Curdistão, foi dividido sob o controle de vários países: Mauritânia, Argélia, Níger e, particularmente, as regiões norte e central do Mali.

Rapidamente, esse movimento foi cooptado pela ala religiosa mais radicalizada da comunidade, que abrigava muitos membros da Al-Qaeda, veteranos da Guerra Civil Argelina (1992-2002), e alguns deles inclusive participaram da guerra antissoviética no Afeganistão (1979-1989). Essa turbulência, que se instalou essencialmente no norte do Mali, era incontrolável não só para as Forças Armadas do Mali (FAMa), mas também para o “Grupo Sahel 5”, fundado em 2014 e composto por militares da Mauritânia, Mali, Níger, Chade e Burkina Faso, que também se mostraram incapazes de intervir eficazmente.

Diante disso, a França, potência então dominante, ordenou uma intervenção armada com duas operações: a primeira, Operação Serval, em 2013, limitada ao norte do Mali, e a segunda, ampliada em escopo e duração no ano seguinte, denominada Operação Barkhane, na qual participaram cerca de cinco mil militares franceses.

Como sempre nesses casos, eles operaram mais como uma força de ocupação e de pressão contra os governos que deveriam auxiliar, do que como uma verdadeira força de contenção. Os erros franceses e a passividade do governo de Ibrahim Boubacar Keïta na guerra contra o terror foram os principais catalisadores dos golpes militares de 2020 e 2021, liderados por oficiais subalternos que suportaram o verdadeiro peso dessa guerra.

A retirada das forças francesas e da missão da ONU (MINUSMA) remodelou o cenário de segurança. O que essa redução na presença internacional significou para a transição e o controle territorial no Mali?

É evidente que o principal objetivo da França era manter o controle não apenas no Mali, mas também no que ficou conhecido como “Françafrique”, um sistema pós-colonial por meio do qual a antiga potência colonial manteve o controle sobre suas antigas colônias para além dos movimentos de independência da década de 1960, preservando sua influência política, militar e, fundamentalmente, econômica. Isso permitiu que a França controlasse as alavancas da produção, particularmente em hidrocarbonetos e mineração, por quase 60 anos.

Este fenômeno provocou uma eclosão, dando início a uma onda anticolonial que começou no Mali no início desta década, e que imediatamente ultrapassou as fronteiras para Burkina Faso (2022) e o Níger (2023). E foi contida no Chade antes de ser finalmente detida. A expulsão não só da França, mas também dos Estados Unidos, juntamente com algumas outras operações financiadas pelas Nações Unidas, deixaram frentes abertas que os terroristas da Al-Qaeda e do Estado Islâmico conseguiram penetrar e que a presença de empresas de segurança russas como o Grupo Wagner, mais tarde conhecido como Africa Corps, não conseguiram fechar.

Embora seja impossível ter acesso a provas a este respeito, não é necessário ser um especialista para “suspeitar” que organizações como o Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos, a Al-Qaeda e o Estado Islâmico no Grande Sahara, são tributários do Estado Islâmico. Não só recebem financiamento das monarquias do Golfo, mas também informações e assistência técnica das potências ocidentais. E no caso da atual crise no Mali, da Ucrânia.

Os golpes militares de 2020 e 2021, liderados pelo coronel Assimi Goïta, dissolveram os governos de transição. Como essas intervenções militares afetaram as aspirações democráticas e a situação humanitária do país?

Nunca, com exceção da África do Sul, e nem tanto, o sistema democrático funcionou em qualquer país do continente africano. E ficaram apenas em aspirações; as razões deste fenômeno baseiam-se na criação colonial destes países. A sua construção foi erguida no terreno pantanoso das profundas diferenças tribais e étnicas que as mais de 10 mil nações que existiam no continente tinham até à chegada dos europeus, como resultado dos acordos da Conferência de Berlim de 1884-1885, quando um punhado de países europeus dividiram o continente. Quando partiram, no início da década de 1960, deixaram menos de 30 países onde se abrigavam grupos tribais, clãs e etnias que estavam em desacordo há milênios, com a missão de criar Estados e aplicar um sistema de representação à imagem e semelhança dos Estados ocidentais.

Não só tudo isso era impossível, como nem sequer conseguiram permanecer unidos. Por isso, hoje são 54 países e ninguém poderia dizer seriamente que esse número não continuará a aumentar, quase imediatamente, uma vez que a atual guerra civil no Sudão só pode ser resolvida com a divisão de pelo menos dois novos Estados. O Sudão do Sul, que há apenas 15 anos é uma nação independente do Sudão, caminha para esse mesmo destino, e não seria estranho se não fosse capaz de conter a atual onda terrorista no Mali, que esta nação também se balcanizasse. Isso apenas geograficamente, uma vez que, observando os processos em que muitas democracias estabelecidas e em perfeito funcionamento no Ocidente embarcaram, que estão fazendo com que muitos se perguntem se este sistema não se esgotou, estaremos nós em posição de exigir que a África aplique a receita que começou a falhar no Ocidente?

Após os golpes de Estado, o Mali entrou num governo militar de fato, com uma crescente cooperação com a Rússia, incluindo a presença do Grupo Wagner. Poderia detalhar a história e as diferenças fundamentais entre as forças armadas do Mali e os grupos mercenários que operam no país, e como a sua colaboração impactou a segurança?

Muitos dos líderes militares que hoje governam o Mali receberam treinamento militar em diversos institutos e escolas militares russas. Lá, adquiriram uma formação diferente daquela das escolas europeias e estadunidenses. Isso explica por que, ao assumirem o poder, buscaram mudar o status colonial de seus países, ao mesmo tempo em que enfrentavam grupos insurgentes que estavam entrincheirados em seu território há quase uma década. Graças ao fracasso – talvez premeditado – das operações militares de Paris e Washington, que não produziram resultados concretos, os jovens oficiais malianos entenderam que não podiam aplicar as mesmas fórmulas antigas e esperar resultados diferentes. Isso os levou a buscar apoio da Rússia e do infame Grupo Wagner. Após o estranho “minueto” que pôs fim à vida de seu líder, Yevgeny Prigozhin, em 2023, a Rússia foi obrigada a empreender uma profunda reestruturação da companhia mercenária, que agora opera sob o comando direto do Ministério da Defesa russo, mantendo uma presença discreta no Mali.

O conflito no Mali, particularmente nas regiões norte e central, gerou uma enorme crise humanitária. Quais são as consequências mais urgentes para a população civil em termos de deslocamento, acesso a recursos básicos e segurança?

A população civil do Mali vive a mesma realidade que outros países do continente, e são muitos, a começar pelo Sudão, Sudão do Sul, partes da Etiópia, Burkina Faso, Níger, grandes regiões da Nigéria, bem como o Chade, norte de Moçambique, leste da República Democrática do Congo, Líbia, Sinai egípcio, norte do Togo e Benim. Não me detenho nesta lista por mera satisfação, mas para contextualizar a brutal realidade que o continente enfrenta, a qual é pouco reconhecida pela imprensa ocidental.

E aqui, como um déjà vu perverso que se repete em diferentes cenários: deslocamentos em massa que só no Sudão chegam a 14 milhões, além de fomes, execuções em massa, etnocídios, saques, destruição de milhares de aldeias e milhões de hectares de terras aráveis, estupros em massa usados como mais uma arma de guerra e o aparecimento constante de valas comuns, o que torna impossível compreender a verdadeira magnitude da tragédia atual na África, da qual o Mali, como qualquer outro país do continente, não está isento. Sem acesso a água potável, alimentos ou cuidados médicos, a educação e a prevenção de doenças são mais utópicas do que a paz.

Foram documentados numerosos abusos e violações dos direitos humanos por vários atores no conflito. Que mecanismos existem, ou deveriam existir, para lidar com essas violações e buscar justiça no Mali?

O ditado de que a verdade é a primeira vítima da guerra torna-se brutalmente verdadeiro em conflitos tão remotos e pouco divulgados como este. Portanto, qualquer informação, especialmente alegações desta natureza, está sujeita a tentativas veladas de verificar a autenticidade de crimes tão abomináveis como o assassinato em massa de civis e a violação de todos os tipos de direitos humanos. Isso, na prática, confirma a sua existência. Contudo, podemos olhar para o passado e analisar como os fundamentalistas atuaram em outros teatros de guerra.

Devemos lembrar as atrocidades que cometeram na Síria, nas quais o atual presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, participou fervorosamente. Hoje, ele é aplaudido pelo Ocidente como um verdadeiro herói, mesmo que seus homens tenham arrancado e mastigado os corações dos inimigos diante das câmeras. Outros métodos de extermínio de prisioneiros incluíam eletrocussão, afogamentos, pessoas queimadas vivas em gaiolas, explosão de veículos cheios de pessoas e, claro, decapitações rituais. Ouvimos falar desse tipo de ação em todos os lugares onde militantes wahabitas atuaram. Portanto, a única pergunta que resta é por que militantes salafistas não cometeriam esses crimes no remoto coração do Mali.

Quanto aos mecanismos que poderiam ou deveriam existir para prevenir e condenar esse tipo de violação, formalmente, existem tribunais como o Tribunal Penal Internacional, mas eles não operam além da retórica contra figuras genocidas como Netanyahu. Então, que sentido faria agir dessa forma contra um jovem pobre que sofreu fome e todo tipo de privação por gerações, e que foi submetido a uma verdadeira lavagem cerebral em mesquitas e madraças financiadas pela Arábia Saudita, com interpretações infundadas do Alcorão?

O conflito no Mali tem repercussões significativas para a estabilidade regional, especialmente no Sahel. Como essa situação afeta os países vizinhos e a geopolítica da região?

Já estamos vendo como os Estados Unidos, juntamente com a Nigéria, começaram a intervir. A Nigéria acaba de eliminar um dos principais líderes do Estado Islâmico no mundo, Abu Bilal al-Minuki, a quem Trump chamou de “o terrorista mais ativo do mundo”. Esta operação ocorreu às margens do Lago Chade e será seguida por uma possível invasão terrestre do Mali para combater o terrorismo.

Isso nada mais é do que uma tentativa de desmantelar a Aliança dos Estados do Sahel, composta por Mali, Burkina Faso e Níger, que defende posições profundamente anticolonialistas e tem políticas muito próximas de Moscou. Isso revive um projeto do presidente nigeriano Bola Thimbü, que, logo após a deposição do presidente nigerino Mohamed Bazoum pela junta militar que imediatamente anunciou sua intenção de unir forças com os militares em Bamako, buscou que a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) invadisse o Níger para reinstalar Bazoum. O Mali agora está no olho do furacão, um furacão que, sem dúvida, continuará a se espalhar.

Dado o fracasso de múltiplos esforços de mediação e a complexa dinâmica geopolítica, qual é a sua perspectiva sobre as possibilidades de alcançar uma solução política sustentável para o Mali, ou acredita que o país está condenado a um ciclo prolongado de violência?

O fenômeno do terrorismo fundamentalista, uma vez que se instala em um país, é muito difícil de erradicar. Considere os 20 anos de ocupação dos EUA no Afeganistão, onde eles ainda exercem um poder considerável, assim como na Síria. Enquanto isso, em outros países como Iraque, Paquistão, Líbia, Caxemira administrada pela Índia e Egito, eles ainda persistem com um poder de fogo significativo. E isso sem mencionar o Boko Haram e suas variantes na Nigéria e em tantas outras nações. Portanto, acredito que o Mali não será exceção a essa regra de ferro, à qual devemos acrescentar Burkina Faso e Níger, que juntos devem ser considerados uma única crise. Portanto, o Mali está certamente condenado a suportar o terrorismo pelo menos enquanto seus financiadores do Oriente Médio e os interesses ocidentais que o manipulam de acordo com suas necessidades estratégicas na região continuarem a apoiá-lo. Preparemo-nos para um ciclo constante de insurgência fundamentalista.

Alguns analistas sugerem que o envolvimento de atores externos, como a Rússia e outros grupos mercenários, pode complicar ainda mais a situação no Mali. Qual a sua opinião sobre a influência desses atores no futuro do país?

Não é precisamente a presença militar da Rússia e a presença comercial da China que aprofundam a tragédia no Mali e em outros países da região, mas as operações de seus inimigos globais, a começar pelos Estados Unidos, França, Reino Unido e, agora, também a Ucrânia, que se torna um ator importante não só no Mali, mas também na Líbia e no conflito do Sudão.

No contexto das relações internacionais, qual o papel que a comunidade internacional deve desempenhar na promoção da estabilidade e do desenvolvimento no Mali, e quais seriam as ações mais eficazes a curto e longo prazo?

Há muito tempo defendo que o conceito abstrato que chamamos de “comunidade internacional”, enquanto fator de pressão, desapareceu, enquanto entidades como as Nações Unidas foram rebaixadas ao nível de um escritório de operações do Departamento de Estado dos EUA.

E a prova “científica” disso é evidente na tragédia de Gaza, onde, há quase três anos, um genocídio ocorre à luz do dia diante dos olhos do mundo, e a chamada “comunidade internacional” não fez absolutamente nada para impedir essa loucura, que agora se repete no Líbano. Portanto, se ninguém conseguiu impedir o desastre Trump-Netanyahu, que resultou no fechamento imediato do Estreito de Ormuz, com todas as implicações que isso acarreta para a economia global, então ninguém nessa chamada “comunidade internacional” estará disposto a arriscar nada para reverter a tragédia que se avizinha no Sahel.

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