02 Agosto 2025
"Rejeitando como explicação do processo renovador da Igreja tanto o pessimismo quanto o otimismo ingênuo, que ignoram os processos históricos reais, a obra em questão traz uma reflexão importante sobre o legado de Francisco e o que podemos esperar para a Igreja após seu pontificado."
O artigo é de Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Eis o artigo.
Ecclesia semper reformanda... Se toda a reforma ocorre dentro de limites e possibilidades e, se, as reformas e os reformadores fazem parte da história do cristianismo, Francisco desde a sua primeira aparição, desencadeou um clima e um processo de renovação da Igreja. E, como demonstram seus gestos, posturas e ensinamentos, encarnou esse papel com disponibilidade e competência. Empreitou seus propósitos reformadores dentro de limites e possibilidades: instituiu pontualmente certas mudanças, recuperou atrasos de década senão de séculos, no diálogo da Igreja com as diferenças, reverteu posturas que haviam retrocedido nas últimas décadas e desbloqueou posturas que estavam congeladas e proibidas de discussão. Essas atitudes revelam a complexidade e a dimensão processual das reformas que não permitem simplificações que cobrem revoluções estruturais e mudanças imediatas.
Nesta perspectiva situa-se a obra: O pontificado do Papa Francisco: entre a preservação e a renovação (Paulinas, 2025, 336 páginas), escrita pelo professor João Décio Passos, doutor em Ciências Sociais e livre docente em Teologia pela PUC-SP.

Segundo o autor, Francisco, não foi um executor de mudanças localizadas, mas um reformador convicto do conjunto da Igreja. Por causa disso, entrou para a história como uma figura que promoveu mudanças importantes na Igreja, consolidando sua personalidade papal com essa característica de reformador. Mesmo considerando os limites e os alcances dessas reformas, seu impacto é significativo e deve ser avaliado com mais objetividade após seus doze anos de pontificado. Considerando isso, o Passos mostra como o sonho de uma transformação profunda na Igreja, de acordo com o que o Papa Francisco expressou em Evangelii Gaudium, ainda enfrenta desafios na prática. Apesar do desejo de romper com a autopreservação e promover uma mudança mais autêntica, a realidade atual muitas vezes revela que a Igreja ainda prioriza a preservação institucional. Essa tensão entre o ideal de transformação e a prática cotidiana é uma questão importante para entender o caminho que a Igreja percorre.
O conjunto da obra está composto de quatro partes:
1) o reformador e as reformas (p. 29-99),
2) três rumos franciscanos (p. 101-147),
3) parâmetros e construções (p. 149-221),
4) limites e concretizações (p. 223-319), oferecendo uma análise que vai desde a construção de sua personalidade como reformador, passando pelo seu magistério e legado, até os limites e possibilidades do que foi realizado até agora.
Especificamente, as duas primeiras partes se concentram na personalidade do Papa Francisco, vendo-o como alguém que constrói uma imagem de reformador. Nesse contexto, ele desempenha um papel tradicional na Igreja, atuando como um personagem que busca promover mudanças, mas dentro de certos limites e expectativas já estabelecidos. Passos ressalta que a imagem de uma identidade isolada e consolidada desde as origens da Igreja não é mais que projeção. O cristianismo e, por conseguinte, a Igreja foram gestados dentro da história, que muda e exige fixações e, ao mesmo tempo, retorna às suas fontes de onde brotam os impulsos de renovação. No contexto do projeto reformador do Papa Francisco, essa dialética é fundamental. As reformas dele devem ser entendidas dentro dessa dinâmica, onde o paradoxo entre reforma e preservação é uma característica inerente ao papado reformador.
Os papas reformadores, como Francisco, representam esse equilíbrio entre o vigor de promover mudanças e a necessidade de manter a estabilidade institucional. Essa moldura realista ajuda a avaliar os limites e possibilidades do projeto de Francisco, indo além das paixões iniciais ou das decepções com obstáculos visíveis. Assim, podemos compreender que o seu esforço de reforma está inserido em uma tradição que reconhece tanto a necessidade de renovação quanto a importância de preservar a essência da Igreja, mesmo diante de desafios e limites.
A terceira parte destaca o legado do Papa Francisco em termos de parâmetros e sínteses que ele elaborou durante seu pontificado. Isso significa que, além de sua personalidade e papel tradicional, há uma ênfase na contribuição concreta dele para a Igreja, através de ensinamentos, diretrizes e reflexões que ajudam a orientar a atuação eclesial. O autor mostra como o Papa Francisco adota uma hermenêutica histórica, inspirada pelo Vaticano II, que valoriza a compreensão da Igreja dentro do contexto real da história e dos desafios concretos da humanidade superando com isso as teologias idealistas e essencialistas que predominavam antes do Concílio, focando na realidade atual, nos dramas dos pobres, do planeta e da cultura. Ao fazer isso, Francisco escuta os sinais dos tempos e realiza um discernimento atento às interrogações e clamores do mundo, elaborando seus ensinamentos com uma abordagem indutiva e baseada sobre a fé na encarnação de Deus. Essa fé na encarnação é fundamental na sua visão, pois reforça uma teologia centrada na carne, na experiência concreta e na presença de Deus no sofrimento humano. Dessa forma, princípios como misericórdia, empatia e solidariedade emergem como consequências dessa compreensão, promovendo uma Igreja mais próxima, compassiva e engajada com a realidade.
A quarta parte aborda os limites e possibilidades do que já foi realizado a partir do projeto apresentado pelo Papa Francisco. Nesta parte Passos analisa tanto os avanços quanto os obstáculos enfrentados na implementação das ideias e iniciativas do pontífice. Essa reflexão ajuda a entender o impacto real do seu magistério e a identificar áreas onde ainda há espaço para melhorias ou desafios a serem superados. Aqui Passos destaca como Francisco, ao empreender suas reformas, agiu de forma cuidadosa e realista, reconhecendo os limites e possibilidades do momento. Ele instituiu algumas mudanças pontuais, recuperou atrasos históricos e incentivou o diálogo com as diferenças, reverter posturas retrógradas e desbloquear discussões proibidas. Essas ações mostram que as reformas são processos complexos, que envolvem uma série de etapas e não podem ser reduzidas a revoluções rápidas ou mudanças instantâneas.
Francisco e seu papel como reformador do catolicismo... A obra destaca que o testemunho e a coerência pessoal do Papa são um legado valioso, que certamente será lembrado na história como de um reformador verdadeiro. Além disso, ela reforça a ideia de que o espírito de reforma sempre volta ao coração do Evangelho, buscando renovação e criatividade, sem se prender ao passado.
Ao longo da obra, Passos destaca que Francisco, mesmo sendo um reformador convicto, optou por uma abordagem mais gradual e espiritual do que uma mudança rápida e radical. Ele não buscou usar todas as prerrogativas legais ou canônicas que teria como papa para implementar suas reformas, preferindo construir consensos através do diálogo e da sinodalidade, que hoje é uma prática bem mais explícita. Essa escolha reflete uma visão de que o tempo é mais importante que o espaço imediato para mudanças, valorizando a maturação lenta e a condução pelo Espírito Santo. Para Francisco, essa não foi apenas uma estratégia política, mas uma decisão espiritual, confiando que é o Espírito quem guia a construção e reconstrução da Igreja, mesmo em meio a conflitos e esperanças.
Rejeitando como explicação do processo renovador da Igreja tanto o pessimismo quanto o otimismo ingênuo, que ignoram os processos históricos reais, a obra em questão traz uma reflexão importante sobre o legado de Francisco e o que podemos esperar para a Igreja após seu pontificado. De fato, o autor pontua que Francisco surpreendeu e impactou profundamente a Igreja e a sociedade com seus gestos, decisões e ensinamentos, podendo ser considerado o início de uma nova era: a era Francisco. A continuidade das reformas, tanto na letra quanto no espírito, agora depende do atual papa, que tem a responsabilidade de manter vivo esse espírito reformador, alinhando-se ao ideário e às estratégias que Francisco promoveu.
As reflexões e a leitura desta obra que expõe as dificuldades e os limites dos sonhos renovadores do papa do fim do mundo durante o seu frutuoso pontificado ajudarão o leitor a perceber a importância do legado de Francisco na continuidade da reforma da Igreja, entendendo que ela é um processo permanente inspirado pelo coração do evangelho. Além disso, o leitor poderá compreender que essa reforma não é algo fixo, mas um espírito de sensibilidade, discernimento e busca constante pelo novo, que impulsiona a Igreja a caminhar para frente na história, concordando com o olhar prospectivo do autor quando diz que a semente da reforma foi lançada por Francisco e permanecerá germinando nos solos mais férteis.
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