Gaza e paz: o novo papa terá que começar daí. Artigo de Raniero La Valle

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07 Mai 2025

"O Papa Francisco não estava dirigindo uma agência humanitária, ele estava revelando uma nova proximidade de Deus. Os pós-teístas não tinham chegado a isso, tinham descoberto que, com a modernidade, Deus não pode ser pensado nos altos céus: mas por que, acaso estava lá antes? Francisco explicou e mostrou, com sua vida e morte, que em vez de declará-lo perdido, é uma questão de encontrá-lo em outro lugar", escreve Raniero La Valle, jornalista, ex-senador italiano, publicado por Il Fatto Quotidiano, 06-05-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Se no próximo Conclave os eleitores do papa virarem a cabeça para o outro lado, qualquer cardeal cujo nome tenha sido mencionado nos últimos dias poderá ser eleito. Mas se eles olharem para a situação do mundo, mais do que um cardeal, terão de eleger uma Igreja que expresse um Papa capaz de enfrentar as gravíssimas crises que estão abalando a Igreja e o mundo hoje.

Há duas crises que desafiam mais seriamente o Evangelho hoje. A primeira é a de Gaza, onde o genocídio em curso inflige à história que estamos vivendo o vulnus de uma crueldade e de uma violência que não pensávamos ser possível hoje, enquanto, de acordo com a palavra culminante de Jesus à mulher samaritana, “a salvação vem dos judeus” (Evangelho de João). Essa palavra está sendo desmentida hoje não apenas em relação aos palestinos e, provavelmente, aos próprios judeus de Israel, mas à própria paz do mundo. Além disso, a tragédia de Gaza também ameaça dominar a história futura, na qual, de acordo com a promessa, a recomposição de toda a família humana deveria acontecer, quando “todo o Israel será salvo” (Carta aos Romanos).

Em vez disso, esse deveria ser “o tempo favorável”, o kairòs do tempo de agora. A Igreja, portanto, entendida no sentido mais amplo atribuído a ela pelo Papa Francisco como “povo de Deus”, não pode deixar de assumir essa contradição e não a considerar prioritária, mesmo em relação a expectativas e reformas, ainda que necessárias, na vida atual e no desenvolvimento da estrutura eclesial. É por isso que as Igrejas, não só a Católica Romana, mas também as outras que estão vivendo a tragédia do Oriente Próximo e de Gaza, estão particularmente envolvidas nas escolhas deste Conclave.

A segunda crise que mais seriamente questiona não apenas o Evangelho, mas toda a profecia bíblica, é a inversão do mandato de Jesus de instituir (e preparar) a paz, “não como o mundo a dá”. De acordo com Isaías, a paz não como o mundo a dá consistiria em não mais aprender a arte da guerra (ou seja, “desaprendê-la”) e transformar espadas em arados e lanças em foices. Ao longo da história tem acontecido o contrário (“se você quer paz, prepara a guerra”), mas hoje as proporções dessa inversão são sem precedentes, não só pelo volume do mercado de armas e pela transformação em armas dos principais meios de produção (e agora também das “terras raras”), mas também aqui em nosso país pela vontade política explícita e obstinada da Europa de abandonar sua dedicação momentânea à paz e construir um exército no valor de pelo menos 800 bilhões de dólares, ao mesmo tempo em que alimenta e perpetua a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Aqui, as Igrejas envolvidas são as Igrejas europeias, as ortodoxas, agora mais divididas do que nunca, e a Igreja Católica, de modo que a dimensão ecumênica do problema se adiciona à dimensão diplomática e política; e aqui deveriam ser particularmente chamadas em causa as Igrejas na Europa, que têm uma tradição mais avançada não de gélida neutralidade, mas de profecia da paz.

É possível ativar essas dinâmicas de alcance excepcional, contra a tentação de cair no hábito e no óbvio após o carismático ministério do Papa Francisco? A sociedade e a ética pública poderão acompanhar essa “nova criação”, apesar do pensamento único dominante, contra o senso comum laico que regula a comunicação social? Com certeza, é um desafio à secularização. Mas será que é realmente tão concretizada?

A extensão do consenso que se manifestou por ocasião do funeral do Papa Francisco, mas que era tangível mesmo antes, mostra que o afastamento da fé não é tão generalizado quanto se acredita, não é substituído, na melhor das hipóteses, por uma genérica espiritualidade; e até mesmo a insinceridade do luto de muitos líderes, tão enfatizada, talvez não fosse tão difundida: se todos fossem realmente tão falsos e maus, não haveria nada a esperar, porque ainda são esses poderosos, ou aqueles que conseguimos colocar em seu lugar, que devem mudar o curso das coisas.

E o ideal social proposto pelo Papa Francisco é realmente tão inatingível? Ele propunha coisas simples e familiares a todos, paz, piedade, socorro no mar, prisões mais humanas, lembrar dos idosos, não bombardear as crianças: quem realmente não poderia querer isso? E também a misericórdia de Deus, o inferno vazio: quem não gostaria disso?

O Papa Francisco não estava dirigindo uma agência humanitária, ele estava revelando uma nova proximidade de Deus. Os pós-teístas não tinham chegado a isso, tinham descoberto que, com a modernidade, Deus não pode ser pensado nos altos céus: mas por que, acaso estava lá antes? Francisco explicou e mostrou, com sua vida e morte, que em vez de declará-lo perdido, é uma questão de encontrá-lo em outro lugar: metateístas, um mais de Deus, não pós-teístas, um Deus que existia e agora não existe mais. 

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