Modelo analítico do Norte Global para compreender o recrudescimento de novos autoritarismos não pode ser padronizado para nossa região do mundo, pondera a pesquisadora. Heterogeneidades de cada país devem ser levadas em consideração, observando a extrema-direita do Sul Global a partir do Sul Global
“A experiência da extrema-direita no Sul Global parece nos apresentar um processo de radicalização que é mais forte e duradouro de setores conservadores das nossas sociedades, com elevados níveis de intensidade e violência, bem como consequências institucionais de longo prazo”, analisa a historiadora Tatiana Vargas-Maia. Organizadora do livro The Rise of the Radical Right in the Global South (Routledge, 2023) junto de Rosana Pinheiro-Machado, ela acentua que a abordagem do estudo “começa com um diagnóstico das insuficiências que observávamos na literatura dominante, que tende a explicar acontecimentos em países como Brasil e Índia como parte do mesmo fenômeno, idêntico àquele observado nos EUA e Europa Ocidental, o que produz uma homogeneidade epistemológica e metodológica que consideramos insuficiente”.
As afirmações são oriundas da conferência A extrema-direita no Sul Global, ministrada em 03-12-25 como encerramento do XXII Simpósio Internacional “A extrema-direita e os novos autoritarismos. Ameaças à democracia liberal”, promovido em parceria pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU e pelo Programa de Pós-graduação em Filosofia da Unisinos. Os trechos principais da fala de Vargas-Maia estão organizados em formato de entrevista a seguir.
Tatiana Vargas Maia (Foto: Arquivo pessoal)
Tatiana Vargas-Maia é doutora em Ciência Política pela Southern Illinois University – Carbondale (2016), mestra em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) (2006), bacharela em História pela mesma instituição (2006) e bacharela em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) (2004). Leciona no Departamento de Economia e Relações Internacionais e no Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI) da UFRGS. Acaba de publicar Uma Introdução às Relações Internacionais (Blucher, 2025) e, com Rosana Pinheiro-Machado, organizou The Rise of the Radical Right in the Global South (Routledge, 2023), coletânea que mobiliza o eixo central de sua conferência ao IHU e ao PPG Filosofia Unisinos.
IHU – Quais são as inquietações teóricas e o contexto do surgimento do livro The Rise of the Radical Right in the Global South, organizado em parceria com Rosana Pinheiro-Machado?
Tatiana Vargas-Maia – Começo a minha reflexão a partir da abordagem que Rosana Pinheiro-Machado e eu trazemos na introdução do livro The Rise of the Radical Right in the Global South (Routledge, 2023), e que continuamos desenvolvendo em nossas pesquisas compartilhadas e individuais. Como duas mulheres que são do Sul do Sul Global e que acompanham e investigam questões tanto de polarização política quanto de radicalização há pelo menos 15 anos, Rosana e eu percebemos nos primeiros anos da pandemia, portanto em 2020 e 2021, um problema na forma como o debate vinha sendo conduzido e que nos frustrava profundamente. Este problema estava situado tanto no foco quanto no tom sobre novos líderes, partidos e movimentos de extrema-direita em países como Argentina, Brasil, Índia e Filipinas. Aqueles que como nós acompanham essa discussão há pelo menos uma década têm usado o ano de 2016 como um marcador interessante, seja pela primeira eleição de Donald Trump, seja pelo Brexit.
Conseguimos localizar que a discussão começa, como o próprio título do XXII Simpósio Internacional “A extrema-direita e os novos autoritarismos. Ameaças à democracia liberal” indica, com debates sobre a crise das democracias liberais no início deste século. Ao longo dessa última década a discussão se aprofunda, pensando de maneira mais crítica sobre as dimensões da permanência da extrema-direita no horizonte político pós-1945 e na consolidação e no fortalecimento desses movimentos ideológicos nas primeiras décadas do século XXI. Contudo, a forma como essa discussão é desenvolvida inicialmente, sobretudo a maneira como chega em debates mais amplos de nossa sociedade, parecia muito inadequada para como Rosana e eu observávamos o desenvolvimento pesquisando o contexto de Sul Global, sobretudo porque muitas vezes a forma como essa literatura engajava países e casos como Brasil, Índia, Filipinas e Argentina soava um tanto quanto em descompasso com aquilo que estávamos observando nas tendências de comportamento e decisão. Muitas vezes esses casos do Sul Global pareciam estar às margens dessas interpretações mais hegemônicas da extrema-direita, seja em sua perspectiva histórica, seja em uma dimensão mais contemporânea.
O que significa, em certo sentido, que tais casos ficavam à margem? A nosso ver, isso significa sobretudo que sempre que estávamos vendo ou ouvindo explicações para a ascensão e consolidação de líderes como Jair Bolsonaro, Narendra Modi e Rodrigo Duterte, essas explicações apenas repetiam a abordagem que havia sido desenvolvida inicialmente para os países do Norte Global, como EUA, Grã-Bretanha e França. Ou seja: tomávamos um arcabouço teórico conceitual, um mecanismo de explicação que havia sido pensado para o contexto sobretudo daquilo que chamo de Atlântico Norte – os EUA e a Europa Ocidental – e replicávamos essa explicação para tentarmos entender o que estava acontecendo em países como o Brasil, Índia e Filipinas. Isso parecia, em nossa análise, causar um descompasso: a explicação mais comum, recorrente na literatura, parecia não encaixar muito bem com a experiência que observávamos.
Então, se queremos pensar acerca dessa “dança explicativa” que se repetia indefinidamente pelos anos de 2020-2021-2022, pensávamos desde as crises da democracia até as dúvidas se estaríamos vivendo aquele momento inicial do ressurgimento de movimentos fascistas. Ao longo de todos esses debates, ficamos um tanto incomodadas com o uso dessas teorias e explicações, que eram homogeneizantes, isto é, equivaliam experiências que eram muito diferentes de forma contextual, conjuntural e histórica, criando uma explicação apenas, que era bastante apropriada para a experiência do Norte Global, mas que parecia ignorar evidências importantes dos contextos de Sul Global. Em nosso entendimento, isso os deixava como explicações no mais das vezes decepcionantes e bastante insatisfatórias para o que estava ocorrendo em nossos países do Sul Global.
De forma mais drástica, inclusive, percebemos que quase sempre os estudos acadêmicos do Sul Global eram referidos em nota de rodapé, ou seja, entrávamos na discussão somente como estudos de caso pontuais que espelhavam e confirmavam aquilo que estava acontecendo nos EUA ou na Europa, que eram o foco principal e análise e, sobretudo, de desenvolvimento teórico. Essa marginalização literal do Sul Global na discussão acadêmica nos parece um erro crasso, fundamental. Da forma como vinha sendo conduzida, a discussão focava nos casos menos relevantes.
Esta é uma das teses importantes que podemos destacar aqui: é imprescindível pensar o Sul Global, cada vez mais, diante dos seus contextos e características históricas e contemporâneas como o provavelmente o mais interessante laboratório para investigarmos o fenômeno da extrema-direita no mundo atual, no século XXI, e não necessariamente os casos do Norte Global. A experiência da extrema-direita no Sul Global parece nos apresentar um processo de radicalização que é mais forte e duradouro de setores conservadores das nossas sociedades, com elevados níveis de intensidade e violência, bem como consequências institucionais de longo prazo. Por isso, um dos elementos do argumento que subsidia nosso livro é justamente pensar nisto: inverter a lógica de como a discussão vinha sendo feita e, ao propor um foco nos países e na experiência da extrema-direita no Sul Global, entender que essa região pode ser um locus de análise de interpretação primário para esses eventos, que irá nos informar das características que sejam mais relevantes para a compreensão desse problema global no século XXI.
A partir dessas observações começamos a trabalhar na proposta e no arcabouço, que seria a estrutura do livro e que inspiraria e provocaria muitos dos autores que publicaram e desenvolveram seus textos para pensar e compreender a extrema-direita no Sul Global. Como mencionei, nossa abordagem começa com um diagnóstico das insuficiências que observávamos na literatura dominante, que tende a explicar acontecimentos em países como Brasil e Índia como parte do mesmo fenômeno, idêntico àquele observado nos EUA e na Europa Ocidental, o que produz uma homogeneidade epistemológica e metodológica que consideramos insuficiente.
Além disso, concordamos muito com Masoodsud e Nyssar, em um texto de 2020, ao acreditar que tal abordagem deve ser invertida: algumas das pistas para o atual fenômeno global parecem emergir justamente do que os autores identificam como sendo uma modernidade inacabada ou híbrida do Sul Global, e tais pistas devem ser exploradas com maior detalhe e dedicação, e não apenas como variações curiosas a respeito de um fenômeno consolidado no Norte Global.
Ao refletirmos sobre as diferenças, talvez a principal discrepância observada entre a atuação da extrema-direita no Norte e Sul Global se traduza em termos de intensidade e escala. É precisamente esta intensidade e escala que devem ser compreendidas dentro das particularidades históricas de cada um desses contextos. Um exemplo: Trump e Bolsonaro podem expressar declarações intoleráveis semelhantes nas mesmas redes sociais, utilizando táticas idênticas de discurso velado. No entanto, os efeitos das atitudes igualmente odiosas desses líderes são fundamentalmente diferentes em países com graus diferentes de desenvolvimento econômico, de consolidação democrática, mas também da garantia de direitos civis. Assim, para além de estudar a manifestação desses líderes, partidos e movimentos, estudos contemporâneos sobre a extrema-direita no século XXI devem considerar o impacto provocado pela atuação de todos esses líderes, movimentos e partidos e compreendem que, lidando com contextos sociais, políticos e econômicos radicalmente diferentes entre Norte e Sul Global, o impacto da ação da extrema-direita também seja diferenciado e isso precisa ser levado em consideração em nossos estudos.
Todavia, a maior parte dos estudiosos de extrema-direita parece esgotar sua análise nas semelhanças entre aquilo que chamam de autoritarismos populistas. O que insistimos no livro é que é igualmente importante prestar atenção ao fato de que, por exemplo, as campanhas antigênero do Sul Global são muito mais viscerais e, portanto, muito mais prejudiciais e violentas do que aquelas no Norte Global. Isso se deve principalmente às diferenças contextuais que existem nestes locais, ou seja, para além de identificar semelhanças, talvez o grande esforço criativo nas pesquisas sobre extrema-direita seja identificar as diferenças entre esses movimentos e a atuação deles em contextos específicos. Eis um ponto que enfatizamos: estas diferenças também irão se refletir, inclusive, na condução e produção da pesquisa acadêmica.
Um argumento necessário e que quero desenvolver posteriormente é que precisamos pensar com cuidado inclusive na segurança de pesquisadores e pesquisadoras do Sul Global, que investigam a extrema-direita nesses ambientes, porque principalmente quando pensamos que uma das condições de desenvolvimento e desenraizamento dessa extrema-direita está posta na precariedade do trabalho, que também afeta a nós, pesquisadores do Sul Global, que estamos igualmente submetidos a fatores estruturais como a contaminação cruzada do aparato policial dos nossos países e a extrema-direita, como é nítido no caso brasileiro. Isso nos torna significativamente mais vulneráveis a dinâmicas de assédio, intimidação, divulgação de informações pessoais e outras formas de repressão violenta.
IHU – Poderia contextualizar com mais detalhes a questão das diferenças estruturais entre os casos do Norte e Sul Global na análise da extrema-direita?
Tatiana Vargas-Maia – Se reconhecermos a insuficiência da literatura predominante sobre o tema, nosso próximo passo foi justamente o esforço de organizar e destacar o que achávamos ou quais eram as principais diferenças estruturais que identificávamos entre a experiência da extrema-direita no Norte e Sul Global e que nos ajudariam a desenvolver uma compreensão que fosse um pouco mais matizada e cuidadosa, com uma nuança maior sobre esse fenômeno. O ressurgimento ou fortalecimento da extrema-direita em regiões colonizadas e periféricas do globo que estão marcadas por um autoritarismo persistente e um conservadorismo enraizado nessas sociedades, por uma precariedade profunda e por dinâmicas de colonialidade, não pode ser explicado por uma estrutura teórica indiferenciada, que não reconhece essas diferenças estruturais no sistema internacional, que é desenvolvida sobretudo a partir de leis estadunidenses ou europeias. Em nosso entendimento, uma análise abrangente do fenômeno da direita radical precisa ter em conta essas heterogeneidades do movimento entre Norte e Sul Global.
Isso tudo não é para sugerir que a experiência do Norte deve ser descartada, ou que ela não nos informa de uma maneira interessante. A recessão de 2008, o Brexit em 2016 e a primeira eleição de Donald Trump, também nesse ano, são eventos cruciais na geração de ondas que consideramos contagiosas de autoritarismo, mas também na criação de incentivos contextuais. No entanto, insistimos que esses processos, por si só, são insuficientes para explicar o fenômeno no Sul Global e que talvez sejam insuficientes para explicar o fenômeno em escala mundial.
IHU – Quais são as principais ressalvas que sua investigação endereça à explicação clássica para o recrudescimento da extrema-direita, mas desta vez no contexto do Sul Global?
Tatiana Vargas-Maia – Eu gostaria de explorar a explicação mais aceita para o ressurgimento da extrema-direita no mundo. Esse argumento centra-se na recessão dos países ricos, sobretudo a partir de 2008, mas retrocede para a crise do neoliberalismo, que começa na década de 1990, com o colapso do Estado de bem-estar social, em particular nas questões migratórias, naquilo que se convencionou chamar na imprensa de uma crise migratória (o que acho um termo problemático, embora continuemos a nos referir a este processo dessa forma). Outro argumento diz respeito ao crescente ressentimento da classe trabalhadora na Europa Ocidental e nos EUA ao perceber perdas significativas em seu padrão de vida, quando a geração atual constata que vive em condições piores ou menos estáveis do que seus pais ou seus avós viviam. Essa é a combinação de fatores que é apresentada de maneira geral para explicar a tração eleitoral e discursiva que a extrema-direita ganha principalmente na segunda década do século XXI.
Esta explicação está muito bem elaborada por autores como Wendy Brown e Cass Mude para contextos do Norte Global. O problema é que quando estudamos a extrema-direita no Sul Global e, mais do que isso, quando estudamos a extrema-direita do Sul Global a partir do Sul Global, precisamos nos perguntar: de que recessão exatamente estamos falando? Além disso, a qual Estado de bem-estar social nos referimos? Qual é esse processo de migração ou talvez de desdemocratização que a literatura está apontando?
Muitos desses elementos que tomamos de maneira rápida, que são generalizantes de uma experiência global que aceitamos e reproduzimos para nossos próprios contextos, quando examinados de forma mais pontual e cuidadosa, não angariam tanta evidência assim. Essas tendências que estão bem discutidas e documentadas para os casos europeus e americano não se encaixavam bem nos contextos que estávamos explorando, sobretudo no caso brasileiro, deixando de lado algumas características que entendíamos muito relevantes para explicar a vitalidade de líderes como Bolsonaro, Modi, Duterte. Quando esses três líderes chegaram ao poder, é difícil dizer que seus países estavam em colapso sobre alguma forma prévia de bem-estar social. Aqui provoco a pensarmos a respeito de nossa experiência brasileira, na qual entendo que somos muitas vezes generosos demais com a descrição de nosso Estado, que conta com serviços importantes, mas que não se caracterizam necessariamente como um Estado de bem-estar social propriamente dito. Muitas das camadas mais empobrecidas da nossa sociedade estavam saindo desta condição de pobreza.
Por outro lado, o autoritarismo nunca foi uma novidade nos séculos XX e XXI nos contextos do Sul Global e brasileiro. Pelo contrário, como observamos ao longo desta última década, o autoritarismo sempre se colocou como uma grande promessa, sobretudo como solução para a crise de segurança pública. Para além disso, se quisermos observar os casos indiano e filipino no início do século XXI, esses dois países mantinham um crescimento econômico contínuo. Assim, é estranho falarmos de recessão ou crise nesses cenários. E ainda que o Brasil tenha eleito Bolsonaro em meio a uma recessão, o ressurgimento e fortalecimento dos movimentos de extrema-direita em nosso país ocorre paralelamente ao auge do desenvolvimento econômico, e aqui penso nos anos de 2010, 2011 e 2012.
Anedoticamente, podemos recordar as capas de revistas como a The Economist, da qual tenho certeza de que todos se lembram, publicada em 2008, com o Cristo Redentor decolando e a manchete dizendo “O Brasil decola”. Há, também, uma capa de 20102 da IstoÉ, que entendo como paradigmática, mostrando uma série de brasileiros enfileirados na nossa diversidade demográfica, com homens, mulheres, brancos, negros e indígenas usando uniformes de trabalho diferentes para denotar as diversas classes sociais, com a seguinte manchete: “Nunca fomos tão felizes”.
Há alguma coisa desta explicação tradicional a respeito da extrema-direita no século XXI que vai confiar na ideia de que estamos sofrendo ressentimento em função do desmantelamento do Estado de bem-estar social, bem como as pressões e consequências de uma crise econômica e que estamos apelando para o autoritarismo porque nossa experiência democrática não deu certo. Além disso, essa explicação aponta para o fato de que temos uma experiência de influxo de imigrantes que adiciona pressão a esse contexto já precário, o que, no entanto, não parece corresponder com o que é observado em países chave do Sul Global e que vivenciam até hoje essa experiência da extrema-direita nas primeiras décadas, quando esses movimentos estão em desenvolvimento.
IHU – Quais são as características e os aspectos fundamentais de proposta analítica que vocês oferecem no livro que organizaram em parceria?
Tatiana Vargas-Maia – Percebendo essas diferenças estruturais, identificamos cinco aspectos específicos para nossa proposta de uma nova abordagem analítica que informaria autores e autoras que desejam trabalhar com casos do Sul Global na aproximação, uma nova vertente estrutural e teórica que não ignora a literatura inicial, mas que tenta entender para além do que é semelhante dentre os casos globais aquilo que existe de diferente, e como tais diferenças informam a nossa percepção do fenômeno.
A primeira questão diz respeito à recessão econômica e à subjetividade política. É comum que a literatura tradicional se concentre na figura do homem branco ressentido e empobrecido. Todavia, em nossos casos, em contraste, países colonizados do Sul Global têm sido marcados por conflitos e recessões. Não é uma experiência nova. O significativo crescimento econômico das economias emergentes também fomenta novos tipos de engajamento político. Enquanto a nostalgia por um passado glorioso é fundamental para a subjetividade neofascista do Norte, a ideia de que as gerações anteriores viviam melhor do que vivemos e que devemos recuperar esse passado, essa categoria parece ser repensada no Sul. Isso se articula com os segundo e terceiro pontos do nosso arcabouço, dos quais falarei adiante, que é a dimensão do nacionalismo. Parece que temos uma melancolia orientada para o futuro, não um passado glorioso que precisa ser retomado, mas um futuro promissor que foi prometido e não foi concretizado. Temos emoções políticas que podem ser semelhantes, mas a orientação delas é diferente, e isso é importante.
Um segundo aspecto reside nas nuanças daquilo que podemos pensar acerca da expressão de nacionalismo e xenofobia nesses diferentes contextos. Apesar de presente em todos os países, o nacionalismo adquire características diferentes no Sul Global. Como acabo de mencionar, em alguns países, é difícil elaborar a ideia de um passado glorioso que merece ser exaltado e recuperado.
Todavia, esses movimentos de extrema-direita profundamente nacionalistas podem prometer ou projetar um futuro glorioso, instrumentalizando esse futuro como um horizonte político, afirmando que eles são os movimentos capazes de concretizá-lo, enquanto outros movimentos políticos, sobretudo os de esquerda, estão empenhados em roubá-lo.
Além disso, é interessante perceber como geralmente pensamos a expressão de nacionalismo e como este se atrela à xenofobia, o que também fala a respeito de como a presença, ou não, de imigrantes em nossos contextos alimenta ou passa despercebida, em grande medida, a depender de como esses movimentos estão articulados. Digo isso porque, sobretudo pela forma como estudamos a I e II Guerra Mundial como experiências definidoras de nosso panorama político contemporâneo, estamos muito preparados e instrumentalizados para pensar a experiência do nacionalismo como aquela de um nacionalismo expansionista, ou seja, dirigida para fora das fronteiras e que identifica “inimigos externos” nesse processo de expansão e construção de um outro adversário.
O que muitas vezes não percebemos é que esse processo de expansão externa para o estrangeiro ocorre após um processo de colonização interna. Projetos nacionalistas olham em um primeiro momento para a comunidade nacional com o objetivo de homogeneizar essa comunidade, e depois podem desenvolver tendências agressivas que levam à expansão externa. Quando olhamos, então, para experiências da Europa Ocidental ou dos EUA, com países que ao longo da sua história contemporânea tiveram longuíssimos e complexos processos de consolidação e colonização nacional, é natural pensarmos que o “inimigo” é sempre externo, configurado no estrangeiro. Dessa forma, a figura do migrante é instrumentalizada facilmente. O que não percebemos é que, sobretudo na experiência do Sul Global, devido a dinâmicas de colonização e subjugação na estrutura do sistema internacional, essa dinâmica de colonização do espaço doméstico por movimentos nacionalistas muitas vezes não está concluída. E o que esses movimentos de extrema-direita assumem para si, então, é o processo de consolidação nacional, que significa que nossos “inimigos” são nacionais e compreendidos como inimigos internos.
No caso do Brasil é bastante fácil percebermos quem são nossos “inimigos” e como eles são racializados e sexualizados. Não é à toa que um movimento como o bolsonarismo, assim como o Movimento Brasil Livre – MBL, identifica como problemáticas as pessoas não brancas, em especial as negras e as de origem indígena, bem como as feministas e os ativistas LGBTQIA+.
Um exemplo que passou despercebido para muitas pessoas é que, quando Sérgio Moro sai do superministério de Bolsonaro durante a pandemia, ele vaza uma série de reuniões nas quais o presidente estava acompanhado de seus ministros. Em um desses encontros Weintraub pede a palavra e fala uma frase que na época ganhou pouca repercussão, mas que é reveladora desse projeto nacionalista do bolsonarismo. Em termos que aqui recupero livremente, Weintraub diz que, a partir desse governo, as pessoas precisam entender que “não existe mais nada disso de negros, indígenas, gays e feministas, porque agora todo mundo é brasileiro”. O que é isso senão uma afirmação deste processo e projeto de homogeneização de uma identidade única que é imposta sobre a sociedade?
É claro que, se quisermos explorar e aprofundar essa análise, podemos perceber essa identidade muito associada àquilo que nos acostumamos a ouvir falar como o “cidadão de bem”, que é branco, heterossexual e que constitui uma família nuclear. Ainda que possamos pensar que o racismo está sempre no cerne desses projetos de extrema-direita, tanto ao Norte quanto ao Sul, é importante perceber que a supremacia branca britânica tem significados diferentes do que a supremacia hindu explorada por Modi contemporaneamente.
Um terceiro aspecto pensa o que chamamos sobre o legado da ditadura e dos “homens fortes”. Boa parte da literatura contemporânea, focada no Norte Global, pensa em como crises econômicas e o desmantelamento do estado de bem-estar social geram na população uma descrença com modelos de democracia liberal. O início do processo daquilo que muitos autores chamam de “desdemocratização”, ou seja, países que tinham uma experiência democrática consolidada, mas que por uma série de mecanismos e processos a população desses países passa a acreditar cada vez menos da democracia como sendo um processo factível para melhorar suas vidas e, por isso, começam a apoiar líderes e propostas mais autoritários.
Pensando em nossa experiência, diversos países do Sul Global ainda sofrem consequências de ditaduras ao longo do século XX, que foram extremamente violentas e sangrentas. Se quisermos ser realmente honestos com nossa situação política, ainda estamos lidando com uma cultura muito persistente de violência tributária a esse contexto. E se compreendermos a proposta democrática como uma proposta que esvazia o jogo político de violência, isso se mostra falso, porque neste jogo político seus líderes e seus eleitores acreditam que a violência pode ser a melhor saída para a resolução de conflitos. Essa concepção é muito problemática em termos políticos e teóricos porque, ao discutirmos a desdemocratização, precisamos perceber que ainda estávamos no processo de consolidar alguma cultura democrática em nossos países.
Para além disso, vemos expressões dessa cultura de violência dentro das nossas forças militares e policiais, sempre contra grupos vulneráveis e marginalizados, que nunca vivenciaram a democracia de fato. Quando eu falo em “inimigos internos”, percebam como nossa configuração de extrema-direita não está muito bem encaixada nessas explicações mais tradicionais que ganham tração a partir de uma crise do neoliberalismo.
Um quarto aspecto mais crítico aponta para que, além da persistência de um autoritarismo e de uma cultura de violência de nossas sociedades, temos a continuidade de um conservadorismo religioso e moral muito forte, que talvez nos dificulte pensar nossa curta experiência democrática como uma experiência de democracias laicas, como as teorias democráticas mais tradicionais percebem e reivindicam. Enquanto o laicismo é um princípio fundamental das democracias consolidadas, com a ideia clássica de separação entre igreja e Estado, as novas democracias no Sul Global parecem lutar fortemente, e muitas vezes sem sucesso, para superar essa interferência religiosa nos assuntos políticos.
De alguma maneira estamos lidando com os efeitos nefastos da presença de um fundamentalismo religioso em nossas sociedades, que atua como disciplinador, controlando corpos e a expressão sexual, mas também disciplinador das expectativas de vida e comportamento a partir de perspectivas muito bem definidas de papéis de gênero.
Refletindo na experiência de uma maneira mais global, o quinto aspecto não se relaciona necessariamente com as condições de consolidação e fortalecimento desses movimentos de extrema-direita. Ele tem a ver com a maneira como podemos pensar as respostas sociais que são criativas, democráticas e igualmente fortes observadas por nós. Essa talvez seja uma tentativa de pensar não apenas nas expressões mais nefastas de nosso contexto, mas como ele também inspira resistências importantes, ou seja, estratégias fortes e poderosas de resistência.
Precisamos reconhecer o enraizamento da extrema-direita nas sociedades do Sul Global. Infelizmente, parece se tratar de um fenômeno que tem uma sobrevida maior do que antecipamos e que, no Brasil, após a derrota de Bolsonaro em 2022, observamos inclusive essa capacidade metamórfica de seus antigos aliados de permanecerem ativos na esfera política, naquilo que tem sido chamado de um “bolsonarismo sem Bolsonaro”. Temos a consolidação a partir desse líder, mas sua ausência não significa que o movimento desaparece, e sim que tem uma sobrevida que talvez esteja calcada justamente nesses elementos que destaquei anteriormente.
Todavia, desde a consolidação desses movimentos de extrema-direita no Brasil no século XXI, mas também no que diz respeito a Argentina, Chile, Índia e Filipinas, observamos algumas reações muito importantes contra esses movimentos vindas de sociedades latino-americanas. Penso nos movimentos feministas na Argentina e Chile, o movimento indígena e negro no Brasil como focos criativos e poderosos de resistência a esses movimentos de extrema-direita.
Esses cinco aspectos que apresentei não são conclusivos e não temos a pretensão de que funcionem em uma perspectiva universal. Eles são, na verdade, sugestões que achamos que conseguem lançar luz como características que compartilhamos nas nossas expressões cotidianas de autoritarismo. Mais estudos comparativos são necessários. Nesse momento, observamos que alguns artigos e pesquisas circulam pensando não apenas em estudos de casos pontuais, mas igualmente em perspectivas comparativas mais amplas dentro do Sul Global, nos ajudando a compreender as causas e consequências da extrema-direita nesta região do mundo e como estas experiências podem nos informar para entender, daí sim, a dimensão mundial e transnacional do fenômeno contemporâneo da extrema-direita.
IHU – Como se apresenta e articula a estrutura do livro?
Tatiana Vargas-Maia – Partindo dessa estrutura geral, produzimos doze capítulos que foram organizados tematicamente em cinco partes distintas. A primeira se concentra em expressões do fascismo no Sul Global tanto em perspectiva histórica quanto contemporânea. A segunda parte abrange estudos de caso comparativos que tentam explorar essa insistência entre perceber semelhanças e destacar diferenças nesses novos movimentos de extrema-direita, visando entender o que essas diferenças revelam enquanto pistas interpretativas do fenômeno.
A terceira parte enfoca a dimensão online, que talvez seja a característica mais nova desses casos, explorando Duterte e Modi com o uso, bastante peculiar e criativo, de diferentes tipos de mídia social. A quarta parte explora os movimentos antidireitos, ou seja, como pensamos na atuação da extrema-direita como sendo orientada para o desmantelamento de direitos que haviam sido consolidados recentemente.
A quinta e última seção pensa justamente esses projetos de resistência. Nosso livro conta com um grupo muito diversificado de acadêmicos que vivem e trabalham na Argentina, Brasil, Índia, África do Sul, Filipinas e Uruguai. A nosso ver, apresenta um esforço analítico bastante diverso e interessante, não sendo conclusivo, o que não é nossa intenção, mas provocador de uma produção renovada e crítica e mais situada sobre a extrema-direita no mundo, partindo de nossas diferenças no Sul Global.