06 Janeiro 2026
"Trump, por outro lado, pensa não em termos de transição democrática, mas em termos de controle. Uma revolta popular ou uma transição eleitoral autêntica não permitiriam que Washington controlasse diretamente o novo Estado venezuelano. Uma troca de poder gerenciada de cima, ao contrário, permitiria. É por isso que o narcotráfico se torna a ferramenta perfeita: deslegitima Maduro, justifica a intervenção e permite uma seleção direcionada das elites a serem sacrificadas. Mudarão as caras, a narrativa. Não a economia criminosa"
O artigo é de Roberto Saviano, jornalista e escritor italiano, de origem judaica, publicado por Corriere della Sera, 04-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
A verdadeira força política de Donald Trump não é a brutalidade, nem o populismo, nem o isolacionismo. É a incoerência. A coerência obriga a política a monitorar constantemente fatos, promessas e consequências. A incoerência, ao contrário, liberta o poder de toda prestação de contas. Não precisa comprovar nada, porque não exige consenso racional, mas sim confiança pessoal. Confiança no líder, não nas instituições. Confiança como ato de fé. Nesse esquema, a correção das escolhas ou o alcance dos objetivos declarados não importam. O que importa é a delegação.
Um cheque em branco, alimentado por uma promessa tão vaga quanto poderosa: uma melhoria genérica da vida e o retorno da nação ao centro do mundo. É um poder que não se mede por resultados, mas pela sua capacidade de dominar a narrativa. É aí que Trump se destaca. Dentro dessa lógica, ele pode se dar ao luxo de invocar a luta contra o narcotráfico contra a Venezuela e, ao mesmo tempo, perdoar uma de suas figuras políticas mais comprometidas: Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras. Em 26 de junho de 2024, ele foi condenado a 45 anos de prisão em uma penitenciária federal dos EUA, após ser considerado culpado de facilitar a importação de mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos e de receber milhões de dólares em subornos de organizações criminosas, incluindo as redes ligadas ao cartel de El Chapo. Pouco mais de um ano depois, em 1º de dezembro de 2025, Trump concedeu-lhe um indulto total e Hernández saiu da prisão. Não é uma contradição. É o funcionamento do poder trumpiano. Hernández é útil porque, em Honduras, pode apoiar políticas antimigratórias e proteger os interesses estadunidenses diretamente ligados à presidência.
Os "narco-sobrinhos"
Por anos, a extrema esquerda internacional negou a ligação entre Nicolás Maduro e o narcotráfico — da Itália à Espanha até à Argentina — como se cada acusação fosse mera propaganda imperialista. No entanto, nunca faltaram provas. Há uma que, sozinha, já bastaria: o caso dos narco-sobrinhos. Em 2015, Efraín Antonio Campo Flores e Franqui Francisco Flores de Freitas, sobrinhos de Cilia Flores, esposa de Maduro, foram presos no Haiti. Não figuras marginais.
Cresceram nos corredores do poder, protegidos, credenciados, convencidos de serem intocáveis. São interceptados enquanto organizam um carregamento de 800 quilos de cocaína com destino aos Estados Unidos. Não falam como pequenos traficantes. Falam como autoridades. Prometem acesso a pistas militares, cobertura institucional e proteção política. Afirmam claramente que as drogas servem para financiar o poder, para "defender a revolução" e para manter o regime no poder.
O julgamento, realizado em Nova York, revela um método de Estado: o uso das infraestruturas venezuelanas — aeroportos, forças armadas, passaportes diplomáticos — como ferramentas logísticas para o tráfico de drogas. Os dois são condenados em 2017 a 18 anos de prisão cada.
Em dezembro de 2022 Maduro garante a libertação deles como parte de uma troca de prisioneiros com os Estados Unidos: sete cidadãos estadunidenses em troca dos sobrinhos da Primeira-Dama. A condenação é mantida. A impunidade é restabelecida.
É uma longa história, estrutural e recorrente, que liga uma parte da extrema-esquerda armada ao narcotráfico. Uma escolha estratégica, sempre envolta em justificativas ideológicas: não fazemos isso para enriquecer, fazemos para financiar a revolução. Uma fórmula que se provou uma mentira funcional em todos os lugares. As FARC colombianas financiaram sua guerra por décadas por meio da tarifação e, posteriormente, da gestão direta da cocaína. O Sendero Luminoso fez o mesmo nas áreas de produção peruanas. O ELN, embora reivindique uma diversidade ideológica, operou esquemas de tráfico de maconha e extorsão com dinâmicas semelhantes. O caso cubano é mais opaco, mas não menos significativo.
Droga e luta armada
Em 1989, Arnaldo Ochoa Sánchez, um general símbolo da revolução, foi acusado de narcotráfico em colaboração com redes ligadas a Pablo Escobar. Ele assumiu publicamente toda a responsabilidade, exonerando a liderança política. Foi executado após um julgamento televisionado: um sacrifício ritual para salvar o regime, eliminando o homem que sabia demais. As drogas haviam se tornado o coração econômico dos movimentos armados. A revolução nunca viu aquele dinheiro. Os comandantes, as famílias, os aparatos, sim. E quando a luta termina, sobra sempre o mesmo legado: não um Estado justo, mas uma classe dominante criminalizada. Há décadas o poder venezuelano está intrinsecamente ligado aos cartéis criminosos. Não como um desvio, mas como uma estrutura de governo.
As investigações mais respeitadas, particularmente aquelas da InSight Crime, mostraram que a Venezuela não é um país produtor de cocaína, mas sim um dos principais centros logísticos do narcotráfico global. No centro desse sistema está o Cartel de los Soles: uma estrutura militar-estatal que garante cobertura, impunidade e infraestruturas para o tráfico, especialmente colombiano, utilizando aeroportos, portos, documentos oficiais e aparatos de segurança. Paralelamente à dimensão institucional, emerge uma figura-chave: Wilmer Varela, conhecido como Vilmito. Não se trata de um simples narcotraficante, mas de um intermediário político-criminal. Ele gerencia remessas para Honduras e o Caribe, coordena rotas, mantém relações com o aparato militar e controla segmentos-chave do sistema prisional. Ele é o ponto de contato entre os cartéis, o Estado e a repressão.
Um dos grandes fracassos da política externa de Barack Obama foi justamente a Venezuela. Não por ingenuidade, mas por escolha estratégica. Obama compreendeu que Maduro não cairia pela pressão de uma oposição democrática frágil e dividida. Trump, por outro lado, pensa não em termos de transição democrática, mas em termos de controle. Uma revolta popular ou uma transição eleitoral autêntica não permitiriam que Washington controlasse diretamente o novo Estado venezuelano. Uma troca de poder gerenciada de cima, ao contrário, permitiria. É por isso que o narcotráfico se torna a ferramenta perfeita: deslegitima Maduro, justifica a intervenção e permite uma seleção direcionada das elites a serem sacrificadas. Mudarão as caras, a narrativa. Não a economia criminosa. Talvez a situação fique melhor do que com Maduro. Mas quanto melhor? A pobreza continuará. O controle criminal, na fase inicial, aumentará. A liberdade de expressão se expandirá, as velhas corrupções petrolíferas serão desmanteladas e substituídas por outras. E, mais uma vez, a Venezuela será "libertada" sem ser verdadeiramente devolvida aos seus cidadãos.
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