24 Fevereiro 2026
"Já sabemos que historicamente a democracia norte-americana promoveu golpes de Estado e derrubou governos legítimos, apoiou a diversos ditadores em diferentes plagas do mundo, e particularmente em nosso Continente, formando e assessorando agentes da repressão, dando suporte econômico, político, e técnico e logístico, a quem recorria veladamente, na calada da noite, a métodos brutais de tortura. Sabem, porque nisso se especializaram, torturar física e psicologicamente. E adotam a tortura como método sistemático. Para não mencionar as mortíferas bombas atômicas despejadas sobre a multidão de civis. Democracia?!...", escreve padre Rogério Mosimann da Silva, sj (Manaus, janeiro de 2026).
Rogério Mosimann da Silva possui graduação em filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (1989), graduação em Letras - licenciatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS (1993), graduação em teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (1997). Mestrado em Letras (teoria literária) pela Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG (2003). Doutorado em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST, São Leopoldo / RS).
Eis o artigo.
Em relação à Venezuela, declaro que não sou chavista, nem adepto de Maduro e seu regime. Tampouco sou comunista (esse termo difuso com o qual se designa um inimigo, apresentado como fantasma ou capeta, vocábulo invocado cada vez que se intenta atacar não se sabe exatamente a quem ou a quê). Menos ainda defendo ditaduras, seja de direita ou de esquerda (por mais desgastada que se encontre essa distinção).
O que me move a redigir estas linhas é a tristeza, indignação: nosso Continente afro-ameríndio, junto às nações pobres dos demais rincões, está cansado da desfaçatez das intromissões indevidas, invariavelmente acompanhadas de discursos tão pomposos quanto vazios de significado, por parte das elites econômicas e das potências armadas e militarizadas que agem cotidianamente de modo diluído e, por vezes, de maneira abertamente violenta, de que é exemplo evidente a atual invasão de um território soberano e o sequestro de seu presidente, e o assassinato, minimizado, de ao menos uma centena de Pessoas. A linguagem pode ser tudo, menos neutra: se a grande mídia em geral insiste em classificar Maduro de ditador, como denominar então quem, sob o pretexto que for, invade arbitrariamente outro País e sequestra seu mandatário, e mata?
Ante quem sabe mentir (porque se deseducou para isso), e mente mesmo, de modo deslavado!, e utiliza a mentira como estratégia deliberada, é preciso desmascarar, afirmando a verdade com todas as letras: a prática, já recorrente, de se proclamar os donos do mundo e se arvorar ao direito de, sob o pretexto que for, desrespeitar os demais, é ilegítima, ilegal, antiética, antidemocrática, violadora dos acordos internacionais (por mais débeis que estes se configurem)! E, por isso mesmo, essa postura deve ser veementemente rechaçada, e as tergiversações eufemísticas e engambeladoras que buscam legitimá-la necessitam ser desconstruídas. Venezuela tem problemas? Não se vai negar... Entretanto, não só exclusiva nem principalmente Venezuela!...
Que estrago pode fazer, e está fazendo, um fedelhãozinho mimado, birrento e rabugento (iludido talvez que não seja tão finito quanto qualquer ser humano), ao concentrar vasto poder: ignorando a presença do outro, age como se o mundo todo fosse brinquedo a ser chutado para baixo, e como se estivesse autorizado a sapatear em chão alheio (com sua bota i-munda) sua seríssima dança macabra. Vinda da que é propalada como a maior democracia do planeta (denominação completamente descabida e errônea, por ser uma proposição sem correspondência com a realidade), atitude assim nefasta se mostra ainda mais execrável. Tudo o mais são aspectos coadjuvantes deste momento histórico, e alçá-los a centro da questão não passa de mero erguer da cortina de fumaça que escamoteia desonestas intenções.
Mais grave é que foi eleito, sem ter escondido a sua truculência e seus planos hediondos, o que denota apoio, ao menos tácito, de considerável porcentagem do eleitorado. Escancara aos olhos que essa chamada democracia vai mal, muito mal! Internamente, onde estão os guardiães da liberdade (o Congresso nem sequer consultado, as instituições), que não erguem sua voz para denunciar com contundência os atos ditatoriais e imperialistas do cujo? Parcela lúcida do País, levantai-vos, manifestai-vos, reagi! Ou se repetirá a omissão que permitiu o insano crescimento armamentista do 3º Reich que desembocou na 2ª Grande Guerra Europeia?
Já sabemos que historicamente a democracia norte-americana promoveu golpes de Estado e derrubou governos legítimos, apoiou a diversos ditadores em diferentes plagas do mundo, e particularmente em nosso Continente, formando e assessorando agentes da repressão, dando suporte econômico, político, e técnico e logístico, a quem recorria veladamente, na calada da noite, a métodos brutais de tortura. Sabem, porque nisso se especializaram, torturar física e psicologicamente. E adotam a tortura como método sistemático. Para não mencionar as mortíferas bombas atômicas despejadas sobre a multidão de civis. Democracia?!...
Sempre em nome da paz, dos valores democráticos, da liberdade... E, em algum arroubo de pseudossinceridade, como agora, abertamente se incriminando, vemos o império revelar sem pudor sua cara e seu desverdadeiro interesse: os bens rentáveis, as reservas de petróleo. E por que ainda um combustível fóssil? Porque a aposta continua calcada num modelo de desenvolvimento devastador da Natureza, nossa Casa comum, num sistema excludente de Pessoas (Pobres, Povos originários) e proliferador de desigualdades.
E o que dizer das pífias reações da dita comunidade internacional? Mas esperar o quê de China (que procede analogamente com Taiwan), de Rússia (idem, com a Ucrânia), de Israel (aliado costumeiro do império que, por seu turno, oferece sua ativa conivência com o massacre à população palestina, vide Gaza)... Europa nunca se arrependeu nem se retratou nem pediu perdão do fato de que o grosso de sua riqueza (nunca devolvida) tenha sido acumulado dessangrando os Povos colonizados e escravizados, e seu habitat. Vivi seis anos e meio (2015-2021) no Haiti, e experimentei as consequências da ação de uma democracia quando desafiada em seus privilégios: a moderna nação reservava para si a liberté, égalité, fraternité, enquanto pisoteava sem piedade quem reagisse a esse iníquo status quo e ousasse se rebelar. O que esperar das cinco maiores potências do planeta, se são elas as que mais produzem e comercializam armas (através de mercado tantas vezes escuso) e, ao mesmo tempo, outorgaram a si mesmas a prerrogativa do poder de veto na ONU?
Exemplos não faltariam, se os quiséssemos multiplicar. Não é o caso, porque o objetivo aqui se afasta de discorrer em exercício intelectual de análise de conjuntura, por mais relevante que signifique esse serviço. Antes, a denúncia! Não, o mais grave nem é o descaramento imperialista, e sim o fato de que sua atitude se concretiza como fábrica de morte e de sofrimento, em grande parte de gente anônima e inocente!, além de abrir precedente perigosíssimo, e carregar em seu bojo, como sói acontecer, o horror de uma incontrolável escalada de violência, ainda mais no contexto de instâncias internacionais fragilizadas, no qual a PAZ se equilibra na corda bamba dos caprichos das elites econômicas, políticas (e repito) bélicas. Um tempo para cada coisa: diplomacia sim, buscando sempre evitar o pior, mas no horizonte do profético.
Não se trata de menosprezar nem o que padece o Povo venezuelano nem o importante episódio da invasão do País vizinho e o sequestro de seu presidente, a que pretexto seja (além de ditador, seria narcotraficante, terrorista, chefe de quadrilha). No entanto, há sobretudo que inserir o ocorrido no pano de fundo da danosa lógica do império. Já assistimos a esse roteiro: hoje, Venezuela; daqui a pouco será outra Nação, depois outra, e outra: Colômbia, Cuba, Nicarágua, Groenlândia/Dinamarca, Irã, e por aí em diante, todas candidatas à sucessão de vítimas da morte anunciada. E o mundo transformado em barril de pólvora.
O Irã se localiza longe? Venezuela, contudo, está aí, batendo à nossa porta. E já circulam rumores, ou o receio (fantasioso, improvável?), de influência espúria nas eleições, por exemplo, no Brasil. Complotismo, teorias da conspiração? Ou memória histórica? “Quem não te conhece que te compre”. Quem não te conhece não se convence do que és capaz de tramar... Se não, até quando faremos de conta que confiamos nos bons propósitos do déspota? Ou será que ingenuamente o cremos de fato?
Preocupam os desdobramentos internos no País. E o clima belicoso na fronteira, em nosso extremo Norte nacional, entre Venezuela e Roraima/Amazonas, com o risco da fatídica explosão de levas de Gente refugiada. Não desejo, claro, mas e vai que vire guerra civil (fácil, como todas as atrocidades, de iniciar, dificultoso de se apor ponto final), barbárie de que o injusto império seria o responsável por fazer eclodir.
Tudo, como de praxe, em nome da liberdade, da paz, da democracia... O problema não se restringe, pois, à invasão da Venezuela e o sequestro de seu presidente. O artefato está jogado no colo do mundo! Calar equivaleria a compactuar. Alguém, comentando, citou o Poema de Brecht: “primeiro levaram [...], mas eu não era [...]”; “por fim levaram a mim, e já não havia ninguém para me defender.” Do mesmo Autor citemos, de preferência, Aos que virão depois de nós: “Eu vivo num tempo sem sol, uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, uma testa sem rugas é sinal de indiferença, quem sorri é porque ainda não recebeu a terrível notícia [...]”.
Ah, quem dera (que Alegria!) se os apegados ao poder se convertessem... Se pudessem ver que “só as coisas simples é que são bonitas”, e passassem a participar da Festa da Vida, da Comunhão!... As horas mais amargas são convite à renovada Esperança, que nos põe a caminho, que nos chama a ajudar a edificá-la. Todo grande império ruiu de podre. Seu desmoronamento pode até demorar, mas o poderio norte-americano se não agoniza em estertor, já dá visíveis sinais de decadência. Basta verificar quem atualmente o governa, o chefinho e seus asseclas, em suas (desesperadas?) demonstrações de força; e a fila de subservientes ou simpatizantes: há necessidade de algo mais para constatar o declínio? Paira sobre a humanidade o fim do mundo? Escutemos, antes, as sábias palavras daquele Siôzinh’, uma vez: “vai ver que o mundo está só começando...”. Mas, onde mora então a Esperança?
No Haiti, compartilhando de algum modo a situação trágica daquela Nação historicamente afligida, cada vez que escutava ou lia notícias parecia mesmo um beco sem saída. Todavia, quando ia me encontrar com as Comunidades, celebrar com elas, então se me reaquecia no coração a chama da Esperança, pois via que, no dia a dia desse Povo sofrido, subjaz, com mais razão e sem barulho, a identidade do País. Da Esperança, ante o cão bravo a rosnar e a morder, bem entendem as primeiras gerações cristãs, que pagaram o alto preço do Martírio e perseveraram até o fim. Muitas Comunidades de hoje revivem essa experiência dos albores do Cristianismo, sua versão quiçá a mais fiel e generosa. Com Simplicidade, muita Gente pequena, desprezada, marginalizada, segue resistindo nas Periferias do mundo, e segue semeando Vida nova, inventando seu cotidiano, apesar de tudo. E há quem se solidariza e caminha junto, identifica-se, assume sua causa, põe-se a serviço... Que tenhamos olhos para ver, e coragem para nos posicionar sem margem a dúvidas de que nossa escolha será sempre pelo que favorece a Vida. E singelo facho de Luz, discreto, segue a resplandecer sobre o horizonte de nosso tempo sem sol...
(Início do ano: “em todo começo reside um encanto que protege e ajuda a viver”, Herman Hesse)
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