25 Março 2025
"Teólogos como José María Castillo, José Antonio Pagola e Jon Sobrino, que lutaram por uma Igreja mais inclusiva e engajada com as realidades sociais, foram marginalizados, ignorados ou até mesmo punidos por desafiarem as estruturas de poder constituídas. Ao contrário, Francisco procurou restaurar a vitalidade evangélica da Igreja, desafiando a rígida hierarquia e promovendo uma maior abertura para a reflexão teológica, o questionamento e o diálogo com a realidade", escreve José Carlos Enriquez Diaz, em artigo publicado por Ataque al Poder, 23-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
A recente aparição pública do Papa Francisco na sacada do hospital Gemelli, em uma cadeira de rodas e visivelmente marcado pelos problemas de saúde, foi um ato carregado de simbolismo. Diante de milhares de fiéis que o aguardavam, Francisco proferiu poucas e breves palavras de gratidão, embora fosse perceptível seu esforço para respirar e se movimentar. Um gesto cheio de humanidade e vulnerabilidade que, no entanto, foi ofuscado pelo murmúrio de alguns que se alegraram com seu sofrimento, como se a fragilidade de um homem tão dedicado à misericórdia fosse algo a ser ignorado. Essa cena destaca uma profunda contradição dentro da Igreja: a luz de um papa que busca a proximidade, o perdão e a inclusão, por um lado, e, por outro, os fortes ventos da oposição que buscam impedir os passos em direção a uma Igreja mais evangélica e menos hierárquica.
As críticas mais cruéis vieram de vozes como a de Jesús Sanz, Arcebispo de Oviedo, que não hesitou em chamar o Papa Francisco de “doente terminal”, reduzindo a pessoa do Pontífice a uma figura descartável, cuja saúde era vista apenas como um obstáculo por seus detratores. Esse tipo de declaração não apenas desumaniza o papa, mas também reflete uma abordagem pastoral muito distante dos princípios fundamentais do Evangelho. Com palavras como essas, alguns setores da Igreja procuram se livrar da figura de Francisco, sem entender que sua fraqueza não é um sinal de derrota, mas um testemunho de seu empenho com uma Igreja mais próxima e compassiva.
É fundamental ressaltar que aqueles que criticam o Papa Francisco por sua proximidade aos mais vulneráveis e a sua abertura ao diálogo nunca questionaram o autoritarismo que caracterizou o papado de João Paulo II ou Bento XVI. Durante seus pontificados, as vozes dissidentes e as propostas de mudança foram sistematicamente silenciadas. Teólogos como José María Castillo, José Antonio Pagola e Jon Sobrino, que lutaram por uma Igreja mais inclusiva e engajada com as realidades sociais, foram marginalizados, ignorados ou até mesmo punidos por desafiarem as estruturas de poder constituídas. Ao contrário, Francisco procurou restaurar a vitalidade evangélica da Igreja, desafiando a rígida hierarquia e promovendo uma maior abertura para a reflexão teológica, o questionamento e o diálogo com a realidade. Seu apelo a teólogos como Castillo, incentivando-o a continuar escrevendo e compartilhar a sua visão, é um exemplo claro de seu desejo de revitalizar a liberdade de pensamento dentro da Igreja. Mas esse impulso em direção a uma Igreja mais aberta, inclusiva e empenhada com o Evangelho encontra forte resistência por parte daqueles que preferem manter o status quo e consideram a Igreja uma instituição fechada, imune a mudanças.
Os danos causados pelos silêncios impostos no passado são enormes. A repressão de vozes críticas criou uma Igreja que, de muitas maneiras, se desconectou das realidades do povo e da missão de Jesus. A visão de uma Igreja mais evangélica, na qual a mensagem de Jesus é vivida de forma mais autêntica e menos burocrática, continua a ser obstruída por aqueles que temem que a mudança ameace suas posições de poder. No entanto, Francisco continua a ir em frente, enfrentando essas resistências com a mesma humildade e misericórdia que o caracterizaram durante todo o seu papado.
O desafio de Francisco não é apenas enfrentar a doença, mas também os setores poderosos que resistem à renovação da Igreja. O papa continua sendo o líder de uma Igreja que precisa aprender a abraçar a fragilidade humana, não a rejeitá-la. Em sua aparição na sacada do hospital, Francisco demonstrou não apenas sua vulnerabilidade física, mas também sua força interior para continuar a lutar por uma Igreja mais fiel aos princípios do Evangelho: uma Igreja aberta e dialogante, que não tem medo de questionar suas estruturas e, acima de tudo, que coloca a pessoa humana, em toda a sua fragilidade, no centro de sua missão. Nesse sentido, seu trabalho, embora dificultado pelos obstáculos do autoritarismo e da incompreensão, continua sendo uma luz de esperança no caminho rumo a uma Igreja mais verdadeira e mais próxima da vontade de Deus.