A história da resistência brasileira e a busca por um cristianismo que não se encastela no dogma, mas que se encarna na dor do oprimido, encontram em Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, um de seus pilares mais inabaláveis. Frade dominicano, escritor e militante, Betto é uma cicatriz viva e lúcida no corpo da redemocratização do Brasil. Sua trajetória, marcada pelo cárcere sob a ditadura militar e por uma fidelidade radical aos princípios da Teologia da Libertação, produziu uma obra que é, simultaneamente, consolo espiritual e fustigação ética.
Autor de clássicos fundamentais como “Batismo de Sangue”, “Cartas da Prisão” e “Diário de Fernando”, Betto soube transformar o isolamento das celas em um testemunho universal de dignidade humana. Sua pena, sempre afiada contra as injustiças, agora se volta para um novo e urgente desafio: a fronteira da subjetividade capturada pela técnica. Em seu novo livro, “Educação Digital” (Vozes, 2026), o frade mergulha na dimensão ética da tecnologia, alertando para a necessidade de regular as máquinas que hoje disputam o pneuma humano.
Betto carrega o carisma da Ordem dos Pregadores em sua essência mais pura: a Veritas. Ele não é apenas um sucessor de São Domingos; ele se agiganta na linhagem de Bartolomeu de las Casas, aquele que no século XVI desafiou impérios para denunciar o genocídio indígena em nome de um Cristo libertador. Tal como Las Casas, Betto não teme a palavra ríspida se ela for o único caminho para a verdade.
Nesta conversa, Frei Betto não se limita ao diagnóstico pastoral; ele tensiona o atual momento eclesial ao diagnosticar a misoginia estrutural da Igreja e ao classificar o tom do sucessor de Francisco, o Papa Leão XIV, como uma prioridade de estabilidade institucional que ameaça as reformas urgentes. Ele desloca o debate do Sul Global para uma gramática de soberania digital e propõe a refundação do Fórum Social Mundial como uma “Porto Alegre 2.0”, onde a resistência deve ser, também, criptografada.
Este conjunto de respostas foi oferecido a Thiago Gama, doutorando em História Comparada pela UFRJ, atento às clivagens da teopolítica contemporânea. A entrevista de Frei Betto foi dada por e-mail a Thiago Gama em 8 de fevereiro deste ano de 2026, num domingo pela manhã, quando o celular fez o característico som clamando por atenção. Estavam no texto a mesma atenção, disposição do espírito, prontidão, e respondabilidade cívica de Frei Betto.
Ele não precisava responder, afinal de contas, não era o IHU pedindo diretamente, tampouco uma grande agência de notícias, mas um pós-graduando comum de um IES público, desejando colaborar para o portal em que me sinto em casa. Quem disse, porém, que Frei Betto é um homem que liga para grifes de agências de notícias ou carteiradas de jornalistas tarimbados?

Frei Betto (Foto: Elza Fiúza | Agência Brasil )
Frei Betto, com sua monumental cultura, preserva sob uma redoma de aço sua ternura. Ele disse no e-mail: “Caro Thiago, aqui estão suas respostas, tenha um bom Domingo”. Eu o agradeci em retorno. E aqui digo de público – Sim, Frei Betto, o seu e-mail me fez ter um excelente domingo; suas respostas encontrarão no Instituto Humanitas Unisinos – IHU o lugar privilegiado onde a tensão entre o Político e o Sagrado é parte do diálogo diuturno deste Instituto.
O Papa Francisco nos deixou um magistério de abertura e misericórdia. Contudo, em dezembro de 2025, vimos o Papa Leão XIV selar o veto à ordenação de diaconisas e reafirmar uma visão estritamente tradicional de família e sexualidade. O senhor acredita que estamos diante de um “inverno restaurador” que tenta apagar as frestas abertas por Francisco?
Não vejo necessariamente um “inverno restaurador”, mas um movimento de tensão interna próprio da história da Igreja. O pontificado de Francisco abriu caminhos pastorais e simbólicos difíceis de serem totalmente revertidos. Ao mesmo tempo, decisões como as de Leão XIV revelam o peso da tradição e o medo de rupturas doutrinais. Ele é mais moderado que Francisco, mas longe de ser um conservador como Bento XVI. A “Exortação Apostólica” de Leão XIV, intitulada Dilexi Te, de outubro de 2025, é tão avançada quanto os documentos pontifícios de Francisco. Mais do que apagamento, parece haver uma disputa pelo ritmo e pelos limites da mudança.
A Igreja caminha, muitas vezes, em avanços e recuos, não em linha reta. Somos uma instituição duplamente milenar e isso tem seu peso...
Como o senhor compara a “Governança Pastoral” de Francisco — centrada no acolhimento de “todos, todos, todos” — com o tom atual de Leão XIV, que parece priorizar a estabilidade institucional e o silêncio doutrinário em detrimento das reformas urgentes para o papel da mulher na Igreja?
Francisco exerceu uma governança pastoral marcada pela abertura doutrinária e pela linguagem inclusiva. O “todos, todos, todos” expressou uma prioridade evangelizadora sobre fronteiras morais e institucionais. Leão XIV parece deslocar o eixo para a estabilidade e a coesão interna da Igreja. Seu tom sugere prudência doutrinária e menor exposição a conflitos teológicos e políticos. Enquanto Francisco tensionou estruturas, Leão XIV tende a preservá-las. Essa diferença revela dois estilos de autoridade: profética (Francisco) versus institucional (Leão XIV).
No tema do papel da mulher, Francisco abriu debates, ainda que sem rupturas estruturais. Leão XIV aparenta desacelerar esse processo, priorizando a tradição, leia-se, a misoginia que até hoje caracteriza a estrutura da Igreja Católica. O contraste não é apenas pessoal, mas eclesiológico: reforma versus continuidade. A questão central é saber se a Igreja pode adiar mudanças sem comprometer sua credibilidade histórica.
Diante da restauração trumpista nos EUA em 2026, como o Sul Global pode articular uma resistência que não seja apenas reativa, mas que apresente uma nova gramática de soberania diante do imperialismo de “mão pesada”?
Diante de um imperialismo reavivado e agressivo, o Sul Global deve transcender a resistência reativa através de [quatro pontos]:
1) Intensificar a articulação Sul-Sul: Fortalecer blocos regionais (CELAC, Mercosul, Aliança Bolivariana, ASEAN, África) e criar coalizões temáticas (segurança alimentar, tecnologia crítica, finanças), reduzindo a dependência de estruturas ocidentais.
2) Soberania produtiva e digital: Investir em cadeias de valor integradas no Sul, moedas locais para comércio, e infraestrutura digital soberana (dados, IA).
3) Diplomacia de narrativa ofensiva: Expor sistematicamente as contradições do projeto trumpista (ex.: retórica soberana x intervencionismo) e vincular a luta anti-imperialista a agendas universais (clima, paz etc.).
4) Pluralismo estratégico: Engajar atores dentro dos EUA (Estados, empresas, sociedade civil) e com potências medianas do Norte, sem ilusões, para criar fissuras no bloco imperial. A nova gramática deve fundir defesa intransigente da autodeterminação com projetos concretos de integração alternativa. O objetivo não é apenas resistir, mas redefinir as regras do jogo da política internacional, com acento nas relações comerciais.
Sobre a Venezuela: como o senhor analisa a atual pressão sobre Caracas e a busca por autonomia nacional num cenário onde o lawfare e as sanções econômicas são usados como armas de guerra híbrida contra os povos latino-americanos?
A Venezuela enfrenta uma campanha multifacetada de coerção, onde sanções econômicas e lawfare são instrumentos de guerra híbrida, visando subverter sua soberania. Esta pressão não é um fenômeno isolado, mas parte de uma estratégia geopolítica mais ampla contra projetos nacionais autônomos na América Latina.
As sanções, ao estrangularem a economia, buscam gerar mal-estar social para justificar intervenções. O lawfare judicializa a política, criminalizando lideranças para deslegitimar processos internos. A resistência de Caracas e sua busca por autonomia são, portanto, uma luta pela sobrevivência como nação soberana. O êxito ou fracasso deste processo terá profundo impacto no equilíbrio regional, definindo se a multipolaridade será possível ou se a doutrina Monroe será reafirmada pela força. A solidariedade entre os povos latino-americanos é crucial para enfrentar estas novas formas de agressão.
A agressão contra Caracas e Havana, manifesta em medidas coercitivas unilaterais que asfixiam suas economias, é um teste decisivo para o projeto de autodeterminação regional. O êxito ou fracasso venezuelano e cubano transcende suas fronteiras: uma vitória do imperialismo naqueles países seria um precedente poderoso para a multipolaridade e a soberania; um fracasso, a reafirmação de um hemisfério sob hegemonia. A história mostra que a fragmentação facilita a dominação. A unidade, articulada através de mecanismos como a CELAC ou o ALBA, não é mera retórica, mas uma necessidade estratégica. Confere capacidade de negociação coletiva, resiliência econômica via comércio em moedas locais e integração produtiva, e um dique diplomático contra interferências. Sem essa solidariedade ativa — que vai além das declarações para ações concretas de cooperação —, cada nação fica vulnerável às mesmas táticas de desestabilização.
A defesa das soberanias venezuelana e cubana é, portanto, a defesa do direito de toda a América Latina a existir como polo independente no cenário global. É a luta pela sobrevivência política do próprio continente.
No Brasil, aproximamo-nos das eleições de 2026. O senhor teme que a “Governança Algorítmica” e as novas redes de desinformação possam sequestrar novamente a subjetividade popular, ou acredita que o povo brasileiro desenvolveu anticorpos contra o neofascismo?
A eleição de 2026 será um teste decisivo. A “Governança Algorítmica” e as redes de desinformação evoluíram, tornando-se mais sofisticadas e segmentadas. Portanto, o risco de sequestro da subjetividade permanece alto e real.
Por outro lado, os “anticorpos” da sociedade também se desenvolveram. Há maior consciência institucional, ação mais ágil do Judiciário e da imprensa, e um ativismo digital vigilante da sociedade civil. No entanto, esses anticorpos não estão uniformemente distribuídos e o vírus da desinformação também sofre mutações.
O maior perigo seria a complacência. Acreditar que o “povo já está imune” seria subestimar a capacidade de adaptação das máquinas de manipulação. A defesa da democracia em 2026 dependerá menos de uma imunidade adquirida passiva e mais de um esforço ativo e contínuo: regulação, educação midiática e, sobretudo, a oferta de um projeto de futuro convincente que dispute corações e mentes no campo das ideias, não apenas no dos algoritmos. Por isso neste ano de 2026 lançarei o livro “Educação Digital”, pela editora Vozes. A obra se destina principalmente a pais, professores e alunos e aborda sobretudo a dimensão ética no uso da tecnologia digital e a importância de o governo regular as redes.
O senhor foi um dos construtores do Fórum Social Mundial. Vinte e cinco anos depois, em um mundo dominado pela captura digital do Pneuma, Porto Alegre ainda é um horizonte viável ou precisamos de uma nova “ecologia da libertação”?
Porto Alegre não é um lugar, mas uma metodologia: o espaço aberto, plural e não capturável. Vinte e cinco anos depois, a dominação digital do espírito (o Pneuma) exige, não o abandono desse horizonte, mas sua radicalização em novas práticas.
A “ecologia da libertação” é urgente. Deve combater a extração predatória de atenção, dados e subjetividade. O Fórum ensinou que “um outro mundo é possível”. Agora, precisamos construir “outros mundos possíveis” no próprio território digital, criando redes não alienantes, tecnologias soberanas e narrativas que resgatem o comum.
Porto Alegre viável deve ser refundado como Porto Alegre 2.0: um horizonte de luta que una a crítica ao capital financeiro com a crítica ao capital de vigilância. O espaço aberto deve ser também um espaço criptografado, onde a assembleia presencial e o protocolo livre são faces da mesma resistência. A nova ecologia é a do espírito coletivo, defendendo-o da mercantilização algorítmica. O horizonte permanece, mas o campo de batalha se expandiu.
A “violência epistemológica” tenta transformar intelectuais e religiosos dissidentes em alvos. Como o senhor, que enfrentou cárceres e censuras, vê o papel da verdade histórica neste tempo em que a técnica parece querer substituir a ética?
A verdade histórica é o antídoto contra a substituição da ética pela técnica. A técnica, desprovida de fundamento ético, converte-se em instrumento de controle, capaz de criar narrativas a serviço do poder e de apagar dissidências. E essa é a violência epistemológica em ação. Meus anos de cárceres sob a ditadura militar (vide meus livros “Cartas da Prisão”; “Batismo de Sangue”; e “Diário de Fernando” – frebetto.org) e a censura que enfrentei foram tentativas concretas de apagar uma verdade: a do povo como sujeito da história.
A verdade histórica não é um relato frio, mas a memória viva das lutas, das resistências e da dignidade humana. Ela pertence às ruas, aos roçados, às comunidades, não aos arquivos oficiais. Nesse tempo em que a distorção se tecnifica, o papel da verdade histórica é ser testemunha incorruptível. É lembrar, contra todos os apagamentos, que a ética nasce do compromisso com os oprimidos. A técnica que tenta sufocar essa verdade será, inevitavelmente, desafiada pela própria história que ela tenta silenciar. A ética, enfim, é a verdade em movimento.