05 Janeiro 2026
O presidente dos EUA garante que os gigantes do petróleo estão preparados para investir milhares de milhões para explorar a indústria venezuelana após expulsar ilegalmente Maduro do poder; as companhias optam, por ora, pelo silêncio.
A informação é de Callum Jones, publicada por El Salto, 04-01-2025.
Os gigantes do petróleo dos Estados Unidos optaram, por enquanto, pelo silêncio depois que Donald Trump assegurou que eles estão preparados para gastar “milhares e milhares de milhões de dólares” na reconstrução da indústria petrolífera venezuelana após a derrubada de Nicolás Maduro.
A Chevron, a única companhia petrolífera dos EUA que ainda opera na Venezuela, limitou-se a afirmar que atua no país cumprindo as “leis e regulamentos pertinentes”, depois que Trump garantiu que as multinacionais de energia são uma peça fundamental de seus planos para a Venezuela.
Trump afirmou em várias entrevistas nas últimas horas e em sua aparição diante da imprensa em Mar-a-Lago neste sábado que as enormes reservas de petróleo da Venezuela — consideradas as maiores do mundo — serão modernizadas e exploradas pelas companhias petrolíferas dos EUA. Segundo o presidente norte-americano, as empresas “investirão fortemente” para reconstruir a infraestrutura “abandonada” da Venezuela, aumentarão a produção e venderão “grandes quantidades… a outros países”. “Estamos no negócio do petróleo”, explicou Trump aos jornalistas.
“Vamos fazer com que as grandes companhias petrolíferas dos Estados Unidos, que são as maiores do mundo, entrem, gastem milhares de milhões de dólares, reparem a infraestrutura gravemente danificada da Venezuela e comecem a ganhar dinheiro para o país”, disse Trump, acrescentando depois que as empresas veriam esse gasto “reembolsado”, sem fornecer mais detalhes.
As empresas evitam se pronunciar
No entanto, as companhias permanecem em silêncio. A ExxonMobil, a maior petrolífera dos EUA, e a ConocoPhillips, outro gigante do setor, evitaram responder aos pedidos de comentário sobre o plano anunciado por Trump.
Por sua vez, a Chevron, que opera no país, afirmou por meio de um porta-voz que a companhia “permanece focada na segurança e no bem-estar de nossos funcionários, bem como na integridade de nossos ativos. Continuamos operando em pleno cumprimento de todas as leis e regulamentos pertinentes”.
Há meio século, a Venezuela iniciou um processo de nacionalização de sua indústria petrolífera, reforçado em 2007 ao assumir o controle das operações que ainda então eram geridas sob acordos privados. Enquanto a Chevron optou por permanecer e cumprir as novas condições impostas pelo governo então liderado por Hugo Chávez, várias companhias, incluindo a ExxonMobil e a ConocoPhillips, recusaram-se a aceitar os novos termos.
A ExxonMobil e a ConocoPhillips iniciaram então uma longa batalha judicial contra a Venezuela, que o Centro Internacional para a Arbitragem de Disputas Relativas a Investimentos (CIADI), do Banco Mundial, encerrou finalmente com uma decisão favorável às petrolíferas, obrigando Caracas a indenizá-las com milhares de milhões de dólares. A Venezuela, afetada por sanções e embargos, além de má gestão e casos de corrupção, ainda não pagou integralmente as indenizações.
Por enquanto, o embargo norte-americano ao petróleo venezuelano permanece em vigor, segundo afirmou Trump, cuja administração acusou repetidamente Caracas de “roubar” as companhias americanas ao assumir o controle das reservas que estas exploravam na Venezuela após o processo de nacionalização. A estratégia de Trump acendeu alarmes por violar a legalidade internacional.
O papel das petrolíferas antes do ataque
O anúncio de Trump de que as grandes petrolíferas dos EUA desempenharão um papel-chave na Venezuela levou analistas a concluir que as companhias já tinham conhecimento prévio de seus planos. “Minha impressão é que, se Trump disse isso publicamente, é porque já existia um acordo com as empresas americanas”, afirma Jorge León, chefe de análise geopolítica da consultoria Rystad Energy. Tina Fordham, estrategista e consultora geopolítica, afirma, por sua vez, que “parte do pressuposto de que as companhias fizeram parte das conversas” anteriores à operação militar.
Embora a Casa Branca tenha evitado explicar se abordou com os gigantes do petróleo o ataque, o Politico publicou que altos funcionários da administração comunicaram nas últimas semanas aos executivos petrolíferos dos EUA que, se quiserem receber a indenização por plataformas, oleodutos e outras propriedades que foram confiscadas pela Venezuela em 2007, terão de voltar e investir de forma significativa no país.
A Venezuela possui cerca de 17% das reservas mundiais de petróleo, segundo o Energy Institute. No entanto, sua produção, que chegou a 3,5 milhões de barris diários na década de 1970, despencou drasticamente devido a décadas de falta de investimento e problemas de gestão. No ano passado, a produção venezuelana foi de aproximadamente um milhão de barris diários, cerca de 1% da produção mundial.
Elevar a produção do país aos níveis anteriores exigirá um investimento enorme. Seriam necessários cerca de 110 bilhões de dólares para retornar a dois milhões de barris diários no início da década de 2030, segundo a Rystad Energy. “Não acho que as empresas voltem correndo ao país”, afirma León, que considera que será “muito, muito complicado” para a Venezuela atrair o investimento privado necessário para aumentar drasticamente a produção. “As empresas, antes de voltar, vão querer ver o país em uma situação suficientemente estável”.
O mercado petrolífero mundial está “entrando em um período de excesso de oferta”, afirma León. “Os preços vão cair e continuar caindo… o que significa que as petrolíferas serão muito, muito seletivas sobre onde investir. Nessa situação, o mais provável é que queiram investir em lugares que já conhecem”.
Outros observadores acreditam, no entanto, que as grandes petrolíferas disputarão a oportunidade de garantir um negócio bilionário na Venezuela. Fordham acredita que o país representa agora uma “oportunidade enorme” para os gigantes do petróleo e que haverá uma competição intensa entre essas companhias para assegurar as melhores oportunidades.
No sábado pela manhã, Trump vangloriou-se de ter realizado “uma das demonstrações mais impressionantes do poderio militar americano” da história. No entanto, nos escritórios das grandes companhias e em muitos outros âmbitos não se esquece o que ocorreu após a derrubada de outros líderes e regimes, incluindo os do Afeganistão, Iraque ou Líbia.
“A história das transições após etapas autoritárias é complicada, ocorram elas de forma ‘natural’ ou provocadas externamente”, afirma Fordham, que observa que Trump age como se tivesse fé cega de que, sob seu comando, as coisas serão diferentes.
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