Por: Elstor Hanzen | 22 Março 2025
Este ano, o Brasil será responsável por presidir e sediar a 30ª sessão da Conferência das Partes (COP30), edição que marca os 20 anos desde a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto e 10 anos da adoção do Acordo de Paris. Os desafios e conflitos em debate, antes do evento em novembro, não são poucos nem pequenos.
A escala e a gravidade das mudanças climáticas e seus crescentes impactos são mundiais. O ano de 2024, por exemplo, foi o mais quente já registrado globalmente, e o primeiro ano em que a temperatura média global excedeu 1,5°C acima do seu nível pré-industrial. As consequências do aquecimento do planeta têm afetado diretamente a vida da população com fenômenos extremos, como as enchentes do Rio Grande do Sul e as queimadas na Amazônia e no Pantanal, assim como a forte onda de calor que atingiu o país no início do ano.
Apensar dos fatos e das evidências científicas quanto aos efeitos do clima, o Brasil vem enfrentando conflitos e debates quanto à ideia de exploração de petróleo na Foz do Amazonas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu recentemente a ampliação da produção de combustíveis fósseis como meio de desenvolvimento econômico e social, o que vai contra os compromissos internacionais assumidos pelo próprio Brasil de reduzir as suas emissões.
Especialistas em questões ambientais, no entanto, apontam para a necessidade da transição energética e mudanças na forma de produção e de consumo a fim reduzir a velocidade do aquecimento global, que é uma ameaça existencial à humanidade. Para o professor titular do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) Paulo Artaxo, o Brasil tem que fazer o tema de casa e cumprir as suas obrigações, tanto do Acordo de Paris quanto às reuniões das Conferências das Partes do Acordo Climático feitas depois do Acordo de Paris.
“Um desses compromissos é zerar o desmatamento da floresta amazônica até 2030. Todo esforço vai ser necessário para cumprir essa meta e é fundamental que o Brasil desenha uma trajetória factível para que essa meta seja efetivamente cumprida. Mas ela tem que ser complementada com um amplo programa de regeneração ecológica das áreas degradadas que temos no Brasil em todos os biomas. Isso é fundamental para trazer de volta o Brasil no caminho da liderança ambiental e climática do nosso planeta”, disse em entrevista recente.
Artaxo defende um novo contrato social com a natureza. Para ele, isso significa mudar o nosso modelo econômico baseado na superexploração dos recursos naturais do planeta por um novo modelo econômico ou um novo contrato social que leve em conta as necessidades efetivas da população e não somente de alguns setores da indústria, como a indústria do petróleo ou do desmatamento da Amazônia. “Temos que olhar para o interesse da população, incluindo a população indígena, quilombolas, ribeirinhos e a população brasileira em geral. Isso é absolutamente fundamental para construirmos um futuro que seja minimamente sustentável para o Brasil”, enfatiza o professor.
Em entrevista durante a enchente de 2024 ao IHU, Artaxo alertou sobre o aumento brutal da temperatura global. “A Ciência alertou e continua alertando de que é fundamental reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa para que esses eventos climáticos extremos não aumentem ainda mais de intensidade e de frequência”, destacou. Acrescentou que “é fundamental mudarmos efetivamente todo o panorama da nossa sociedade do ponto de vista de modelo socioeconômico”.
A fim de propor caminhos para promoção de outra sociedade possível, a partir dos desafios climáticos, socioeconômicos, políticos e teológicos contemporâneos, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove, neste semestre, o Ciclo de Estudos Futuro Comum. Ideias para adiar o fim do mundo. O evento, inspirado nos dez anos da Encíclica Laudato si e da Campanha da Fraternidade deste ano, Fraternidade e Ecologia integral, será realizado na modalidade online, com videoconferências mensais, transmitidas na página eletrônica do IHU, nas redes sociais e no canal do YouTube. Inscreva-se no ciclo de estudos aqui
A palestra de abertura, intitulada “Por um novo contrato com a natureza”, vai ser ministrada pelo professor Paulo Artaxo, da USP, às 10h do dia 25-03-2025. O tema alude ao desejo da sociedade brasileira de estabelecer novas relações institucionais com as comunidades que dependem da natureza para sobreviver e com o meio ambiente, especialmente depois das declarações presidenciais sobre o lenga-lenga para permitir a autorização ambiental para exploração de petróleo na Foz do Rio Amazonas.
Paulo Artaxo é graduado em Física pela Universidade São Paulo – USP, mestre em Física Nuclear e doutor em Física Atmosférica pela USP. Trabalhou na NASA, na Universidades de Antuérpia (Bélgica), em Lund (Suécia) e em Harvard (Estados Unidos). É professor titular do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP. Ainda é membro do IPCC.