07 Abril 2026
As democracias definham, o mercado virou tecnofeudalismo e as guerras matam como nunca desde 1945 — mas o pior é que a civilização aprendeu a brincar com o próprio extermínio, como se a aniquilação fosse apenas mais um movimento na partida.
O artigo é de Eugênio Bucci, publicado por O Estado de S. Paulo. e reproduzido por A Terra é Redonda, 03-04-2026.
Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e orienta o mundo digital) (Autêntica).
Eis o artigo.
1.
Segundo uma crença liberal do século passado, as guerras arrefeceriam à medida que as sociedades de mercado prevalecessem e os regimes democráticos, minimamente estáveis, perdurassem. Pois bem, o que se deu foi o contrário, três vezes o contrário.
Primeiro revertério: os regimes democráticos começaram a periclitarar e agora claudicam. O relatório anual do Instituto V-Dem, o principal ranking da democracia no mundo, rebaixou os Estados Unidos (até os Estados Unidos). De “democracia liberal”, o país caiu para “democracia eleitoral”. Na terra do Tio Trump (o Tio Sam foi deportado) os indicadores de liberdade apodrecem como detritos burocráticos que o caminhão de lixo se esqueceu de recolher.
Segundo revertério: o que levava o nome de “sociedade de mercado”, com a livre iniciativa e a livre concorrência dando as cartas, virou uma degenerescência. O que temos para hoje é algo entre o crony capitalism, em que os negócios se viabilizam na base do compadrio de governantes com bilionários (como na Rússia ou, hoje, nos Estados Unidos), e o “tecnofeudalismo” (termo do economista grego Yanis Varoufakis), no qual os reis das big techs comandam a vassalagem generalizada.
Podemos falar também em capitalismo superindustrial, como sustenta Fernando Haddad, mas o que importa não é o nome – o que importa é que, das tais sociedades de mercado, só resta uma carcaça decorativa para salvar as aparências (o pessoal gosta de aparências).
Terceiro revertério: as guerras aumentaram em quantidade, intensidade, letalidade e abrangência. O planeta fumega, e não apenas porque o aquecimento global veio nos dar o ar de sua graça febril. O ano 2024, considerado o mais mortífero desde 1945, registrou 129 mil mortes em 61 conflitos armados envolvendo 36 países. O ano de 2026 poderá ser pior, ainda não se sabe. O que se sabe, isto sim, é que o quadro está mais fora de controle do que estava há dois anos.
Já não existe um organismo internacional capaz de desarmar o belicismo. A ONU, sem dinheiro, sem autoridade e sem direção, mal se mantém de pé. Muitas vozes pedem reformas no Conselho de Segurança e em toda a entidade. Em vão.
2.
As bestas-feras se desinibiram. Como quem comenta que precisa amarrar o sapato, Vladimir Putin se declara pronto para acionar seus arsenais atômicos, orgulhoso de sua “tríade nuclear” (ogivas plantadas em três bases diferentes, devidamente engatilhadas: mísseis intercontinentais em terra, outros em submarinos soltos pelos mares e, finalmente, bombas penduradas em monstros supersônicos que cruzam os céus e os infernos a 16 mil metros de altura).
Nós nos convertemos numa civilização que joga com o próprio extermínio. A possibilidade de uma chuva de artefatos mais destrutivos do que aqueles que a Casa Branca despejou em Hiroshima e Nagazaki pode não ser grande, mas é real.
A jornalista Annie Jacobsen, autora do livro Guerra nuclear: um cenário, lançado em inglês no ano passado, calcula que, se um desses doidos encastelados (como Vladimir Putin, Donald Trump ou Benjamin Netanyahu) disparar uma ogiva carregada contra o inimigo poderá colher um contra-ataque em cadeia que, em 72 minutos, reduzirá os vivos e os mortos a geleia radioativa.
O poder está nas mãos dos mascates de explosivos, menos porque reúnam os meios para construir ou erguer coisas boas, ou mesmo belas, e mais porque detêm as ferramentas para dizimar os seres e as coisas – as feias, inclusive. Chantagistas, terroristas de Estado, eles sequestraram tudo o que respira e cobram o resgate diário em obediência.
A seu favor, contam com a solicitude do capital, cujos despachantes se convenceram de que podem prescindir da maior parte dos homens e das mulheres que habitam o planeta. As chances de morticínios consentidos crescem dia a dia.
Um dos vários trabalhos de Marc Chagall expostos no Museu de Arte de Zurique, o Kunsthaus, tem o nome de A guerra. Foi pintado entre 1964 e 1966, nos Estados Unidos. Casas devoradas pelas chamas, migrações dos desvalidos em carroças, corpos destroçados e crianças assassinadas se espalham sobre a tela. Ao centro, resplandece a cabeça gigante de um cavalo branco, com olhos de fria indiferença. Para mim, o animal evoca o Apocalipse.
Em outra sala do mesmo museu, um cavalo branco parecido, mas com o olhar de fúria, domina outro quadro, este de 1897. O título é igual: A guerra. Ali, o simbolista suíço Arnold Böcklin retratou explicitamente três dos cavaleiros do Apocalipse, com feições de ódio e demência.
Consta que Marc Chagall, em meados dos anos 1960, pensava no passado: o horror da Segunda Guerra. Parece que Arnold Böcklin, em 1897, não olhou para trás, mas para a frente: a matança que viria no século XX. Marc Chagall viu o Holocausto no pretérito. Arnold Böcklin conseguiu antevê-lo no amanhã.
Por uma janela ou por outra, as montarias do fim dos tempos assombraram os dois artistas. Hoje, desembestadas, elas mandam avisar: a aniquilação que você chancelou ontem voltará para arrancar a sua cabeça logo ali na esquina. Vai ser assim, num estalar de dedos. Dedos atômicos.
Estamos num intervalo efêmero.
Leia mais
- Guerra e liberalismo: a beira do abismo é o lugar da ponte. Artigo de Tarso Genro
- “A esquerda deve ser menos algorítmica, reinventar o seu pensamento e o socialismo”. Entrevista com Evgeny Morozov
- Liberalismo econômico e democracia
- Liberalismo econômico. A crise do capitalismo e a tentativa de resposta teórica: a tese do “mercado total”
- Neoliberalismo: A “grande ideia” que engoliu o mundo
- Uma nova ideia de economia de mercado. Artigo de Stefano Zamagni
- 'Estamos frente a um sistema de agiotagem que paralisou o país'
- O poder parasitário do sistema financeiro, na análise de Ladislau Dowbor
- Socialismo do Século XXI, um conceito perdido nas brumas. Entrevista especial com Elaine Santos
- “O caráter destruidor do capitalismo é um dos problemas mais importantes da luta revolucionária”. Entrevista com Michael Löwy
- Máquinas, inteligência artificial e o futuro do capitalismo
- Capitalismo no século XXI e a força cerebral no cerne da cadeia do valor. Entrevista especial com Yann Moulier Boutang
- Revolução 4.0: Quem ficará com os ganhos de produtividade?
- ‘Estou apavorado. Ninguém previa isso; é muito rápido’, diz Carlos Nobre sobre crise climática
- Pantanal acabará e meia Amazônia será devastada até 2070 nesse ritmo de desmate, diz Carlos Nobre
- Carlos Nobre: ‘Não evoluímos para suportar o clima que estamos levando ao planeta’
- “O crescimento de políticos populistas negacionistas é um risco enorme”. Entrevista com Carlos Nobre
- "Não tem mais volta", diz Nobre sobre catástrofes climáticas
- Mudança climática intensificou estação seca na Amazônia, afirma o climatologista Carlos Nobre
- Colapso da Amazônia: 16 perguntas ao cientista Carlos Nobre para salvar a floresta
- “O potencial econômico da floresta em pé na Amazônia é maior do que a agricultura”. Entrevista com Carlos Nobre
- Ser incendiário no Brasil é (mais) um crime que compensa
- Estados da Amazônia e do Pantanal batem recorde de emissões de carbono por incêndios
- “Desmatamento é caro, fogo é mais barato”. Entrevista com Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama
- Dia da Amazônia 1: mudanças climáticas levam bioma ao limite
- No Dia da Amazônia, bioma vive seca e incêndios recordes
- Incêndios na floresta amazônica afetam o clima e a saúde
- Amazônia querida em perigo: a dança da Rede um Grito pela Vida. Artigo de Gabriel Vilardi
- Brasil em chamas 1: focos de incêndio em agosto na Amazônia atingem maior nível em 14 anos
- Brasil em chamas: Amazônia atinge 5 milhões de hectares queimados no ano após pior agosto já registrado
- Fogo consumiu 2,5 milhões de hectares na Amazônia em menos de um mês
- Rios voadores da Amazônia viram corredores de fumaça tóxica
- Brasil em chamas: fumaça de queimadas na Amazônia e no Pantanal continua se espalhando pelo país
- Brasil em chamas: fumaça dos incêndios no Pantanal e na Amazônia equivale a 5 anos de poluição em SP
- Extrema-direita: 50 tons de cinza e um desejo de transgressão. Artigo de Joseph Confavreux e Ellen Salvi
- “A extrema direita conseguiu implantar a ideia de que as elites são de esquerda”. Entrevista com Pablo Stefanoni
- A ultradireita argentina tem seu Bolsonaro. Artigo de Pablo Stefanoni
- Bitcoin mais mão de ferro: o fantasma de Bukele que percorre a América Latina. Artigo de Pablo Stefanoni
- Uma grande desordem sob o céu. Artigo de Pablo Stefanoni
- “Há algo nessas novas direitas de retorno do reprimido”. Entrevista com Pablo Stefanoni
- Lula lá? Vitória progressista e direita subterrânea. Artigo de Pablo Stefanoni
- “A esquerda hoje tem medo de ser acusada de utópica”. Entrevista com Pablo Stefanoni
- “A direita está travando sua batalha cultural antiprogressista”. Entrevista com Pablo Stefanoni
- “As novas direitas expressam insatisfações e raivas de parte da sociedade”. Entrevista com Pablo Stefanoni
- A internacional dos moralistas nascidos no Leste. Artigo de Marco Ventura
- Ultraliberalismo é a revolução da barbárie – de Hayek, o “moderado”, a Guedes, o radical
- No Capitalismo Indigno, raiz da extrema-direita. Artigo de Fabrício Maciel
- Labirinto da extrema-direita. Artigo de Luiz Marques
- 'A extrema-direita ganhou tração com as pesquisas de opinião e o apoio internacional. Musk à frente'. X-Tuitadas
- Derrubada do PL das Fake News favorece discurso de ódio da extrema direita. Entrevista com Orlando Silva