04 Mai 2026
Desde o cessar-fogo em outubro, as condições sanitárias e de higiene na Faixa de Gaza não melhoraram: risco de doenças.
A reportagem é de Francesca Caferri, publicada por La Repubblica, 03-05-2026.
Há alguns dias, o filho de três anos de Khalil Al-Mashharaw foi mordido na mão e nos pés por um rato na tenda onde dormia com a família. Levado ao hospital, o menino recebeu uma dose maciça de medicamentos para prevenir infecções. Mas, desde então, Al-Mashharaw contou à Reuters, no norte de Gaza, que ele e a esposa têm se revezado para dormir e proteger a criança dos roedores. "Eles atacam enquanto dormimos: se adormecemos, eles mordem", disse ele.
Os ratos — e com eles as pulgas e os ácaros — são o mais recente flagelo de Gaza. Nas últimas semanas, devido ao aumento das temperaturas e à contínua falta de esgotos e instalações adequadas para a coleta de lixo, eles se multiplicaram, agravando a situação de saúde dos 1,4 milhão de pessoas que ainda vivem em tendas na Faixa de Gaza.
Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), mais de 80% dos mais de 1.600 locais de deslocados em Gaza estavam infestados por roedores ou outras pragas em meados de abril. Infecções de pele e erupções cutâneas foram relatadas em quase dois terços dos locais pesquisados, piolhos em mais de 65% e percevejos em mais da metade. De acordo com a mesma fonte, um total de 680.000 crianças — dois terços de todas as crianças em Gaza — vivem em campos de deslocados infestados por roedores ou outras pragas.
Há dias, imagens de crianças, em sua maioria muito pequenas, mordidas por ratos em Gaza circulam nas redes sociais: recém-nascidos com bochechas ou mãos dilaceradas, que acabam em hospitais sem medicação adequada. O alarme foi confirmado por diversos médicos na Faixa de Gaza, entrevistados por jornalistas locais, e pela ONG Save the Children, que lançou um apelo urgente para a remoção das restrições impostas por Israel à quantidade e ao tipo de ajuda humanitária que entra em Gaza, permitindo a chegada de materiais necessários para proteger os campos de refugiados e remover o lixo.
"O crescente número de roedores e parasitas é alimentado pelo acúmulo de lixo, o que levou à disseminação de doenças como sarna, pneumonia e diarreia. Crianças, especialmente bebês menores de cinco anos e aquelas debilitadas pela desnutrição, são mais suscetíveis a essas doenças", diz um comunicado divulgado há dois dias.
Mas é difícil imaginar que esse apelo seja atendido: desde o cessar-fogo de outubro, as condições de vida em Gaza não mudaram muito. Embora a chegada de caminhões com alimentos e medicamentos básicos tenha aumentado, os materiais relacionados à "fase dois" do plano Trump, a da reconstrução, continuam bloqueados. Isso inclui ferramentas de escavação e construções pré-fabricadas para substituir as tendas. Com a aproximação do verão, a situação da infecção corre o risco de piorar.
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