Compreender a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela. Artigo de Gabriel Zucman

Foto: EricThriller/Unsplash

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06 Janeiro 2026

Não se pode analisar o sequestro de Nicolás Maduro se forem ignoradas as somas colossais de dinheiro associadas a uma mudança de regime em Caracas. Estão em jogo entre 100 e 150 bilhões de dólares por ano.

O artigo é de Gabriel Zucman, originalmente em francês e em inglês no boletim do economista, e reproduzido por CTXT, 05-01-2025. 

Gabriel Zucman (Paris, 39 anos) é o economista do momento na França graças a uma ideia simples, porém explosiva: um imposto de 2% sobre a riqueza dos bilionários.

Eis o artigo.

Não se trata de minimizar os aspectos ideológicos ou geopolíticos da intervenção norte-americana: reafirmar a Doutrina Monroe, estabelecer esferas de influência imperial.

Mas o motivo essencial desse golpe de força é o petróleo: sua apropriação e a extração das maiores reservas de ouro negro do mundo, exploradas durante muito tempo com uma rentabilidade sem precedentes pelas multinacionais norte-americanas e seus acionistas.

Maduro era um ditador brutal e corrupto, mas Trump se dá muito bem com muitos ditadores brutais e corruptos, o que não lhe gera nenhuma hostilidade.

O objetivo principal da expedição trumpista é outro: retomar a exploração do maná petrolífero venezuelano em benefício das grandes fortunas norte-americanas, exploração que atingiu seu primeiro auge na década de 1950, durante a “idade de ouro” mitificada pelo movimento MAGA.

Se quisermos compreender a ambição da Casa Branca, devemos voltar a essa história pouco conhecida: a de um extrativismo internacional levado ao extremo, do qual Trump busca hoje escrever um novo capítulo que, se conseguir, poderá ser ainda mais extremo.

A produção petrolífera venezuelana começa na década de 1910 com um vício fundador: o petróleo é entregue, por assim dizer, às grandes empresas estrangeiras.

O ditador Juan Vicente Gómez concedeu concessões extraordinariamente generosas às multinacionais norte-americanas e britânicas, que rapidamente desenvolveram a produção.

Em 1929, Caracas representava mais de 10% da produção mundial de ouro negro e era o maior exportador do mundo.

Em 1957, o equivalente a 12% do produto interno líquido venezuelano ia parar nas mãos de acionistas norte-americanos.

Inicialmente, britânicos e norte-americanos dividiam o bolo. Ao final da Segunda Guerra Mundial, estes últimos acabaram levando todo o butim. A Venezuela tornou-se o principal destino dos investimentos internacionais dos Estados Unidos e sua principal fonte de lucros externos.

Em 1957, no auge desse extrativismo transfronteiriço, os lucros registrados pelas grandes empresas norte-americanas na Venezuela eram da mesma ordem de grandeza que o conjunto dos lucros obtidos por todas as multinacionais norte-americanas — de todos os setores — em todos os demais países da América Latina e em todos os países da Europa continental juntos.

O equivalente a 12% do produto interno líquido venezuelano — isto é, o valor de todos os bens e serviços produzidos anualmente no país — ia para os acionistas norte-americanos. Ou seja, aproximadamente o mesmo que recebia a classe popular da Venezuela, os 50% mais pobres do país.

Leitura: este gráfico mostra a evolução da relação entre os lucros líquidos antes de impostos obtidos pelas filiais das multinacionais norte-americanas na Venezuela e o produto interno líquido da Venezuela.

Fonte: cálculos do autor a partir das pesquisas plurianuais do Bureau of Economic Analysis sobre as atividades das multinacionais norte-americanas; ver Wright e Zucman (2018) para uma apresentação desses dados.

O PIB da Venezuela crescia, mas em benefício das grandes fortunas norte-americanas que recebiam os dividendos e dos empregados norte-americanos bem remunerados.

No início da década de 1960, a Venezuela abrigava a maior comunidade de expatriados norte-americanos. Eles viviam em enclaves reservados, dotados de hospitais modernos e luxuosos campos de beisebol.

É a “idade de ouro” à qual o poder trumpista deseja retornar. Uma repartição das receitas do petróleo que dificilmente poderia ser mais injusta e desigual.

Trata-se também de um modelo de desenvolvimento profundamente instável, que só pode provocar reações violentas.

Como aceitar que as receitas percebidas pelos acionistas estrangeiros sejam da mesma ordem de grandeza que as percebidas por metade da população local?

Até a década de 1950, seguindo os passos de Gómez, os diferentes regimes que se sucederam no poder em Caracas preferiram mimar o capital internacional, mantendo uma tributação leve, dobrando-se aos desejos das grandes empresas e, muitas vezes, enriquecendo-se no processo.

A partir da década de 1960, assim como no restante da América Latina, os governos sucessivos tentaram negociar condições financeiras mais equilibradas.

A Venezuela colocou-se na vanguarda desse movimento. O político venezuelano Juan Pablo Pérez Alfonzo foi o impulsionador da criação da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em 1960. O país assumiu a liderança do movimento para instaurar uma “nova ordem econômica internacional” e exigir uma revisão das regras do comércio mundial.

Esse processo culminou em 1976 com a nacionalização dos ativos da ExxonMobil, Shell e Chevron na Venezuela.

Donald tinha então 30 anos. Hoje, não cessa de denunciar esse “roubo”. E não esconde seu principal objetivo: voltar às condições leoninas do período 1920–1960.

Se conseguir, pode-se prever uma duplicação ou mesmo uma triplicação dos lucros da indústria petrolífera norte-americana, um dos maiores financiadores de Trump e do Partido Republicano.

As reservas de ouro negro da Venezuela são, de fato, consideráveis — as maiores do mundo. E estão praticamente inexploradas, já que a produção despencou devido à má gestão do regime chavista e ao endurecimento das sanções norte-americanas em 2017.

Os interesses financeiros são tanto mais importantes quanto mais elevados forem os preços do petróleo em relação aos anos 1950. Se Trump conseguisse restabelecer as condições financeiras que prevaleciam em meados do século XX, os ganhos obtidos pelas grandes empresas norte-americanas e por seus proprietários aumentariam na mesma proporção.

Quando Trump diz que quer “governar” a Venezuela, esse é o seu projeto.

Para se ter uma ideia da magnitude, os lucros da Aramco, principal produtora de petróleo da Arábia Saudita, país que abriga as segundas maiores reservas de ouro negro, alcançaram nos últimos anos entre 100 e 150 bilhões de dólares por ano.

Entre 100 e 150 bilhões de dólares por ano: essa é a soma que está hoje em jogo após o sequestro de Maduro.

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