18 Março 2025
Negacionismo do governo de Donald Trump complica o tabuleiro político para a COP30 e redobra atenção para liderança do Brasil e de outros países nas negociações em Belém.
A reportagem é publicada por ClimaInfo, 17-03-2025.
Há dois anos, quando o Brasil formalizou sua candidatura para sediar a COP30, boa parte das “cascas de banana” geopolíticas atuais já estavam postas no chão. A guerra entre Rússia e Ucrânia, as tensões entre Estados Unidos e China, o avanço da extrema-direita na União Europeia e na América Latina, entre outros desafios, se intensificaram de lá para cá. Já era um mundo difícil. Em 2025, ele ficou ainda pior.
Essa piora geopolítica tem nome, sobrenome e endereço: Donald Trump, de volta à Casa Branca, em Washington. Os Estados Unidos voltam a ser um elemento de tensão crítica nas negociações climáticas – e caberá ao Brasil servir como anfitrião do primeiro embate diplomático entre o negacionismo norte-americano e o esforço pela ação climática global.
“Quando o Brasil submeteu sua pretensão de hospedar a Conferência, era um cenário absolutamente diferente. Tanto para as negociações quanto para o cenário multilateral. A coisa se complicou muito de lá para cá”, comentou Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima (OC), em sua primeira participação como comentarista sobre a COP30 na rádio Eldorado, reproduzida pelo Estadão.
Desde janeiro, quando reassumiu o poder, Trump retirou novamente os EUA do Acordo de Paris, interrompeu projetos de apoio e financiamento climático internacional, e vem atuando para desmontar as estruturas governamentais que lidam com o tema, desde o nível científico até as políticas públicas. Para a COP30, há uma incerteza sobre como será a atuação norte-americana nas conversas em Belém (PA).
“Se os Estados Unidos não atrapalharem, já está bom demais”, destacou Astrini, que também lembrou da dificuldade histórica dos demais países lidarem com as peculiaridades de Washington. “Mesmo quando estão dentro, [os EUA] não fazem grandes gestos. São muito difíceis na negociação”.
Sobre a COP30, Astrini defendeu que o Brasil defina uma agenda de trabalho, voltada ao que precisa ser feito para o mundo reduzir emissões e evitar um aquecimento acima de 1,5ºC. Para tanto, a diplomacia brasileira precisará tirar da gaveta um tema que ficou praticamente escondido na carta publicada pela presidência da COP neste mês – o fim dos combustíveis fósseis.
“[Precisamos] iniciar uma conversa sobre como isso poderia ser feito. Pelo menos começar a desenhar um plano. (…) Talvez, se o Brasil pegar uma agenda como essa e começar a exercitar essa agenda para ser colocada em cima da mesa, vai prestar um serviço inédito dentro dos debates das conferências”, destacou Astrini.
Na mesma linha, o cientista Paulo Artaxo (USP) defendeu que a COP30 avance na discussão sobre o fim da energia fóssil como um dos principais objetivos do encontro. “A COP30 terá a responsabilidade de avançar nesse tema central, acelerando a transição energética e o fim da exploração e do uso desses combustíveis, raiz da crise climática”, comentou em artigo na CartaCapital.
Um elemento que pode incentivar essa mudança é a pressão da opinião pública sobre os governos. O próprio presidente-designado da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, sugeriu que o avanço na posição brasileira sobre a questão das florestas nas negociações climáticas é fruto dessa pressão de ativistas, cientistas e outros setores econômicos e sociais.
“O Brasil se deu conta de que tem um corpo de cientistas, acadêmicos e práticas florestais incríveis”, disse Corrêa do Lago em entrevista à Sumaúma. “Os governos tendem a ser conservadores. Mas se, por exemplo, empresas asseguram que podem ser mais ambiciosas no combate à mudança do clima, vários governos poderão mudar de posição. Se há uma prioridade de uma maioria da população, de um setor significativo de um país, isso também pode ter uma influência”.
O Guardian noticiou que o governo brasileiro está negociando com a Edelman, a maior agência de relações públicas do mundo, para apoiar a organização da COP30 na frente de comunicação. A empresa já desempenhou função parecida na COP28 em Dubai, nos Emirados Árabes; na época, um dos objetivos do trabalho era responder às críticas internacionais contra a repressão política de dissidentes no país, além dos vários conflitos de interesses que permearam a organização no encontro. No caso brasileiro, a Edelman pode se enfiar em outro conflito de interesse: isso porque a empresa atuou em favor da ABIOVE, que representa os maiores comerciantes de soja, atividade econômica que se tornou o principal vetor do desmatamento no Cerrado e de pressão sobre a Amazônia.