26 Mai 2026
O Papa Leão XIV fez um pedido de desculpas histórico na segunda-feira pelo papel que a Santa Sé desempenhou na legitimação da escravidão e por não a ter condenado durante séculos, chamando o histórico do Vaticano de "ferida na memória cristã".
A reportagem é de Paolo Santalucia e Nicole Winfield, publicada por National Catholic Reporter, 25-05-2026.
Papas anteriores pediram desculpas pelo envolvimento de cristãos no comércio transatlântico de escravos. Mas nenhum papa jamais reconheceu publicamente, muito menos pediu desculpas, pelo papel que os próprios papas do passado desempenharam ao conceder aos soberanos europeus autoridade explícita para subjugar e escravizar "infiéis".
O primeiro papa nascido nos EUA, cuja história familiar inclui tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos, apresentou o pedido de desculpas em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas ("Magnífica Humanidade"), que foi divulgada na segunda-feira.
O abrangente manifesto trata da proteção da humanidade em uma era de crescente dependência da inteligência artificial. Leão mencionou o tráfico transatlântico de escravos em relação ao que ele chamou de novas formas de escravidão e colonialismo que a revolução digital está alimentando, como o trabalho não regulamentado necessário para a obtenção de minerais raros indispensáveis para chips de IA.
Ao fazer isso, Leão XIV respondeu a décadas de apelos de católicos afro-americanos, ativistas e acadêmicos para que a Santa Sé se redimisse por seu próprio papel no comércio de seres humanos durante a era colonial.
"É impossível não sentir profunda tristeza ao contemplar o imenso sofrimento e a humilhação suportados por tantos, em nítido contraste com a sua imensurável dignidade como pessoas infinitamente amadas pelo Senhor", escreveu Leão XIV. "Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão."
Séculos de legitimação da escravidão para os colonizadores europeus
O Vaticano sempre insistiu que defendeu a dignidade de todos os seres humanos como filhos de Deus. No entanto, uma série de diretrizes do século XV, emitidas pelo Vaticano, autorizaram os soberanos portugueses a conquistar a África e as Américas e a escravizar os não-cristãos.
Em 1452, por exemplo, o Papa Nicolau V emitiu a bula papal Dum Diversas, que concedia ao rei português e aos seus sucessores o direito de "invadir, conquistar, combater e subjugar" e tomar todas as posses — incluindo terras — de "sarracenos, pagãos e outros infiéis, e inimigos do nome de Cristo" em qualquer lugar.
A bula também concedeu aos portugueses permissão "para reduzir as suas pessoas à escravidão perpétua".
Essa bula e outra emitida três anos depois, Romanus Pontifex, formaram a base da Doutrina da Descoberta, a teoria que legitimou a apropriação de terras na África e nas Américas durante a era colonial.
As permissões concedidas por Nicolau V aos portugueses foram confirmadas ou renovadas pelo Papa Calisto III em 1456, pelo Papa Sisto IV em 1481 e pelo Papa Leão X em 1514, de acordo com o Rev. Christopher J. Kellerman, padre jesuíta e autor de "Toda Opressão Cessará: Uma História da Escravidão, do Abolicionismo e da Igreja Católica".
Os reis espanhóis receberam os direitos sobre as Américas.
Em 2023, o Vaticano repudiou formalmente a Doutrina da Descoberta, mas nunca revogou, anulou ou rejeitou formalmente as próprias bulas. O Vaticano insiste que uma bula posterior, Sublimis Deus, de 1537, reafirmou que os povos indígenas não deveriam ser privados de sua liberdade ou da posse de seus bens, e que não deveriam ser escravizados.
Santa Sé demorou a condenar a escravidão, diz Leão XIII
Em sua encíclica, Leão XIV lembrou que seu homônimo, o Papa Leão XIII, foi o primeiro papa a condenar explicitamente a escravidão em 1888, embora isso tenha ocorrido muito tempo depois de muitos países já a terem abolido. Antes disso, na Antiguidade e na Idade Média, até mesmo instituições da Igreja tinham escravos.
Ao reconhecer o próprio papel da Santa Sé e as bulas papais do século XV, Leão XIII escreveu em sua encíclica: "Já no início da Idade Moderna, a Sé Apostólica de Roma, respondendo aos pedidos dos soberanos, interveio diversas vezes para regular e legitimar formas de subjugação e, em certos casos, inclusive a escravização de 'infiéis'."
Leão disse que não era possível julgar a moralidade das decisões com os padrões atuais.
"No entanto, também não podemos negar ou minimizar a demora com que tanto a sociedade quanto a igreja vieram a denunciar o flagelo da escravidão", disse ele.
O papa afirmou que a Igreja há muito tempo afirma a dignidade de todo ser humano como base de sua doutrina, "mesmo que tenha levado dezoito séculos para que sua plena incompatibilidade com a escravidão fosse explicitamente reconhecida".
"Isso constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar dissociados", disse ele.
Leão afirmou que a Igreja hoje deve condenar firmemente todas as formas de tráfico relacionadas à revolução tecnológica digital "se quisermos evitar a necessidade de pedir perdão novamente no futuro por termos falhado em respeitar o tesouro da dignidade humana que é exigido por nossa fé".
A história da família de Leão e seus pedidos de desculpas anteriores
Durante uma visita a Camarões em 1985, São João Paulo II pediu perdão aos africanos pelo tráfico de escravos em nome dos cristãos que participaram dele, mas não pelo papel dos próprios papas. Em uma visita à Ilha de Gorée, no Senegal, em 1992, que era o maior centro de tráfico de escravos da África Ocidental, ele denunciou a injustiça da escravidão e a chamou de "tragédia de uma civilização que se dizia cristã".
De acordo com uma pesquisa genealógica publicada por Henry Louis Gates Jr., 17 dos ancestrais americanos de Leão eram negros, listados nos registros do censo como mulatos, negros, crioulos ou pessoas livres de cor. Sua árvore genealógica inclui proprietários de escravos e pessoas escravizadas, escreveu Gates no The New York Times.
Durante uma visita a Angola no mês passado, Leão rezou num santuário católico localizado no sítio de um importante centro do tráfico de escravos africanos durante o domínio colonial português. No Santuário de Mamma Muxima, Leão recordou a "dor e o grande sofrimento" que os angolanos suportaram durante séculos, mas não se referiu especificamente à escravatura.
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