“Os revolucionários não fazem revoluções, os reformistas não reformam, e a extrema-direita está crescendo”. Entrevista com Pablo Stefanoni

Foto: Wikimedia Commons

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03 Setembro 2026

No último fim de semana, aconteceu em Montevidéu o III Congresso Pan-Americano, evento que, desde 2024, reúne legisladores de partidos de todo o continente que se definem como de esquerda ou progressistas. Líderes políticos de 15 países desembarcaram no Uruguai, incluindo dois ex-presidentes, Gabriel Boric, do Chile, e Ernesto Samper, da Colômbia. Yamandú Orsi abriu o congresso na sexta-feira.

A reportagem-entrevista é de Daniel Gatti, publicada por Brecha, 28-08-2026. A tradução é do Cepat.

Pablo Stefanoni não esteve no congresso propriamente dito, mas apresentou aqui a nova edição da revista da qual é o chefe de redação, Nueva Sociedad. Publicada bimestralmente desde 1972, a revista acaba de reformular seu desenho gráfico e dedica o número à tentativa de definir “onde está a esquerda”. Durante uma palestra na última quinta-feira na Huella de Seregni, onde dividiu a mesa com Boric e a senadora da Frente Ampla, Constanza Moreira, o argentino saiu-se com uma fórmula engenhosa: se o objetivo é examinar a esquerda, disse, o único ponto de consenso é que “nem a esquerda revolucionária está fazendo revoluções, nem a esquerda reformista está fazendo reformas”. E acrescentou: “E, enquanto isso, a extrema-direita está crescendo”.

(Houve alguns momentos curiosos no fórum de Montevidéu na quinta-feira: Boric, que havia recapturado o espírito quase juvenil e rebelde das mobilizações estudantis chilenas do final da década de 1990 e deixado de lado a formalidade que o caracterizou durante sua presidência, sentiu-se autorizado a pedir às forças progressistas que abandonassem seu “fanatismo em prol da moderação”. “No fim, isso não leva a lugar nenhum”, acrescentou, sem apresentar suas observações como autocrítica. Soou estranho, mas arrancou aplausos de uma plateia composta em grande parte por participantes do congresso progressista. Também houve aplausos para Constanza Moreira quando ela pediu às pessoas que não se esquecessem do “pequeno Uruguai” que neste sul longínquo “resiste”. É difícil compreender a natureza dessa resistência. Era uma plateia cativa.)

Mas é justamente o outro lado da paralisia da esquerda que Stefanoni tem explorado ultimamente. Primeiro, com A rebeldia tornou-se de direita? (Editora da Unicamp, 2022), livro publicado em 2021 que já esgotou várias edições, e depois, em maio passado, com Un fantasma recorre el mundo: cómo funciona la máquina de guerra reaccionaria (y qué podemos hacer para enfrentarla), publicado pela Siglo XXI, o historiador e jornalista mergulhou no estudo da ascensão da extrema-direita em todo o mundo. É um fenômeno que, segundo ele, “é claro que não pode ser explicado sem analisar o que a esquerda fez ou deixou de fazer para permitir esse crescimento”. Essas forças, em muitos casos, se estabeleceram nos territórios – tanto físicos quanto simbólicos ou discursivos – deixados vagos ou abandonados pelo progressismo.

Esses palhaços

Quando Stefanoni começou a escrever A rebelião…?, durante a pandemia, várias das figuras que mais tarde personificariam o que alguns chamaram de onda marrom eram consideradas pouco mais do que bufões grosseiros, sem qualquer chance de consolidar seu poder. Seus partidos, e outros de índole semelhante, embora claramente em crescimento, estavam longe de seu estado saudável atual. “Alguns se perguntavam se eu não estava exagerando. Eu mesmo me perguntava. Javier Milei ainda não havia surgido na Argentina. Alguém como o obscuro pensador da reestruturação das democracias, Curtis Yarvin, não passava de um excêntrico marginal. Hoje, ambos são bem-sucedidos. Este segundo livro pode ser lido, nesse sentido, como uma continuação do primeiro, agora com muitos desses tipos, que talvez não tenham deixado, de certa forma, de ser palhaços, entrincheirados no poder e convergindo na prática, apesar de todas as diferenças que os separam”.

O desenvolvimento mais significativo entre 2021 e 2026, diz Stefanoni à Brecha, é que em grande parte do mundo ocidental essas forças suplantaram as da direita tradicional. Elas as ultrapassaram e subordinaram: “Agora fazem parte do panorama político institucional de uma forma nunca vista desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não são mais uma anomalia do sistema: são parte integrante dele. Considerá-las uma moda passageira seria um erro, porque mesmo que sejam afastadas do poder ou nunca o alcancem, elas têm um peso considerável, como é o caso no Brasil com o movimento de Bolsonaro ou na França com Marine Le Pen. Elas alteraram permanentemente as fronteiras da política”.

Quando afirma que existe “um espectro ronda o mundo” para descrever essa “neorreação”, o argentino diz que o faz, em parte, para explicar a força atual do fenômeno e, em parte, para evocar a famosa frase de abertura do Manifesto do Partido Comunista: “A extrema-direita de que estamos falando, toda ela, de Donald Trump a Javier Milei, de Jair Bolsonaro a Abelardo de la Espriella, do Vox ou Isabel Díaz Ayuso a José Antonio Kast, de Giorgia Meloni a Marine Le Pen, e também tecno-oligarcas como Peter Thiel ou Elon Musk ou pensadores como Curtis Yarvin, confronta um comunismo espectral, como se ainda estivéssemos na Guerra Fria”.

A inundação

Stefanoni acredita que existe, de fato, uma “máquina de guerra” ideológica desses grupos de extrema-direita. “Eles têm fundações, veículos de comunicação, instituições; influenciadores os disseminam, magnatas da tecnologia os financiam, mas não há um manipulador puxando os fios, um vilão apertando botões ou uma estrutura central. Talvez seja ainda pior: existe uma espécie de ecossistema em funcionamento que se reproduz em quase todos os lugares, um ecossistema descentralizado”, graças em grande parte à internet e às redes sociais.

É nesse espaço virtual, onde “as emoções prevalecem”, que o que Steve Bannon, o operador político de Trump, chamou de “inundar a região de merda” toma forma, generalizando xenofobia, racismo, fake news e antifeminismo (“não tanto o ódio a gays ou lésbicas, já que há gays e lésbicas na liderança desses grupos”, diz Stefanoni). “Não é que eles tenham um projeto político particularmente articulado. Eles são muito diferentes entre si. Basta ver o fato, por exemplo, de que no Parlamento Europeu não há apenas um grupo de extrema-direita, mas três. Alguns são mais estatistas; outros, mais puramente neoliberais; alguns querem se aproximar da direita tradicional; outros a rejeitam. Mas conseguiram transmitir a sensação de que funcionam como um rolo compressor coordenado”.

Os Estados Unidos – principalmente o governo Trump – atuam, na prática, como a personificação imperial da máquina de guerra ideológica desta galáxia para grande parte de seus atores – os latino-americanos sem exceção e alguns europeus –, mas é Israel que verdadeiramente os une. Isso inclui todos eles, até mesmo aqueles grupos que, há poucos anos, eram conhecidos por seu antissemitismo inabalável e que hoje se apresentam como defensores de um Estado “branqueado”, que consideram “a verdadeira retaguarda do Ocidente” contra os muçulmanos e imigrantes. “Não é possível entender a nova extrema-direita sem olhar para Israel”, destaca Stefanoni.

Israel como paradigma

O capítulo dedicado a Israel (“Israel über alles: o que significa o hipersionismo da direita?”) ocupa cerca de um terço de Um Espectro ronda o mundo. É um dos mais longos do livro. “No entanto, na maioria das entrevistas que concedi nas últimas semanas, esse é o tema sobre o qual menos me perguntaram”, disse Stefanoni à Brecha. Por quê? “Bem, é um tema que a direita evita e que divide profundamente o progressismo. Há um problema em muitos setores progressistas quando se trata de definir o que está acontecendo na Palestina como genocídio. Na Alemanha, isso chega a extremos: a grande maioria dos partidos, incluindo os Social-Democratas e os Verdes, está completamente alinhada com Israel, e o país construiu mecanismos para cancelar, censurar, reprimir e marginalizar a dissidência, mesmo quando ela vem de movimentos judaicos antissionistas que rejeitam a representação de Israel. É espantoso ver autoridades estatais alemãs – o próprio Estado alemão – punindo judeus por serem antissemitas quando protestam contra as atrocidades cometidas em seu nome”. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), um grande partido de extrema-direita em ascensão, isolado – embora cada vez menos, à medida que a realpolitik exige alianças – do resto do sistema político devido aos seus elementos abertamente neonazistas, participa, no entanto, do consenso construído em torno da defesa de Israel.

Stefanoni está a par das oscilações do governo uruguaio em relação a Israel, aos palestinos e a um genocídio que permanece implícito. “Não entendo, admite. Há interesses escusos envolvidos, medo? O que está acontecendo?”

Para a extrema-direita, o apoio a Israel é, acima de tudo, ideológico. “Para o conservadorismo nacional global, a pátria de Benjamin Netanyahu representa hoje um modelo de soberania étnica e também um laboratório de segurança. Eles a veem como vanguarda e garantia. O lugar do inimigo, que décadas atrás era ocupado pelos judeus como um elemento de dissolução da civilização ocidental, agora é ocupado pelo migrante, pelo muçulmano, pelo palestino e por aqueles que os defendem, que geralmente se situam à esquerda, mesmo que a esquerda, o progressismo, muitas vezes se retraia”.

O apoio a Israel também serve a essas forças para encobrir seu antissemitismo passado. “A extrema-direita é atualmente parte central de um aparato macarthista paradoxal que eles usam para punir, em nome do combate ao antissemitismo, é claro, os palestinos, mas também todo um movimento de resistência que inclui judeus que rejeitam o sionismo”.

Onde está o fascismo?

Stefanoni não se alinha com aqueles que atribuem características fascistas aos novos movimentos de direita: “Os pesquisadores que mais se dedicaram ao estudo do fascismo são os mais inflexíveis em negar esse caráter a esses movimentos, apesar de compartilharem algumas semelhanças, e é tentador fazê-lo porque simplifica as coisas e as traz para o âmbito do conhecido”. Há muitas diferenças em relação ao que aconteceu na década de 1930, afirma ele. “Aqueles eram movimentos de massa, geralmente armados, e tinham um projeto de transformação social, no sentido de que queriam construir uma espécie de novo homem fascista. Nada disso se vê agora”.

Mas no governo e na sociedade onde Stefanoni vê características de nazismo e fascismo, é em Israel. “A direita israelense é supremacista; defende e pratica a limpeza étnica; defende e pratica o extermínio, o genocídio, de uma população inteira. Além disso, faz isso descaradamente, de maneira planejada e até científica. Existe ali uma forma de apartheid, com um conjunto de leis para um segmento da população discriminado e destinado ao extermínio, e outro conjunto para um segmento privilegiado e escolhido”.

Stefanoni prossegue: “É curioso que um país construído sobre a memória do Holocausto proceda dessa maneira, mas isso só agrava a perversão: as vítimas de ontem se tornam os perpetradores de hoje. Os palestinos se tornaram vítimas das vítimas, desumanizados e animalizados da mesma forma que os regimes nazistas e fascistas desumanizaram e animalizaram os judeus. Quando se observa tudo o que é feito em Gaza ou nos territórios ocupados, é impressionante que ainda existam pessoas progressistas que falam de Israel como a única democracia no Oriente Médio. Isso nos leva a perguntar onde estão os limites. Quando se trata de definir campos, existe um limite”.

Fronteiras

“Socialistas sem complexos” é o título do adendo que conclui Um espectro ronda o mundo. Nele, Stefanoni discorre sobre a desolação ideológica que cerca a esquerda e os movimentos progressistas. Ela é ainda mais profunda do que no período posterior ao colapso do socialismo real, quando movimentos antiglobalização surgiam aqui e ali, os Fóruns Sociais Mundiais reuniam pessoas e movimentos, a beligerância era contida pela mobilização das sociedades e o movimento dos “indignados” se expandia. Hoje, “o autonomismo desapareceu, o populismo de esquerda se esgotou e a direita parece mais ‘leninista’ do que a esquerda”, aponta, aludindo a declarações de Steve Bannon que se define como “leninista” ou que invoca Antonio Gramsci, que agora é amplamente citado “não como referência para o comunismo italiano”, mas como “inspiração para teorias mais ou menos flexíveis sobre hegemonia”.

“Os tradicionais espaços de sociabilidade dentro da cultura de esquerda – comitês, centros culturais ou sindicais, publicações – desapareceram ou estão em declínio. A partir desses espaços, socialistas, comunistas e anarquistas projetaram novas formas de ver o mundo nas décadas anteriores, quando a classe forjava a identidade. Mas a classe não é mais o que costumava ser. Quais são esses espaços hoje? Onde estão? Nas redes sociais?”, pergunta-se durante a entrevista. “Não tenho ideia de como reconstruir a comunidade hoje. Os evangélicos são os que estão fazendo isso com sucesso, mas enfim”.

Nesse contexto, em que até mesmo “a rebeldia tornou-se de direita”, Stefanoni observa que a esquerda e o progressismo estão presos entre a nostalgia e um presentismo dominado pelo desejo de evitar conflitos e por um sentimento de resignação. A nostalgeo, segundo ele, leva alguns a insistirem em slogans vazios de significado e outros a ansiarem por instituições típicas de “um mundo baseado em regras” em um momento em que a ordem liberal do pós-guerra está à beira do colapso. Os presentistas, por sua vez, refugiam-se num wokismo bem-intencionada e socialmente consciente (“Será que [o wokismo] é simplesmente a única esquerda possível dentro da estrutura de um liberalismo em ruínas, mas que se recusa a desaparecer?”, pergunta o autor no adendo).

Para sair desse impasse, Stefanoni propõe, por um lado, retornar a algumas definições identitárias esquecidas: o socialismo, por exemplo. O problema, mais uma vez, é o que incluir nelas. “Socialismo democrático”, diz o argentino. E destaca sua atração pelos socialistas democráticos estadunidenses que veem o jovem prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, como um modelo. “Mamdani demonstrou que um certo tipo de wokismo e uma certa identidade de classe podem ser combinados”, disse à Brecha.

No livro, Stefanoni escreve: “O discurso de Mamdani enfatizou questões sociais como as desigualdades urbanas (e o acesso à moradia) sem negligenciar seu apoio à causa palestina; ele realizou uma forte campanha de base porta a porta e, ao mesmo tempo, obteve enorme sucesso no TikTok; recebeu apoio tanto de setores abastados da cidade quanto de eleitores imigrantes da classe trabalhadora e, não menos importante, implementou uma campanha extremamente moderna e profissional – a tal ponto que o assessor eleitoral Lucas Malaspina ironicamente a chamou de ‘startup comunista’ – mas combinada com um grande número de jovens voluntários”.

Será que a experiência de Mamdani pode ser transferida para outros contextos? Stefanoni tem suas dúvidas. Quando ele descreve Boric como “um Mamdani chileno”, essa dúvida pode se transformar em alarme. O argentino também disse à Brecha: “De qualquer forma, se a esquerda não se ancorar nas necessidades vitais dos pobres e não canalizar seus medos, ansiedades e descontentamentos, não chegará muito longe, e qualquer discussão será inútil”. Parece óbvio que seja esse o caso, mas quando se observa como os movimentos progressistas geralmente canalizam os medos, as ansiedades e o descontentamento dos setores populares, a mentalidade de “no future” ressurge.

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