05 Janeiro 2026
O secretário de Estado Marco Rubio fez coro com as palavras de seu chefe: "Vamos isolar o petróleo até que as condições sejam favoráveis" para os Estados Unidos.
A reportagem é de Guido Vassallo, publicada por Página|12, 05-01-2026.
Após o sequestro e a transferência ilegal de Nicolás Maduro, o presidente Donald Trump exigiu no domingo que a recém-nomeada presidente interina, Delcy Rodríguez, lhe concedesse “acesso irrestrito” ao petróleo venezuelano. Sob sanções americanas desde 2019, a Venezuela produz cerca de um milhão de barris de petróleo bruto por dia, uma quantia considerável para o presidente republicano. Embora ainda não esteja claro até onde Washington irá com sua ameaça em relação aos recursos venezuelanos, Marco Rubio também foi enfático no domingo, afirmando que “vamos isolar o petróleo até que as condições sejam favoráveis” para os Estados Unidos.
A congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez revelou sucintamente a divisão que aflige a política americana em relação à captura de Maduro: “Não se trata de drogas. Trata-se de petróleo e mudança de regime”. Em entrevista ao Página|12, o historiador venezuelano Miguel Tinker Salas ecoou esse sentimento: “A guerra contra as drogas é simplesmente um pretexto para forçar uma intervenção na Venezuela. A realidade é que as próprias agências de inteligência americanas relataram que a Venezuela não produz fentanil e que a quantidade de cocaína traficada pelo país é mínima”.
It’s not about drugs. If it was, Trump wouldn’t have pardoned one of the largest narco traffickers in the world last month.
— Alexandria Ocasio-Cortez (@AOC) January 3, 2026
It’s about oil and regime change.
And they need a trial now to pretend that it isn’t. Especially to distract from Epstein + skyrocketing healthcare costs.
“Eles vão ter que bombear mais petróleo”
Falando a repórteres a bordo do Air Force One, Trump declarou: “O que precisamos (de Delcy Rodríguez) é acesso total. Acesso total ao petróleo e a outras coisas no país que nos permitam reconstruí-lo”. Quando questionado sobre quais outras “coisas” os Estados Unidos precisariam, Trump mencionou a infraestrutura da Venezuela, observando que “as estradas não estão sendo construídas e as pontes estão caindo aos pedaços”.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, havia declarado anteriormente à ABC: “Há decisões judiciais que nos permitem manter os petroleiros venezuelanos. Em algumas semanas, eles terão que bombear mais petróleo. Temos decisões judiciais que nos permitem manter cada um dos petroleiros até que quem estiver no poder faça as mudanças necessárias para beneficiar os EUA”.
Rubio afirmou que, embora não tenha conversado diretamente com executivos das companhias petrolíferas de seu país, já entrou em contato com os Secretários do Interior e da Energia para estabelecer contatos. O político de ascendência cubana previu que haverá demanda de "empresas ocidentais" que "não sejam russas nem chinesas" e enfatizou que "nossas refinarias na costa do Golfo do México, nos EUA, são as melhores para refinar esse petróleo pesado".
Em sua coletiva de imprensa de sábado, Tinker Salas observou: “O presidente Donald Trump mencionou petróleo 25 vezes, enquanto a palavra democracia não foi mencionada. Sem dúvida, Trump quer manter o petróleo e fabricou uma narrativa de vítima que enfatiza que o petróleo sempre pertenceu aos EUA e foi roubado.” Falando de sua residência em Mar-a-Lago sobre o ataque em que Maduro foi capturado, Trump prometeu que “as principais companhias petrolíferas americanas investirão bilhões de dólares” para reparar a infraestrutura petrolífera da Venezuela.
“A viabilidade desta ação dependerá, por um lado, da transição política e, por outro, da resolução dos processos do ICSID com empresas como a ConocoPhillips e a ExxonMobil. Atualmente, apenas a Chevron opera no país caribenho”, explicou a este jornal Juan José Carbajales, doutor em Direito e diretor do Instituto de Gás e Petróleo (UBA). Tinker Salas é um pouco menos otimista. “Não vejo como viável. Para recuperar a indústria petrolífera, as empresas estrangeiras teriam que investir bilhões, e não o farão sem garantias políticas e econômicas”, afirmou o autor do livro "Um Legado Duradouro: Petróleo, Cultura e Sociedade na Venezuela".
Após a intervenção americana na Venezuela, argumentou Carbajales, o preço do petróleo poderia subir. “Isso porque os mercados internacionais são resistentes à incerteza proveniente dos países produtores. Vale lembrar que, em 2023, a Venezuela exportou 68% de sua produção para a China, e se esses volumes forem retirados do mercado hoje — pelo menos temporariamente — o preço do petróleo Brent (um tipo de petróleo bruto leve e doce extraído do Mar do Norte) poderá sofrer pressão de alta”, explicou o chefe da consultoria Paspartú.
Uma nova doutrina Monroe
Em uma breve entrevista por telefone com a revista The Atlantic no domingo, Trump negou que a intervenção na Venezuela tivesse qualquer paralelo com a invasão e subsequente ocupação do Iraque em 2003, durante a presidência de George W. Bush. “Isso foi ideia do Bush. Vocês têm que perguntar a ele, mas nós nunca deveríamos ter entrado no Iraque. Esse foi o começo do desastre no Oriente Médio”, disse o magnata republicano sobre a operação militar baseada na suposta posse de armas de destruição em massa pelo país asiático.
Em resposta à tentativa de Trump de impor uma nova Doutrina Monroe à região, atos de resistência também estão surgindo. Neste domingo, México, Brasil, Chile, Colômbia e Uruguai, juntamente com a Espanha, uniram-se para rejeitar "qualquer tentativa de controle governamental, administração ou apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos".
Em declarações à revista The Atlantic no domingo, Trump afirmou que “se Delcy Rodríguez não fizer a coisa certa, ela pagará um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro”. Após uma reunião de gabinete, a presidente interina do Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela estendeu “um convite ao governo dos EUA para trabalhar em conjunto em uma agenda de cooperação” e reafirmou “seu compromisso com a paz e a coexistência pacífica”.
Nicolás Maduro está detido no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn, uma prisão federal de alta segurança, e comparecerá nesta segunda-feira perante um tribunal federal em Nova York, naquela que será sua primeira audiência nos Estados Unidos.
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