29 Mai 2024
"Foi talvez o início do meu amor pelos versos do poeta, a partir da primordial Alegria do naufrágio (1919), contendo também textos compostos nas trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial e muitas vezes entregues a imagens fulgurantes. Citamos um dístico do poema intitulado Danação que dá voz ao anseio pelo divino escondido nas 'coisas mortais' da existência terrena. O paradoxo é evidente. Estamos imersos em realidades finitas e transitórias, até mesmo aquele céu estrelado é marcado pelo limite, como acontece com muitas estrelas e acontecerá com o próprio sol", escreve Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por em Il Sole 24 Ore, 26-05-2024. A tradução de Luisa Rabolini.
Recluso entre coisas mortais (Mesmo o céu estrelado findará) Ardo por Deus por quê? No exame de conclusão do ensino médio que fiz em 1961, a redação de italiano baseava-se em uma poesia de Ungaretti, ainda vivo na época. Foi talvez o início do meu amor pelos versos do poeta, a partir da primordial Alegria do naufrágio (1919), contendo também textos compostos nas trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial e muitas vezes entregues a imagens fulgurantes.
Citamos um dístico do poema intitulado Danação que dá voz ao anseio pelo divino escondido nas “coisas mortais” da existência terrena. O paradoxo é evidente. Estamos imersos em realidades finitas e transitórias, até mesmo aquele céu estrelado é marcado pelo limite, como acontece com muitas estrelas e acontecerá com o próprio sol. Então, por que surge sempre na pessoa humana uma sede de infinito e de eterno?
A filosofia e a teologia sempre insistiram em torno dessa antinomia, imaginando as mais complexas demonstrações da existência de Deus, as mais sofisticadas análises de seu mistério sempre fugidio, assim como as negações mais firmes ou os protestos mais veementes, especialmente quando a humanidade se choca contra a muralha do mal e da dor inocente.
Obviamente não podemos apenas evocar por alusão aquelas respostas e reações. Queremos apenas convidar leitores crentes e agnósticos ao questionamento, à busca, à "inquietação" agostiniana e pascaliana, a não se contentar apenas com o fenômeno e o imediato, a não extinguir aquela emoção que às vezes nos domina e que nos leva a buscar um além e um outro superiores. O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard observava: “A fé é a mais alta paixão de todo homem. Talvez muitos não a alcancem, mas ninguém vai além dela”.