Unidade ecumênica sobre a eucaristia: uma pregação quaresmal do cardeal Cantalamessa. Artigo de Andrea Grillo

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04 Abril 2022

 

As três diferentes tradições sobre a eucaristia – católica, ortodoxa e protestante –, cada uma com as suas particularidades, podem ser decisivas para recuperar o perfil unitário e a riqueza original da tradição eucarística.

 

O comentário é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em artigo publicado em Come Se Non, 02-03-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto

 

Eis o texto.

 

Na quarta meditação de Quaresma, proferida pelo cardeal Raniero Cantalamessa para a Cúria Romana, e que pode ser assistida no vídeo abaixo [em italiano], foi proposta uma leitura sintética, muito clássica, da tradição eucarística, mas que se caracterizou por uma intenção admirável: ou seja, pelo fato de ter assumido o propósito de reconciliar em profundidade aquelas grandes diferenças de tom e de linguagem que as três tradições cristãs (católica, ortodoxa e protestante) viveram muitas vezes como lugar e motivo de divisão, de excomunhão e de conflito, e não como uma riqueza recíproca e uma experiência diversificada da mesma fé.

 

 

A leitura proposta pelo Pe. Cantalamessa, com base na sua comprovada competência patrística, parecia guiada por um objetivo seguro: demonstrar que as três diferentes tradições sobre a eucaristia, cada uma com as suas particularidades, podem ser decisivas para recuperar o perfil unitário e a riqueza original da tradição eucarística.

 

Acredito que deve ser valorizada a intenção geral que guiou a reflexão: apontar para as diferenças como “riqueza na comunhão”, e não como “ameaça da comunhão”. Isso parece ser mais importante pelo fato de o trabalho de harmonização das diferentes tradições, que o Pe. Cantalamessa elaborou, se mostrar baseado em uma exposição sistemática dos temas orientada por uma abordagem totalmente clássica. Ou, melhor, parece-me que precisamente nesse nível a síntese oferecida pela tradição latina se limitou a uma análise das “fontes” (Ambrósio, Agostinho, São Tomás e Trento) que ressoava decisivamente oficial, permanecendo dentro de uma “mens” que poderíamos definir como típica da dogmática tridentina, à luz da qual os Padres e os Escolásticos também eram submetidos a uma interpretação substancialmente convencional.

 

Mas isso não impediu que o teólogo chegasse a uma conclusão surpreendente, quando sugeriu, no fim da apresentação da tradição católica, que se fale de “presença eucarística”, antes de “presença real”.

 

A isso foi acrescentada uma leitura iluminada tanto da tradição ortodoxa, que valoriza a referência ao Espírito Santo, quanto da protestante, que recupera o valor central da fé. A síntese proposta permite a recuperação de uma unidade substancial e profunda das três tradições, que repensam, cada uma na relação com as outras duas, aquilo que nelas aparece menos marcado e às vezes quase posto em segundo plano.

 

O resultado da bela pregação, realizada com pacata elegância diante do Papa Francisco e da Cúria, é ainda mais relevante se considerarmos que o pregador renunciou quase totalmente a uma elaboração sistemática da tradição eucarística.

 

É claro que ele quis enfatizar uma “mens de comunhão”, o que parece ser decisivo. E assim soube, aqui e ali, orientar sabiamente a leitura dos Padres e dos Escolásticos para resultados não conflituosos e não apenas doutrinais.

 

Porém, se tomássemos algumas passagens decisivas do discurso e as submetêssemos à análise que a tradição teológica mais recente ofereceu a temas comores, “sinal”, “símbolo”, “forma” ou “celebração”, poderíamos ver ainda mais enriquecido o grande trabalho de aproximação e de reconciliação que o Pe. Cantalamessa ofereceu no seu audaz discurso.

 

Algumas distinções, que parecem ser decisivas na pregação, talvez sejam mais o fruto das divisões do último milênio do que o verdadeiro objeto de uma experiência eclesial. A mesma distinção entre “realidade” e “símbolo”, que orientou de modo tão decisivo o discurso do pregador, talvez exigisse uma reformulação menos clássica e mais ousada.

 

Mas Raniero Cantalamessa foi mais audaz nas conclusões do que nas argumentações. Porém, precisamente o horizonte de reconciliação, que o teólogo soube desvendar de modo tão forte, merece uma apreciação sincera. Mesmo que, precisamente para perseguir tal objetivo, a teologia católica será inevitavelmente chamada a renunciar a algumas distinções rígidas demais e a introduzir outras distinções e outras atenções mais delicadas e mais verdadeiras.

 

Somente renovando as categorias sistemáticas que estruturaram o saber teológico medieval e moderno, e que ainda pesam na nossa linguagem e no nosso pensamento, na nossa práxis e na nossa teologia é que poderemos caminhar de modo firme, seguro e eficaz no caminho da comunhão eucarística com as outras confissões cristãs, na direção indicada com justa profecia pelas intensas palavras pronunciadas por Raniero Cantalamessa na sua pregação quaresmal.

 

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