Guerra na Ucrânia, é central se questionar sobre qual é o objetivo geopolítico final. Artigo de Marco Politi

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23 Mai 2022

 

"Torna-se então central perguntar qual é o objetivo geopolítico final do conflito. Uma grande recessão está batendo às portas: inflação, estagnação, desemprego para centenas de milhares de pessoas, crise alimentar para milhões, crise migratória em grande número. O "faro do povo", diria Francisco, exige saber exatamente pelo que seríamos chamados a pagar um preço tão alto. Pela Crimeia?", escreve Marco Politi, jornalista, ensaísta italiano e vaticanista, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 21-05-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

No terceiro mês de guerra na Ucrânia, Emmanuel Macron e o Papa Francisco se apresentam como o “polo” que quer com maior clareza trabalhar para encerrar o conflito. O presidente francês garante a continuidade do fornecimento de armas para a Ucrânia, mas o objetivo de sua política é claramente chegar rapidamente a uma mesa de negociação. E a ênfase é significativa: sem infligir humilhações à Rússia, sem buscar vingança e revanchismos.

 

Francisco já esclareceu - e sua posição é compartilhada por grande parte da opinião pública - que não faz sentido desencadear uma corrida contínua ao rearmamento, não faz sentido desencadear uma escalada perigosa do conflito e que a solução consiste em sair dos esquemas dos blocos político-militares, trabalhando por uma arquitetura de coexistência multipolar em nível global. Um pacto global de Helsinque. O pontífice beijou a bandeira ucraniana de Bucha, condenou os massacres cometidos por unidades russas e, ao mesmo tempo, defende que a paz exige também compromissos.

 

Do lado oposto se colocam os países bálticos e a Polônia, que veem nas derrotas já registradas por Putin (conquista fracassada de Kiev, colapso fracassado da Ucrânia, resultados decepcionantes das tropas em campo) a oportunidade histórica de infligir um golpe final à Rússia, que não lhe permitirá "nunca mais" aventuras militares. É a opção que defende uma parte do governo Biden e, de forma ostensiva, o primeiro-ministro britânico Johnson.

 

No meio (entre os dois "polos" se movem a França e o Vaticano, de um lado, e os falcões da Europa oriental mais a Grã-Bretanha do outro), além da Itália, que acaba de apresentar um projeto de percurso de paz à ONU, estão também Alemanha e Espanha, pressionando por um cessar-fogo. Além disso, a opinião pública italiana é muito mais determinada e mais próxima das posições do pontífice argentino. A última pesquisa Demopolis indica que 68 por cento dos italianos querem que a União Europeia se empenhe em uma mediação entre a Rússia e a Ucrânia para "chegar a uma trégua o mais rápido possível".

 

Enquanto isso, o Papa Francisco enviou para a Ucrânia o seu ministro das Relações Exteriores, Mons. Paul Gallagher, para uma avaliação política, a fim de compreender melhor as intenções do governo de Kiev e as posições da hierarquia católica e greco-católica ucraniana. A ideia ventilada pela liderança ucraniana de uma retirada total dos russos para as posições anteriores a 2014 é considerada totalmente irrealista. Para a Santa Sé, uma coisa é enfrentar Putin por legítima defesa contra a invasão, conceito repetidamente evocado pelo Cardeal Parolin, outra coisa é a busca de uma "vitória", desestabilizadora pela incontrolável e irresponsável espiral de escalada que dela derivaria.

 

Não existem guerras santas para Francisco. Ele disse isso ao Patriarca Kirill na famosa vídeo-chamada em março e a mesma mensagem também vale para Kiev. "Os responsáveis pelas nações - é o seu pensamento - não devem perder o faro do povo, que quer a paz e sabe muito bem que as armas nunca a trazem". Nessa linha, na Igreja Católica há anos atribulada por tendências opostas, uma ampla maioria transversal apoia o Papa Bergoglio, dos reformistas aos conservadores, do veterano da época conciliar e pós-conciliar Raniero La Valle aos círculos tradicionalistas que se encontram nas mídias sociais de Rosso Porpora.

 

Zelensky não parece ter muita simpatia pelo Papa em sua versão geopolítica. Na entrevista para Porta a Porta, ele confinou Francisco a um nicho inofensivo de produtor de orações. “Quando o Papa reza pela Ucrânia – disse ele – faz o que uma pessoa de fé pode fazer: reza para que Deus nos ajude”. Em suma, o pontífice em Roma está certo quando fica em seu lugar, a rezar, e no máximo se encarrega de organizar corredores humanitários. Não é o papel ao qual se limitaram os grandes pontífices das décadas entre esses dois séculos: João XXIII, Paulo VI, João Paulo II e hoje Francisco. O presidente ucraniano também reiterou sua aversão pela Via Sacra organizada pelo Vaticano com a presença de duas mulheres, uma ucraniana e uma russa, segurando a cruz. Mostrou-se, declarou ele, “duas pessoas carregando duas bandeiras, a russa e a ucraniana, como se houvesse amizade. Não pudemos aceitar isso, sinto muito. Aquela bandeira é aquela pela qual estão nos matando…”. A história das bandeiras é mentira. Nunca houve nenhuma bandeira na Via Sacra. As duas mulheres carregavam apenas a cruz e a mulher russa, no dia da invasão, chorando havia pedido perdão à amiga ucraniana.

 

Mas a história é instrutiva para o controle total que o governo de Kiev pretende exercer sobre toda narrativa e informação. Apenas um canal de informação de TV é permitido desde o início do conflito. E se Zelensky não quiser, ninguém pode ver a Via Sacra de Francisco na televisão. Como de fato aconteceu na Ucrânia. A Cruz que vence o mal, a morte e o ódio, prefigurando uma paz a ser construída entre dois povos num amanhã livres e irmãos, teve que ser banida da tela.

 

Existe outro ponto em que o Vaticano e o governo de Kiev estão muito distantes. Na televisão italiana, a vice-premiê ucraniana Iryna Vereshchuk reiterou que "todos os russos" são responsáveis pela guerra em andamento e, portanto, por suas consequências. Todos. O nacionalismo extremista é algo que repugna o Vaticano. Já foi visto nas guerras dos Balcãs, no espaço da ex-Jugoslávia, quantos desastres trouxe o fanatismo desenfreado do ódio interétnico. No Vaticano não se quer assistir a uma reprise desse tipo.

 

E, contudo, em Kiev, onde se encontrou com o chanceler ucraniano Kuleba, D. Paul Gallagher reconheceu que as feridas infligidas pela invasão russa são profundas: "É difícil falar agora de paz, de reconciliação, porque no coração das pessoas os sofrimentos, as feridas são tão profundas que é preciso dar tempo". Em todo o caso, ressalta Gallagher, continua a ser necessário chegar a um "autêntico processo de negociação... o caminho certo para uma resolução justa e permanente".

 

O Cardeal Bassetti, presidente em saída da Conferência Episcopal Italiana, muito próximo do pontífice, resume no Avvenire: o conflito em curso é uma loucura, não se pode pensar em construir a paz com a corrida armamentista, "estamos perto do povo ucraniano agredido pelas tropas russas”, mas é hora da Igreja e da sociedade se inicie uma cruzada de paz para chegar à negociação.

 

Um véu de hipocrisia paira sobre tudo. Quando se argumenta que cabe apenas a Kiev decidir os termos da paz, na verdade parece uma maneira de não descobrir as cartas sobre os objetivos da guerra em curso. Uma guerra que não é mais o confronto entre o invasor russo Golias e o agredido ucraniano Davi, mas que já se transformou em um conflito entre os Estados Unidos (com a OTAN) e a Rússia, em que a Ucrânia é o ringue. Torna-se então central perguntar qual é o objetivo geopolítico final do conflito. Uma grande recessão está batendo às portas: inflação, estagnação, desemprego para centenas de milhares de pessoas, crise alimentar para milhões, crise migratória em grande número. O "faro do povo", diria Francisco, exige saber exatamente pelo que seríamos chamados a pagar um preço tão alto. Pela Crimeia?

 

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