06 Janeiro 2026
"Um encontro de 'Dois dias' — obviamente! — não poderá examinar todas essas questões em profundidade; mas será que o grupo de cardeais (245, incluindo aqueles acima dos oitenta anos) conseguirá identificar os primeiros passos concretos para iniciar mudanças reais, algumas delas realmente gigantescas? Em particular, as Eminências não poderiam deixar de se perguntar se ainda é sustentável, numa Igreja sinodal, manter o "não" às mulheres, que representam 'a outra metade da Igreja', no Colégio que elege o Bispo de Roma", escreve Luigi Sandri, jornalista italiano, em artigo publicado por L'Adige, 05-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O consistório extraordinário (reunião de todos os cardeais), que será realizado na quarta e na quinta-feira, decidido por Leão XIV, eleito há oito meses, representa potencialmente um ponto de virada no pontificado, desde que da iminente "cúpula" saia a indicação de tornar mais colegial o exercício da autoridade do Bispo de Roma, e, portanto, do Papa da Igreja Católica. Por ora, sabemos apenas que se falará de "sinodalidade" e de liturgia: mas como dar sentido a esses termos? Já no Vaticano II, Máximo IV Saigh, Patriarca Melquita de Antioquia, havia sugerido que o pontífice normalmente liderasse a Igreja juntamente com um "Sínodo permanente", talvez composto por cerca de vinte bispos de diversas partes do mundo.
Mas desde 1965, ou seja, desde a conclusão do Concílio, os papas que foram se sucedendo não abraçaram a ideia, governando a Igreja, quando muito, com a contribuição substancial da Cúria Romana, cujos líderes são todos nomeados pelo papa. Francisco, de fato, havia criado um Conselho de nove cardeais, mas era um órgão "privado" — não previsto pelo Direito Canônico — que ocasionalmente o ajudava a abordar determinados problemas importantes. Embora carente de poder deliberativo, o próximo Consistório poderia sinalizar o início de uma reforma "constitucional", exigindo que o Papa consulte os cardeais antes de tomar decisões sobre assuntos de grande importância.
Hoje, uma simples lista desses temas transborda de questões emergentes e complexas: os ministérios ordenados femininos, a começar pelo diaconato; a delegação às Conferências Episcopais de poder ordenar sacerdotes também "viri probati", ou seja, homens casados; o firme compromisso de erradicar os abusos de personalidades eclesiásticas contra mulheres, ou violências sexuais contra menores por parte do clero, garantindo proteção e indenização às suas jovens vítimas; uma renovação da liturgia capaz de dialogar com os fiéis das diversas culturas; uma sinodalidade que, em cada diocese e paróquia, implique a participação dos fiéis nas decisões da Igreja local; o compromisso com a justiça e a paz como missão primordial dos cristãos; uma avaliação cuidadosa das finanças do Vaticano, levando em conta que, atualmente, a Santa Sé luta para garantir para o futuro as aposentadorias de aproximadamente duas mil pessoas que trabalham no Vaticano.
Um encontro de "Dois dias" — obviamente! — não poderá examinar todas essas questões em profundidade; mas será que o grupo de cardeais (245, incluindo aqueles acima dos oitenta anos) conseguirá identificar os primeiros passos concretos para iniciar mudanças reais, algumas delas realmente gigantescas? Em particular, as Eminências não poderiam deixar de se perguntar se ainda é sustentável, numa Igreja sinodal, manter o "não" às mulheres, que representam "a outra metade da Igreja", no Colégio que elege o Bispo de Roma. Em suma, a partir dessa lista, ainda que parcial, pode-se inferir: que esse Consistório tem uma tarefa imensa: desencadear reformas ousadas, ainda que impopulares entre alguns cardeais, e que, por fim, exigiriam um Concílio atípico de "padres" e "madres" para as aprovar.
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