08 Novembro 2024
Fim dos acordos ambientais, lei contra a imigração, ataque às minorias sexuais... Donald Trump, agora mais experiente, arrisca-se a tomar medidas “radicais”, diz Romain Huret, historiador dos Estados Unidos.
A entrevista é de Marie Astier, publicada por Reporterre, 07-11-2024. A tradução é do Cepat.
Donald Trump será presidente dos Estados Unidos pela segunda vez em janeiro próximo. Ele aprendeu com o seu primeiro mandato e corre o risco de seguir políticas mais radicais do que durante o seu primeiro mandato e ainda mais destrutivas para o ambiente e os direitos das minorias, analisa Romain Huret, historiador especializado nos Estados Unidos na EHESS.
Eis a entrevista
A reeleição de Donald Trump é uma surpresa?
Não para mim. Há um bom tempo que venho dizendo, desde 2016, que o trumpismo deve ser levado a sério. Mesmo que seja muito difícil compreender isso e compreender a escolha dos estadunidenses. É um movimento que tem raízes muito antigas na história dos Estados Unidos e que se consolidou e cristalizou em conexão com as evoluções mais recentes na sociedade americana. A crise da classe média, o aumento das desigualdades, as consequências da globalização têm sido um acelerador mais recente. Tudo isto explica esta nova vitória de Donald Trump.
O que esta eleição diz sobre a democracia estadunidense?
A eleição correu bastante bem. Falo sujeito a futuras evoluções, mas havia receios de cenários apocalípticos de fraude, de ataques a locais de votação, etc. Podemos nos alegrar pelo fato de o funcionamento normal da democracia ter corrido bem, independente do resultado. Achei muito interessante a forma como os meios de comunicação social recordaram estes procedimentos eleitorais, a importância dos assessores, para evitar qualquer discurso conspiratório. Este é o primeiro ponto.
O segundo ponto é que a reeleição de Donald Trump escancara a crise social e política que este país atravessa. Trump é a resposta, para uma parte dos estadunidenses, a esta crise social e política. Muitos o veem como um salvador. Eles acham que vai tirá-los do que vejo como uma crise da classe média que está se enraizando no país e que não encontrou resposta com Joe Biden.
Que consequências ambientais podemos antecipar com esta reeleição?
Elas são muito preocupantes. Trump é um cético do clima, ele terá céticos do clima ao seu redor. A retórica cética em relação ao clima tornar-se-á comum, assim como Trump já faz no seu discurso ao acreditar que o aquecimento global é uma invenção de cientistas sem notoriedade. Podemos, sem dúvida, esperar que os Estados Unidos abandonarão todos os acordos ambientais, que a exploração intensiva de matérias-primas se acelerará nos Estados Unidos, que o fracking [fraturamento hidráulico] será retomado com força, como aconteceu durante o seu primeiro mandato. Podemos também recear que a parte da pesquisa pública e do financiamento público dedicado à questão ambiental, que é significativo nos Estados Unidos, enfrente dificuldades reais nos próximos anos.
Este tema deixará de ser uma prioridade, como é hoje, nas principais agências de financiamento de pesquisa, especialmente na National Science Foundation, que dá muita ênfase aos programas de pesquisa sobre ambiente e clima. Há uma boa probabilidade de que este financiamento público seja interrompido. Portanto, estas são realmente más notícias para o clima e o ambiente na Terra.
Donald Trump já esteve no poder. O que nos deixa pressagiar para este segundo mandato?
Ele tem experiência do poder. Observa-se que ele pensou mais na dimensão concreta do exercício do poder. Como implementar políticas mais radicais e mais rapidamente. Podemos sentir uma maior radicalidade nas medidas que serão tomadas. Se levarmos isso a sério, observamos que na política interna há elementos recorrentes. Ele disse claramente que quer restaurar os direitos alfandegários e torná-los o pilar da política fiscal nos Estados Unidos, como era há 250 anos. Esta é uma escolha importante em termos de política fiscal, em parte injusta, uma vez que as classes trabalhadoras também pagam.
Ele também anunciou uma grande lei sobre a imigração com medidas muito mais precisas e preocupantes do que poderia ser o famoso muro de 2016 que ele queria construir para impedir a entrada de migrantes. Ele tem um projeto de expulsões em massa de migrantes ilegais com a requisição das forças da ordem, o confinamento em campos, seguida da expulsão.
Um terceiro ponto anunciado é uma redução significativa do papel do Estado. Uma missão que ele confiará a Elon Musk [empresário bilionário]. Isto será um desastre, pois sabemos que a Agência Ambiental dos Estados Unidos desempenha um papel importante na gestão dos parques naturais, por exemplo.
Finalmente, Trump tem a ambição de atacar a jurisprudência que remonta à década de 1960 em questões de direitos das minorias. Podemos perfeitamente imaginar que ele amadureceu o seu plano de nomear juízes para o Supremo Tribunal – mas também para outros tribunais – para limitar, ou mesmo reverter, o que tem sido uma forte tendência no direito dos Estados Unidos: a proteção das minorias sexuais e étnicas. Já vimos isso com o aborto, mas o casamento homossexual, os direitos das pessoas transgêneras, todas estas medidas correm o risco de estar na mira dos juízes que Trump não deixará de nomear assim que tiver a oportunidade.
Ele quer atacar o que chama de deep state, este “Estado profundo” que atrasou as suas reformas durante o seu primeiro mandato, que o impediu de transformar a América e trazê-la de volta a esta era de ouro sem Estado.
Desde o último mandato de Donald Trump, a conjuntura internacional mudou. Ela é mais favorável a Trump?
A capacidade de ação de Donald Trump é colossal. Ele terá de decidir muito rapidamente a questão da ajuda à Ucrânia. Ele deixou claro que queria que essa ajuda acabasse. Ele também deixou bem claro que apoiava Israel. Tem um poder de dano muito maior do que em 2016 devido à multiplicação de zonas de conflito no mundo.
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