O fantasma da vitória. Artigo de Raniero La Valle

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28 Abril 2022

 

Entre os escombros desta guerra está a ilusão, ou a esperança, de que se possa construir uma nova ordem mundial, baseada não no poder, mas no direito, não na razão de Estado, mas nas razões dos povos, não na guerra vencidas, mas na guerra repudiada. Em todo o caso, sempre é possível recomeçar de novo. Como escreveu o político Pietro Ingrao em um de seus poemas, “levanta bem alto a derrota”.

 

A opinião é de Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado por Chiesa di Tutti Chiesa dei Poveri, 27-04-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Segundo ele, "o que seria uma vitória para os Estados Unidos, a Otan e a Europa, se ela realmente consistisse em acender o pavio da terceira guerra mundial, colocando a Rússia para fora do jogo, provocando a China e prospectando para a humanidade inteira um mundo composto apenas pelo Ocidente? E o que seria uma vitória para a Rússia, que fosse além da reivindicação inicial de uma interdição da ameaça proveniente do Oeste, se isso significasse tornar-se um anátema das nações, ser condenada à negação genocida da sua própria existência, que se trate do rublo, do povo ou do “Lago dos Cisnes”?"

 

"É totalmente irresponsável torcer pela vitória de um ou de outro - atesta o jornalista -, como quer que se queira chamar essa vitória, defesa da pátria ou dominação do mundo; e é uma insensata cumplicidade querer estar no campo dos vencedores. A verdadeira sabedoria é a busca de uma alternativa à vitória para pôr fim à guerra".

 

Eis o texto.

 

Se não se consegue pôr fim a esta guerra nefasta que já destruiu a alma do mundo antes mesmo das instituições que asseguram a sua vida, é porque o espectro da vitória não foi exorcizado.

 

É um lugar-comum, mas totalmente falso, que a vitória é a melhor conclusão de uma guerra. Trata-se de um mito antigo: a vitória é o prêmio da guerra; a vitória alada paira sobre o triunfo do condotiero, esmaga o elmo dos vencidos; não se concebe outra coisa senão a vitória como saída da guerra, pai e princípio de todas as coisas, como sempre foi teorizada, pelo menos a partir do dito de Heráclito.

 

Até mesmo Jesus, que amava os inimigos, admitia que se faz a guerra para vencê-la: “Se um rei pretende sair para guerrear contra outro, será que não vai sentar-se primeiro e examinar bem, se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? Se ele vê que não pode, envia mensageiros para negociar as condições de paz, enquanto o outro rei ainda está longe” [Lc 14,31-32].

 

Mas, na realidade, não é de todo verdade que, uma vez mergulhados na guerra, o melhor seja vencê-la. Se hoje celebramos a vitória de 25 de abril [festa da Liberação da Itália], é porque havíamos perdido a guerra, e havia sido uma sorte, com os alemães em casa! Quem hoje lamenta não ter vencido aquela guerra? Nem mesmo os fascistas. Outros horrores teriam se somado aos horrores. E não teríamos a Constituição, a liberdade, a indústria, o dinheiro, todas as coisas das quais hoje nos gloriamos.

 

No entanto, estamos sempre lá. O secretário de Estado estadunidense, Antony Blinken, e o chefe do Pentágono, Lloyd Austin, na sua fugaz visita a Kiev há alguns dias, prometeram à Ucrânia de Zelensky que a fariam vencer a guerra, o que, aliás, significa que serão os Estados Unidos quem a vencerão. A mesma coisa havia sido prometido alguns dias antes pelo presidente Biden em um tuíte (que são as novas declarações de guerra que uma vez eram entregues aos embaixadores), enumerando as armas e o dinheiro que os Estados Unidos forneceriam à Ucrânia, enquanto Lloyd Austin acrescentou que era preciso enfraquecer a Rússia de modo que ela não possa mais fazer nenhuma guerra. Mais vitória do que isso...!

 

Naturalmente, Putin também quer vencer, ainda mais agora que lhe disseram de todos os modos que o que está em jogo não é apenas a sua sobrevivência, mas também a da própria Rússia; porém, ele não sabe como fazer isso, porque certamente não basta, como ele pediu ao ministro da Defesa, Shoigu, que nem mesmo uma mosca sobrevoe a siderúrgica Azovstal (o que não parece uma metáfora para uma vitória).

 

E acima de tudo Zelensky quer vencer, bem contente agora que as armas, como ele disse, chegam “em tempo real”, ou seja, imediatamente e quantas ele quiser.

 

Mas a Ucrânia já pagou um alto preço pelo mito da vitória, esse espectro que vem do reino dos mortos, dos Estados Unidos atravessa o Atlântico, de Ramstein paira sobre a Europa e ameaça o mundo a partir da pilha de cadáveres na qual ele sobe na Ucrânia. Já tinha sido uma ruína para o país o fato de ter insistido obstinadamente em querer a Otan, apesar de haver bem mais de 20 mil russos pressionando a fronteira do país (e encorajados por Biden a nela entrar, sabe-se lá por qual desígnio inconfesso, como defendem Caracciolo e a Limes).

 

Mas a catástrofe veio para a Ucrânia quando ela começou a acreditar que realmente poderia vencer a guerra com todos os encorajamentos e o altruísmo suspeito do Ocidente, com todos os tipos de ajuda, política, militar, econômica, sacral, com o seu dilacerado povo narrado como um exército, e também com o estereótipo das mulheres que acodem e levam a salvo as crianças, enquanto os homens ficam ou são mandados de volta para combater, e mais de cinco milhões de refugiados, e enquanto cidades bombardeadas e destruídas, com a fama de invictos em todas as telas de televisão e em muitos parlamentos do mundo, incluindo o italiano.

 

Na realidade, neste ponto da história, depois de todos os erros cometidos de ambos os lados, a vitória, seja ela de quem for, é o pior desastre que pode ocorrer. Como diz o papa, que vitória há sobre os escombros? E Noam Chomsky, na entrevista ao Truthout, na qual lhe perguntam se estamos no início de uma nova era de confronto contínuo entre a Rússia e o Ocidente, responde que é difícil saber onde vão cair as cinzas, “e isso pode não ser uma metáfora”.

 

De fato, segundo Chomsky, “goste-se ou não, as opções agora se reduzem ou a um péssimo resultado que premia ao invés de punir Putin pelo ato de agressão, ou à forte possibilidade de uma guerra terminal”. E isso, segundo Chomsky, seria “uma sentença de morte para a espécie, sem nenhum vencedor. Estamos em um ponto crucial na história da humanidade. Não se pode negar. Não se pode ignorar”.

 

“Sem nenhum vencedor”: porque o que seria uma vitória para os Estados Unidos, a Otan e a Europa, se ela realmente consistisse em acender o pavio da terceira guerra mundial, colocando a Rússia para fora do jogo, provocando a China e prospectando para a humanidade inteira um mundo composto apenas pelo Ocidente?

 

E o que seria uma vitória para a Rússia, que fosse além da reivindicação inicial de uma interdição da ameaça proveniente do Oeste, se isso significasse tornar-se um anátema das nações, ser condenada à negação genocida da sua própria existência, que se trate do rublo, do povo ou do “Lago dos Cisnes”?

 

E o que seria uma vitória para a Ucrânia, mesmo que recuperasse a Crimeia e o Donbass, se permanecesse sempre lá, servindo de barreira do Ocidente contra a Rússia que, com ou sem Putin, certamente não desapareceria e seria mesmo assim uma grande potência ávida de revanche, enquanto a Ucrânia ainda estaria lá, glória, sim, do mundo livre, mas a sua primeira vítima no Monte Moriá? E o Oscar vai para o ator principal!

 

Nessa situação, é totalmente irresponsável torcer pela vitória de um ou de outro, como quer que se queira chamar essa vitória, defesa da pátria ou dominação do mundo; e é uma insensata cumplicidade querer estar no campo dos vencedores. A verdadeira sabedoria é a busca de uma alternativa à vitória para pôr fim à guerra.

 

Tal alternativa está no diálogo, na negociação, em reconhecer as razões uns dos outros, em “trocar de lugar com o outro”, em saber que a segurança do outro é também a própria segurança, porque a segurança não consiste em um “status”, mas em uma relação, ou é de todos ou não é de ninguém, como a sabedoria da ONU já havia percebido.

 

Entre os escombros desta guerra está a ilusão, ou a esperança, de que se possa construir uma nova ordem mundial, baseada não no poder, mas no direito, não na razão de Estado, mas nas razões dos povos, não na guerra vencidas, mas na guerra repudiada. Em todo o caso, sempre é possível recomeçar de novo. Como escreveu o político Pietro Ingrao em um de seus poemas, “levanta bem alto a derrota”.

 

O verdadeiro gérmen da vocação espiritual do Ocidente, tanto na versão grega quanto na cristã, como nos sugeriu Simone Weil, não é a glória dos vencedores, mas é o sentimento da miséria humana, que é uma condição da justiça e do amor: na Grécia, defende Weil, pelo trauma não reprimido do crime da destruição de Troia (a Ilíada!); na tradição cristã, porque nem mesmo um espírito divino pode escapar ao sofrimento da miséria humana se estiver unido à carne (os Evangelhos!), o que significa não se submeter à dominação da força, a rejeição de todas as relações de dominação. Como recordou o Papa Francisco ao celebrar a “resistência e entrega” da Páscoa, “com Deus pode-se sempre voltar a viver”.

 

 

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