"Convido realmente a esse olhar cuidadoso, que encontre ressonância na vida cotidiana, sentindo junto com a Terra, com o ambiente, com a destruição da vida, e que reverbere em novas crenças, em um novo estilo de vida, que nos ajude a passar do estado de predadores ao estado de jardineiros"
O artigo é de Rosemary Fernandes da Costa, teóloga, assessora do Movimento de Juventudes e Espiritualidades Libertadoras (MEL), professora na PUC-Rio, membro da Comunidade Batismo do Senhor, Caxias, Rio de Janeiro.
Rosemary Fernandes (Foto: Arquivo Pessoal)
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Há alguns dias o irmão de caminhada Celso Carias nos provocou o discernimento sobre o capitalismo e suas amarras. Chegou a mim como a convocação para nos aproximarmos do Bem-Viver, vivenciado por povos originários e tradicionais, tocando no cotidiano de nossas vidas, escolhas, crenças, na cultura não-comunitária na qual o capitalismo nos submerge.
Celso nos traz a experiência de comunidades narrada no livro dos Atos dos Apóstolos, afirmando que a vida de partilha era realidade e não um sonho impossível. Talvez não possamos definir aquela experiência como de resistência, mas podemos afirmar que era uma experiência diferente da subserviência ao Império e à religião da Lei. Em nosso contexto, diante da hegemonia do sistema vigente, cada vez mais economicista e domesticando a todos, os caminhos para fomentar um novo viver – um bem-viver – são realmente caminhos de resistência.
Caminhos, no plural, pois muitos pensadores do tema se deparam com a complexidade da trama capitalista e apontam não apenas um caminho, mas alguns, que podem ser tomados comunitariamente, em pequenas estratégias locais, como alternativas sistêmicas à crise gigante a qual estamos submersos. Citamos alguns destes pensadores, que vêm se dedicando à análise e às proposições que podem ser chamadas de alternativas ao centro capitalista, mas que compreendemos como caminhos exemplares - Pablo Solón, Alberto Acosta, Geneviève Azam, Christophe Aguiton, Elizabeth Beltrán, Eduardo Gudynas, Serge Latouche, Maddy Harland, William Keepin, Paulo Roberto da Silva.
Com todas as suas denúncias, crises e contradições, o capitalismo não implodiu, ao contrário, ele se reconfigura, encontra novos mecanismos de manutenção e novos engodos para a meta de desenvolvimento, bem estar e crescimento econômico, social, geopolítico. Atualmente oferece redução de taxas, circulação de moeda sem custos, trabalho sem responsabilidades sociais, incentivo ao empreendedorismo pessoal, ofertas infinitas para ‘facilitar’ a vida dos ‘sofredores’ do sistema que ele mesmo gesta. Até mesmo desastre naturais, crises políticas e sociais, servem de ‘oportunidade’ para novos negócios.
No centro do grande sofisma permanece a ideia imaginária de uma sociedade de bem-estar como único caminho possível. Tudo gira em torno dessa fábula, como nos apontou Milton Santos tão claramente. Para manter esta sedução, o capitalismo cria infinitos sofismas a partir das próprias necessidades humanas. Não podemos negar sua capacidade de reinvenção destas estratégias. Adiciona a elas as estratégias de invisibilização de qualquer acento de desconforto, de desconfiança do sistema, de alerta de injustiça e desumanização crescentes, como o hiperconsumo, o desperdício, o crescimento infinito de um planeta finito, o aumento das desigualdades, racismos e fobias crescentes, a destruição dos ciclos vitais na natureza.
A partir daqui propomos um repensar crítico, pessoal e também familiar, comunitário, de como estamos vivendo nossas vidas, de como gerenciamos o dia a dia. Podemos identificar nossa participação e cumplicidade com a crise sistêmica, mas desejamos ir além deste diagnóstico, que cria impotência, paralisia e obediência passiva. Ao observarmos os sofismas do sistema, também somos capazes de desmontá-los e caminharmos para uma hermenêutica na direção do bem-viver. Para exemplificar, um antigo slogan que iniciou a publicidade deste multinacional –“Amo muito tudo isso!”- a empresa usa o verbo ‘amar’ – apelo direto a uma necessidade humana -, e soma com a oferta de ‘todos’ os seus produtos. Tire suas conclusões...
Hans Jonas propôs somarmos ao imperativo ético a dimensão da responsabilidade com o futuro da humanidade. Se a ética é sempre relacional, um discernimento importante é nos darmos conta da visão antropocêntrica que domina até aqui, que não apenas coloca o ser humano como superior, mas como separado na natureza. Para uma ética de responsabilidade, superamos a esfera individual e assumimos a ética social, comunitária, ambiental, nos abrindo a um horizonte universal, abrangente, antagônica à proposta capitalista.
Nesse discernimento, a empatia, a intimidade, a consciência do coletivo, a riqueza da diversidade, ganham relevância. Todas as vidas são importantes, e todas estão inter-relacionadas na pluralidade cósmica, ou no pluriverso, como ensina o mestre quilombista Antonio Bispo dos Santos. A convocação que brota desse discernimento é que a ética passa a ser espaço de revisão de hábitos, de imaginação, de construção, de desapegos e aberturas para criações presentes, concretas e comunitárias.
Nos meus 20 anos, li A Burrinha de Balaão, de Joseph Bouchaud e Fredy Kunz, pe. Alfredinho como conhecemos. Ali pe. Alfredinho apresentava os horrores da guerra, da fome, da mineração e denunciava profeticamente o sistema que produzia tanta crueldade. “É preciso lutar contra o desperdício e a degradação humana gerados pelo egoísmo. É preciso acabar com a economia do lucro, da abundância, do luxo. É preciso criar uma sociedade baseada na partilha e no respeito a todos. É preciso recolocar a humanidade inteira no coração das preocupações de todos.”
Uma das ‘magias’ do império que ele denunciava era a Coca-Cola. Produto que substituía a água em terras marcadas pela fome, doença e mortes precoces; essa fórmula corrói 48% das proteínas ingeridas em alguma alimentação, além de viciar e criar processos de ulceração interna. Apesar de tantos malefícios foi sempre divulgado como vital, delicioso, imprescindível e se tornou uma das maiores fontes da economia capitalista em todo o mundo.
Esse é apenas um exemplo nada simbólico de como age o capitalismo, e de como vai subvertendo valores, seduzindo, entrando no cotidiano e sendo naturalizado como bem. Contudo, há outros caminhos possíveis. Estes não surgem no vazio, mas sim a partir da reflexão crítica e das experiências, das iniciativas, dos movimentos sociais e comunitários. São gerados nas vivências, na empatia, no cuidado comum, no ecofeminismo, na solidariedade, alguns como ensaios que necessitam de avaliação e revisão, mas no dinamismo da criatividade comunitária humana e ambiental.
É importante lembrar de que o sistema capitalista nos convence de que as mudanças são inúteis, microscópicas e que não faz diferença a sua ação: esta se torna mínima e não é capaz de reverter a amplitude do sistema. Com isso, facilmente bloqueamos a inventividade e a confiança nas relações que conectam e promovem vida para tudo e todos.
Talvez a partir deste ponto, haja reações de crítica aos acentos que busco mapear e que podem se tornar concretos na prática cotidiana, nas ações locais, integrando o local e o global. Passo então, a apresentar estes acentos, que servem também para a minha revisão de crenças e hábitos constituídos e nem sempre fáceis de desconstruir e desapegar.
Neste ponto, retomo Serge Latouche, em sua proposta de Decrescimento Sereno, indicando algumas ações acessíveis e que reverberam na refundação de nosso estilo de vida.
1. Reavaliar o que é colocado como necessidade fundamental – objetos novos, viagens, conforto acima de tudo, acumulação de capital, hábitos alimentares, uso de energia, colocação de insulfilm em transportes e janelas, uso infinito de plásticos;
2. Solidariedade local – socializar os meios de vida, a produção, o tempo, o lazer, cooperar localmente com os artesãos, produtores agrícolas, estabelecer trocas, reduzir as compras em grandes mercados;
3. Reduzir hábitos constituídos e que impactam a vida – produtos vendidos como alimento e que não alimentam, trazem questões de saúde para o ser humano e para a saúde integral da Casa Comum – soja, refrigerantes, carne, trigo, processados, embalagens não recicláveis, por exemplo. Tanto nos solidarizamos com a importância da reforma agrária e retomada das terras indígenas, mas não abrimos mão de hábitos que produzem campos infinitos de pastos, lutas por terra, legislações protetivas da monocultura e do latifúndio;
4. Redescobrir a alegria da coletividade – ir na contramão do isolamento que se torna senso comum. Passar das redes digitais aos encontros, às praças, às partilhas de mesa, de vida, de lazer, à conversação, ao desafio colorido das alteridades, aprender saberes e sabores com os povos originários e tradicionais;
5. Revisar hábitos que reforçam o trabalho escravo, o impacto ambiental e a precarização do trabalho – compras pela internet, por aplicativos, sites com preços abaixo do mercado, barras de rolagem infinita no celular com ofertas ‘irrecusáveis’, empresas que lucram com a circulação do capital e se tornam as bilionárias de nosso tempo.
Convido realmente a esse olhar cuidadoso, que encontre ressonância na vida cotidiana, sentindo junto com a Terra, com o ambiente, com a destruição da vida, e que reverbere em novas crenças, em um novo estilo de vida, que nos ajude a passar do estado de predadores ao estado de jardineiros.
Em 1999, Leonardo Boff, já nos oferecia um manual de cuidado com a Terra – Saber cuidar. Ética do humano, compaixão pela Terra. Nosso profeta já denunciava onde estávamos e para onde caminhávamos, exortando ao cuidado, à compaixão radical, à convivialidade.
Somos a vida da Terra.
Estamos todos interligados
Intersomos
Despertar a mente para a sabedoria e a compaixão
é penetrar no nosso íntimo e sagrado espaço – interno e externo.
Monja Coen
Compartilhando alguns pensadores do tema:
1. ACOSTA, Alberto. O Bem Viver. Uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Academia Literária, Elefante, 2016.
2. BOUCHAUD, Joseph e KUNZ, Frédy. A burrinha de Balaão. Numa favela brasileira. São Paulo: Loyola, 1977
3. BOFF, Leonardo. Saber Cuidar. Ética do humano-compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999
4. GUDYNAS, Eduardo. Direitos da natureza. Ética Biocêntrica e políticas ambientais. São Paulo: Elefante, 2019
5. HARLAND, Maddy e KEEPIN, William (orgs). A canção da Terra. Uma visão do mundo científica e espiritual. Rio de Janeiro: Roça Nova, 2016
6. JONAS, Hans. O princípio responsabilidade. O ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto/Editora da PUC Rio, 2006.
7. LATOUCHE, Serge. Pequeno Tratado do decrescimento sereno. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
8. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2001.
9. SILVA, Paulo Roberto. Economia, Consciência e Abundância. Dos agentes econômicos de destruição a regeneradores da Teia da Vida. Rio de Janeiro: Bambual, 2019
10. SÓLON, Pablo. Alternativas sistêmicas. Bem viver, decrescimento, comuns, ecofeminismo, direitos da Mãe Terra e desglobalização. São Paulo: Elefante, 2019