“Esta era a luz verdadeira, que vindo ao mundo a todos ilumina” (João 1,9). Artigo de Flávio Lazzarin

Foto: Marcus Dall Col/Unsplash

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10 Março 2026

"Se não acreditarmos que aos profetas e profetisas foi doada por um momento a visão da realidade transfigurada pela Luz, será impossível enfrentar com fidelidade e coerência esta noite escura e perigosa", adverte Flavio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Eis o artigo. 

Nestes últimos dias de escuridão, nesta longa noite da história, volta ao meu pensamento um conjunto bonito de palavras e figuras ligadas a Jesus de Nazaré: luz, visão, cegueira, Damasco, profecia. Uma mescla que, de imediato, pode parecer confusa e inextricável, mas se apresenta com a pretensão de ser uma constelação harmônica e reveladora.

Dois fatos desencadearam em mim estas reflexões.

Inicialmente, foi o testemunho de Renée Nicole Good – poeta, definida por Trump “terrorista doméstica” - pouco antes de ser executada por um agente do ICE, em Minneapolis, Minnesota, EUA, em janeiro deste ano. Seu rosto, seu sorriso, suas últimas palavras "nada tenho contra você" vêm me encontrar, como um sacramento, que revela a proximidade do Reino proclamado por Jesus, a Luz que ilumina a escuridão da história, que diz, com amor, que a violência dos cegos não tem a última palavra. O miliciano vivia na escuridão e, confrontado pela luz, via somente um alvo a ser atingido e eliminado. Renée vivia na luz e enxergava somente a luminosidade da realidade e era a partir desta luz que, solidária com a dor das vítimas, insurgia radical e pacificamente contra a injustiça dos violentos.

Em seguida, quase obrigado pelo sorriso de Renée, lembrava umas icônicas palavras de padre Cláudio Bergamaschi (1937-1997), santo profeta e testemunha do Reino, em terras maranhenses: “De onde surge a profecia do profeta? É como um relâmpago que, na escuridão total em uma noite de tempestade, ilumina por um momento toda a paisagem, revelando-a nos mínimos detalhes.”

A perspectiva de Cláudio não se opõe evidentemente à leitura das circunstâncias da história através das sérias e necessárias investigações da economia política, sociologia e antropologia, cuja interpretações ajudam a entender o complexo emaranhado dos acontecimentos.

A abordagem de Claudio, porém, surge de uma visão e intuição místicas, em que o mundo aparece transfigurado, onde é protagonista a luz e não a escuridão. E com a hegemonia da luz, vencem também a bondade, a justiça, a beleza e a verdade.

Essa leitura, que deveria nos convencer e converter, vai além dos critérios epistemológicos e metodológicos das ciências humanas e, sobretudo, se opõe radicalmente às reduções ideológicas e partidárias, também das esquerdas, que, cada dia mais confusas e perdidas diante das conjunturas nacionais e mundiais, perderam a capacidade de ser uma alternativa ao Ocidente colonialista e fomentador de guerras.

Em suma, sem Damasco, ou renunciando a espera do nosso Damasco, não teremos profetas, nem profecias. Se não acreditarmos que aos profetas e profetisas foi doada por um momento a visão da realidade transfigurada pela Luz, será impossível enfrentar com fidelidade e coerência esta noite escura e perigosa. E não surgirão revolucionários nos quais podermos confiar e que não irão repetir os horrores do inimigo.

Sem encontro, sem relacionamento, sem um raio de luz que irrompa para iluminar a noite, antes de qualquer ideia, de qualquer discurso, duvido que possa subsistir qualquer espiritualidade.

Então é claro que na vida de Cláudio e de muitas profetisas e profetas, a ausência, o esconder-se, o silêncio de Deus, prevalecem e nos impulsionam a fugir do Tabor e a encontrá-lo no rosto de irmãos e irmãs, todos eles, sustentados, porém, por uma pequena semente de ágape que nos revela a imensidão da dor das vítimas da história e nos motiva à aliança com as testemunhas e mártires do Reino de Jesus.

Assim, pelo menos, pedimos que a nossa cegueira seja curada para que possamos reconhecer a visita fulgurante dos profetas que aparecem na história, como reconhecemos, amamos e continuamos a nos abastecer de sua luz: dom Helder Câmara, Dom Hélio Campos, dom Pedro Casaldáliga, padre Josimo Morais Tavares, irmã Dorothy Stang, Santa Dulce dos pobres... Simone Weil, Etty Hillesum, Dorothy Day, padre Davide Turoldo, padre Ernesto Balducci, Giorgio La Pira, padre Giuseppe Dossetti, padre Lorenzo Milani, padre Primo Mazzolari, papa João XXIII, papa Francisco

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