Denúncia de estupros de palestinos: o New York Times na mira de Israel

Foto: Israel Defense Forces | Wikimedia Commons

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19 Mai 2026

"Explodem as acusações de antissemitismo, protestos em frente à redação e a ameaça de Netanyahu de tomar medidas legais. O artigo assinado por Nick Kristof confirma os relatos da ONU e de numerosas ONGs: o motivo do ataque é uma tentativa de intimidar a imprensa", escreve Chiara Cruciati, jornalista italiana, em artigo publicado por il manifesto, 16-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

No fim da tarde de quinta-feira, cerca de duzentos manifestantes se reuniram em frente à redação do New York Times, convocados por várias organizações pró-Israel e judaicas, desde #EndJewHatred até Stop Antizionism. No alvo de críticas há dias está a longa reportagem investigativa publicada no jornal estadunidense em 11 de maio, assinada por Nick Kristof. Nela, o autor — por meio de 14 entrevistas — reconstrói o recurso sistemático aos abusos sexuais e aos estupros contra os prisioneiros palestinos nas prisões israelenses.

"O antissionismo mata os judeus", "Vergonha Kristof" e "Boicote ao Times" — gritavam os manifestantes, entre os quais se destacava o influenciador Zach Sage Fox, figura segundo a qual "todos os muçulmanos são terroristas". Na quinta-feira, ele subiu nos ombros de um manifestante para discursar para a pequena aglomeração: acusou o New York Times da década de 1930 de ter minimizado o regime nazista, o prefeito Mamdani de ter causado uma "redução" no número de apoiadores de Israel na cidade e os muçulmanos em geral de somarem dois bilhões no mundo e assim ameaçar a sobrevivência das comunidades judaicas. O trecho do artigo que mais despertou indignação foi aquele em que Kristof relata o uso de cães para estuprar os prisioneiros, uma denúncia que vem sendo apresentada há meses em vários relatórios bem documentados de organizações de direitos humanos e investigações jornalísticas, e que foi recentemente confirmada ao vivo na TV por soldados em serviço na famigerada prisão de Sde Teiman.

Na véspera da manifestação, o primeiro-ministro israelense Netanyahu anunciou sua intenção de processar o New York Times por difamação (já havia ameaçado fazê-lo no ano passado: o artigo "envolvido" tratava da fome imposta a Gaza por Tel Aviv). O jornal respondeu prontamente: a ameaça faz "parte de um comprovado manual político, destinado a minar o jornalismo independente e sufocar aquele que não se alinha com uma narrativa específica".

Em um editorial publicado ontem, o Haaretz pergunta retoricamente: "Se as condições em que milhares de pessoas são mantidas — Israel não divulga o número — são razoáveis e estão em conformidade com o direito internacional, por que não permitir as visitas (da Cruz Vermelha)?"

A investigação de Kristof entrou no debate midiático e político israelense de uma forma que as denúncias dos sobreviventes, dos médicos militares, da ONU e das ONGs não conseguiram, apesar de conterem evidências da institucionalização das torturas sofridas por palestinos, tão brutais e contínuas que provocaram pelo menos 88 mortes sob custódia e danos permanentes (físicos e psicológicos) a centenas de detentos.

Um sistema efetivamente tornado público pelos macabros tours nas prisões do ministro Itamar Ben Gvir e pelos debates no Knesset sobre a legitimidade do estupro contra os palestinos, após a breve detenção (que culminou na total impunidade) de cinco soldados flagrados em vídeo estuprando um prisioneiro, deixando-o à beira da morte.

Na mira dos ataques está o New York Times e o motivo reside na tentativa mais ampla de intimidar o mundo da informação e torná-lo um alvo, desde os jornalistas de Gaza assassinados às centenas até aqueles estrangeiros perseguidos por denúncias judiciais ou ameaças de influenciadores e seus apoiadores.

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