COVID-19, desmundialização e rivalidade estratégica. Artigo de Xulio Ríos

Fonte: Pixabay

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13 Março 2020

“A crise da COVID-19 se soma ao elenco de divergências com a China, nos últimos tempos, alimentando desconfiança e rivalidade econômica e tecnológica, além de ideológicas, diplomáticas e militares. A mundialização pode tomar um rumo diferente e se desdobrar, também incorporar ajustes de vários tipos, mas o retorno à situação anterior não parece muito verossímil”, escreve Xulio Ríos, diretor do Observatório de Política Chinesa, em artigo publicado por Público, 10-03-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A crise do coronavírus está resultando em uma séria ameaça à economia mundial e coloca sobre a mesa a vulnerabilidade da mundialização, o paradigma de desenvolvimento dos últimos trinta anos. Não faltam pessoas que apontem para a necessidade de repensar as estratégias de produção e, acima de tudo, reduzir a dependência da “fábrica do mundo”. Nesse sentido, a COVID-19 vem alimentar a ideia de alguns setores que defendem a desconexão entre as economias capitalistas do Ocidente e da China.

Desde os anos 1980, a China tem progressivamente conquistado um lugar relevante nas cadeias produtivas globais. Isso resultou da política denguista de abertura para o exterior, da flexível legislação interna e do afã crematista das grandes multinacionais ocidentais que tiravam vantagem dos baixos salários e da abundante mão de obra. Esses fatores tiveram a melhor vida na China. A mão de obra tende a se tornar escassa, os salários sobem, a legislação interna se reforça e a China agora quer ser o grande centro tecnológico mundial. O que não muda é a abertura. Ao contrário.

Por outro lado, no atual contexto, não podemos nos queixar que as autoridades chinesas postergaram a saúde de sua população, frente aos imperativos econômicos imediatos. Talvez alguém preferiria outra ordem de prioridades. Durante muito tempo se criticou o “capitalismo selvagem”, que em forma de enormes sacrifícios, permitiu o acelerado processo de acumulação chinesa que a catapultou para a condição de segunda economia do mundo.

Paradoxalmente, aqui, invoca-se o “impacto” para desaconselhar certas medidas draconianas como as tomadas na China, para acabar com a epidemia. Lá parece ter funcionado, embora a fatura não será pequena. É sempre mais fácil fechar escolas do que fábricas. Aqui, veremos o que acontece e qual é a fatura final do caminho escolhido. Sendo assim: paciência, compreensão e solidariedade, pouca.

O processo de deslocalização que as economias ocidentais, em seu momento, viveram a favor da China (e de outros países), é vivido pela própria China, há alguns anos, a favor de Bangladesh, Vietnã, Mianmar e Camboja, para citar alguns casos. A COVID-19 pode acelerá-lo. A fuga de empresas estrangeiras teria nesse outro motivo adicional, além da guerra comercial e os crescentes custos trabalhistas. Mesmo assim, o risco de desorganização que a fragmentação do processo de produção acarreta em todo o mundo não é totalmente evitável e também não pode se consumar da noite para o dia.

Hoje é um vírus, amanhã é um terremoto, inundações, etc. O nível de exposição aumenta. Sem dúvida, o gigantismo da China confere a mesma uma posição dificilmente evitável e de maior peso, e por esse motivo não é tanto a desmundialização em si o que está em questão, mas a estocada ao modelo chinês dos últimos quinquênios. Para a China, tudo isso representa outro incentivo adicional para acelerar sua transição para o novo modelo de desenvolvimento e revela sua urgência.

O atraso no retorno ao trabalho como resultado do coronavírus afeta milhões de empresas em todo o mundo, não apenas as estabelecidas na China. Limitar a dependência da China é uma tentação lógica neste contexto. Algumas multinacionais estadunidenses e europeias ponderam diversificar suas operações e retirar as cadeias de suprimentos da China. Contudo, as mesmas empresas podem encontrar na resposta de Pequim a esta crise um exemplo inimitável em qualquer outro país. E também sabem que as pilhas serão colocadas como em nenhum outro lugar. Essa garantia pode não ser suficiente, mas logo veremos como se administra, aqui, uma situação semelhante. E o que dura. E quanto custa.

A crise da COVID-19 se soma ao elenco de divergências com a China, nos últimos tempos, alimentando desconfiança e rivalidade econômica e tecnológica, além de ideológicas, diplomáticas e militares. A mundialização pode tomar um rumo diferente e se desdobrar, também incorporar ajustes de vários tipos, mas o retorno à situação anterior não parece muito verossímil. Não obstante, se diante da lógica da cooperação internacional, que deveria ser primada nesta crise, antepõe-se o imperativo de conveniência da rivalidade estratégica para tirar vantagem, poderíamos nos encontrar diante de um impulso substancial à desconexão que alguns desejam como talismã para preservar a hegemonia do mundo ocidental, em geral, e dos Estados Unidos em particular.

A questão é se essa desconexão que alguns tanto preconizam para jugular a emergência chinesa, simplesmente os deixa para trás. Entre outros, porque a China é quem mais tira proveito do crescimento da economia mundial. E, apesar da COVID-19, tudo indica que continuará fazendo.

 

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