25 Março 2025
"Em vez de permitir que os padres integrem a sexualidade de forma saudável e equilibrada, o celibato os obriga a uma contradição interna constante. Essa contradição se torna um terreno fértil para a frustração, a raiva e o ressentimento que, em um contexto de poder e autoridade, podem se transformar em abuso", escreve José Carlos Enriquez Diaz, em artigo publicado por Ataque al Poder, 22-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
O teólogo e psicoterapeuta Eugen Drewermann tem sido uma figura-chave na reflexão sobre o celibato na Igreja Católica e sua relação com o abuso sexual. Por meio de sua abordagem psicológica, Drewermann não apenas questiona a teologia oficial, mas também aprofunda como as dinâmicas emocionais, psicológicas e de poder dentro da instituição eclesiástica podem contribuir para o desenvolvimento de comportamentos patológicos, como o abuso sexual.
Sua análise revela que o celibato não é simplesmente uma norma religiosa, mas uma instituição que pode ter consequências destrutivas para a saúde mental dos clérigos e, por meio da repressão da sexualidade, pode levar a disfunções profundamente enraizadas.
Drewermann, por meio de sua formação em psicologia e psicanálise, defende que o celibato imposto aos padres católicos é uma forma de repressão dos instintos naturais. Seguindo os ensinamentos de Freud e Jung, ele argumenta que a sexualidade humana não é simplesmente um desejo fisiológico, mas uma força emocional profunda que influi sobre o comportamento e a psique humana. Quando essa força é reprimida ou negada, ela não desaparece, mas se transforma em uma fonte de tensão interna que pode se manifestar de forma destrutiva. Em sua análise, Drewermann enfatiza que a repressão da sexualidade nos padres não afeta apenas sua vida emocional e pessoal, mas também seu bem-estar psicológico. A sexualidade não é uma parte isolada da personalidade; está intrinsecamente ligada às emoções, aos afetos e ao senso de identidade de cada indivíduo. Negar essa parte essencial da pessoa, como acontece no celibato imposto, cria uma distorção de identidade, pois os sacerdotes são forçados a reprimir sua sexualidade e a se desconectar de um aspecto fundamental de seu ser.
Drewermann ressalta que a repressão sexual pode levar a uma “neurose da sexualidade”, na qual o desejo sexual não desaparece, mas se transforma em uma obsessão ou fixação que, em alguns casos, pode resultar em comportamento patológico, como o abuso sexual.
Em vez de permitir que os padres integrem a sexualidade de forma saudável e equilibrada, o celibato os obriga a uma contradição interna constante. Essa contradição se torna um terreno fértil para a frustração, a raiva e o ressentimento que, em um contexto de poder e autoridade, podem se transformar em abuso.
Um dos pontos principais da análise de Drewermann é a relação entre celibato, poder e sexualidade reprimida. Segundo ele, os abusos sexuais na Igreja não devem ser vistos apenas como um fenômeno individual que afeta alguns padres, mas como o resultado de uma estrutura institucional que combina o celibato com um sistema de poder hierárquico muito rígido. Nesse contexto, a sexualidade dos padres se torna um argumento não apenas reprimido, mas também controlado pela hierarquia eclesiástica. Essa dinâmica de poder exacerba as dificuldades emocionais dos clérigos e cria um ambiente propício à manipulação e aos abusos.
A relação entre o celibato e o abuso sexual também é uma questão de poder sobre os corpos dos outros, especialmente no contexto de abusos de menores. Drewermann argumenta que a sexualidade reprimida dos padres, combinada com o poder que eles têm sobre seus fiéis, cria uma atmosfera na qual o abuso pode ser escondido e perpetuado. A Igreja, ao promover um sistema de autoridade absoluta, confere ao padre uma posição de poder que é reforçada pela falta de limites claros em suas interações com aqueles a quem ele deveria servir. Nesse contexto, os padres podem usar sua autoridade para manipular e controlar, o que facilita os abusos sexuais, especialmente quando a vítima é vulnerável. De acordo com Drewermann, a psicologia por trás do abuso sexual está enraizada na “saturação emocional” da sexualidade reprimida. Esse fenômeno ocorre quando um indivíduo acumula desejos sexuais não expressos, que acabam explodindo de forma patológica. Os abusadores sexuais na Igreja, portanto, não agem necessariamente por uma “necessidade” de sexo, mas por uma “necessidade” de poder. O abuso, de acordo com essa abordagem, torna-se uma forma de escapar da pressão emocional interna gerada pela repressão e de satisfazer não apenas o desejo sexual, mas também a necessidade de controle e dominação.
Outro aspecto criticado por Drewermann é a falta de um apoio psicológico adequado para os padres dentro da Igreja. Por estarem imersos em uma cultura que valoriza a pureza e a perfeição espiritual, os padres não têm espaço para lidar com as dificuldades emocionais e psicológicas que surgem da repressão sexual. Drewermann argumenta que a Igreja não apenas não conseguiu oferecer uma formação psicológica adequada para seus clérigos, mas também criou um ambiente no qual a vulnerabilidade e os problemas emocionais são vistos como sinais de fraqueza. Em vez de incentivar a autocompreensão e a aceitação da sexualidade humana como parte da vida, a instituição promoveu o sigilo e a ocultação dos conflitos internos.
Outro fator crítico na perpetuação dos abusos é o “silêncio cúmplice” que caracteriza a Igreja. Os casos de abuso não são denunciados e, quando o são, são minimizados ou encobertos. A estrutura hierárquica, que confere um poder absoluto aos superiores, torna difícil para os padres receberem a ajuda de que precisam. Essa cultura de silêncio reforça o isolamento emocional dos clérigos e agrava as tensões psicológicas. Os abusos sexuais na Igreja, portanto, não são apenas o resultado da repressão sexual, mas também do sistema que reforça o sigilo e a impunidade.
Drewermann defende uma profunda reestruturação da vida religiosa na Igreja, que permita que os padres integrem sua sexualidade e espiritualidade de forma saudável. Ele propõe que o celibato não seja uma obrigação imposta, mas uma escolha pessoal baseada na reflexão consciente da própria vocação e das necessidades emocionais e psicológicas dos indivíduos. A Igreja, de acordo com Drewermann, deve oferecer uma abordagem mais inclusiva que permita aos sacerdotes lidar com seus desejos, emoções e conflitos de forma aberta e respeitosa.
Além disso, enfatiza a importância de uma formação integral que também inclua aspectos psicológicos e emocionais, não apenas teológicos. Essa formação deve ajudar os sacerdotes a compreender a complexidade da sexualidade humana e sua relação com o amor, o afeto e o desejo, e como esses aspectos podem ser integrados em uma vida saudável de serviço aos outros. A Igreja deve reconhecer que a repressão da sexualidade e o abuso de poder são problemas que devem ser enfrentados de maneira integral, tanto em nível individual quanto institucional.
Concluindo, a relação entre o celibato e o abuso sexual na Igreja não é um fenômeno simples ou unidimensional. De acordo com Eugen Drewermann, a repressão sexual imposta pelo celibato, combinada com a estrutura de poder hierárquica e a falta de suporte psicológico, contribui para a criação de um ambiente emocionalmente tóxico. Somente por meio de uma reforma profunda, que inclua também uma revisão da relação entre sexualidade, poder e afetividade, será possível superar a crise que a Igreja enfrenta atualmente.