Sem excessos nas devoções. Artigo de Luigi Sandri

Foto: Ruth Gledhill/Unplash

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12 Novembro 2025

"Diante dos terríveis conflitos em curso na Rússia e Ucrânia, no Oriente Médio, em Mianmar, no Sudão... pode parecer surreal que o Vaticano se preocupe com certas formas distorcidas de devoção popular à Virgem Maria; mas, se olharmos para a vida concreta dos fiéis e das paróquias, e seu valor ecumênico, a razão para tal advertência torna-se clara", escreve Luigi Sandri, jornalista italiano, em artigo publicado por L'Adige, 10-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Diante dos terríveis conflitos em curso na Rússia e Ucrânia, no Oriente Médio, em Mianmar, no Sudão... pode parecer surreal que o Vaticano se preocupe com certas formas distorcidas de devoção popular à Virgem Maria; mas, se olharmos para a vida concreta dos fiéis e das paróquias, e seu valor ecumênico, a razão para tal advertência torna-se clara.

De fato, em 4 de novembro, foi publicada uma extensa "Nota doutrinária sobre alguns títulos marianos referidos à cooperação de Maria na obra da salvação", assinada pelo cardeal argentino Victor Manuel Fernández, Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e aprovada por Leão XIV.

Embora obviamente louve a devoção dos fiéis a Nossa Senhora, afirma que se deve ter muito cuidado para evitar atribuir-lhe títulos que distorçam a mensagem do Evangelho. Assim, o cardeal especifica, o termo "Corredentora", embora usado no passado por alguns pontífices, corre o risco de minar um princípio central do dogma cristão: o de que o Redentor é um só, Jesus Cristo. Outro título questionado é o de "Medianeira de todas as graças": não, afirma o documento, "nenhuma pessoa humana, nem mesmo os apóstolos ou a Virgem Santíssima, pode agir como dispensadora universal da graça. Só Deus pode concedê-la, e Ele o faz por meio da humanidade de Cristo." Será que a pregação nas paróquias se adaptará à "Nota" do Vaticano?

Qualquer pessoa que tenha visto, em algumas regiões da Itália ou da América Latina, as festividades de Nossa Senhora, acompanhadas por procissões lotadas, com bandeiras e estátuas de Maria, pode imaginar como deve ser difícil, naqueles lugares, para os pregadores serem sóbrios em seus louvores que provocam os aplausos das multidões. No entanto, também é possível que algum pregador, comentando o "Magnificat", enfatize que Maria não era uma mulher sentimental, mas aquela que, em seu cântico, ousou dizer: "O Todo-Poderoso dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias."

Na década de 1980, em alguns países ditatoriais da América Latina, o uso desse cântico era proibido. Era considerado perigoso porque, ao exaltar as palavras "subversivas" da Virgem Maria, poderia levar os fiéis a desafiar o regime. A “Nota” do Vaticano foi bem recebida por muitos ambientes protestantes porque despoja Nossa Senhora de títulos sem fundamento, ou que não podem ser fundamentados, a partir da Bíblia. Mas, na perspectiva do diálogo ecumênico entre a Igreja Católica e a Igreja Evangélica ligada à Reforma, um longo caminho será necessário antes que se possa chegar a um entendimento sobre os dogmas marianos — como a Imaculada Conceição, proclamada em 1854 por Pio IX, ou a Assunção, proclamada por Pio XII em 1950. Esses dogmas, sempre reafirmados por Roma, que os considera baseados na Bíblia, são rejeitados pelos seguidores de Martinho Lutero, que os consideram estranhos a ela. Qual das duas Igrejas admitirá, num futuro não previsível, ter se enganado?

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