Trump reforça seu “protetorado” na Venezuela com um acordo petrolífero cheio de incógnitas: “O futuro do país está sendo hipotecado”

Delcy Rodriguez, presidente da Venezuela (Foto: Presidência da Venezuela | Wikimedia Commons) e Donald Trump (Foto: Daniel Torok | White House | Flickr)

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02 Setembro 2026

A transferência de 22% das reservas de petróleo do país será realizada por meio de uma empresa pertencente ao milionário venezuelano Alejandro Betancourt, que está sendo investigado na Espanha e na Suíça.

A reportagem é de Juan Gabriel García, publicada por El Diario, 01-09-2026.

A viabilidade do acordo pelo qual Donald Trump garantiu a liberação de 65 bilhões de barris de reservas de petróleo da Venezuela continua a suscitar muitas dúvidas. Mas uma coisa está ficando cada vez mais clara: Washington está tratando Caracas como um protetorado de fato.

A concessão petrolífera é a mais recente de uma série de ações dos Estados Unidos para propor e anunciar acordos, seguindo a mesma linha do governo interino de Delcy Rodríguez. Após Trump anunciar a privatização de 22% das reservas de petróleo da Venezuela, um elemento crucial que impacta a soberania do país, Rodríguez tentou minimizar a notícia, enfatizando que Caracas receberia US$ 209 bilhões em impostos e US$ 100 bilhões em investimentos.

“Se este acordo for legitimado legalmente, ele hipoteca o futuro do país por 100 anos, ainda mais do que Chávez e Maduro já fizeram com o desmantelamento da democracia”, disse Laura Cristina Dib, diretora do Programa Venezuela do Grupo de Defesa dos Direitos Humanos nas Américas (WOLA), ao elDiario.es. A pesquisadora, que acompanha de perto a trajetória do país desde a intervenção militar dos Estados Unidos para depor Nicolás Maduro, destaca que “a Venezuela não está passando por uma transição democrática” e que este novo acordo é mais uma prova disso.

Francisco Rodríguez, acadêmico e economista venezuelano do Centro de Pesquisa Econômica e Política, enfatiza como a dinâmica entre Washington e Caracas “se assemelha” a “outras situações de protetorado, como o Iraque sob ocupação dos EUA, ou Cuba, a República Dominicana e o Haiti no início do século XX”. Além disso, Dib destaca como a prioridade do governo dos EUA é consolidar “atores que atendem inquestionavelmente aos desejos da administração Trump, e é exatamente isso que Delcy Rodríguez tem feito”.

Na noite de segunda-feira, a Casa Branca divulgou um novo comunicado detalhando que a empresa encarregada de desenvolver os 17 campos de petróleo para extrair esses 65 bilhões de barris será a North American Blue Energy Partners (NABEP). A empresa, que terá ligações diretas com o governo dos EUA, pertence ao bilionário venezuelano Alejandro Betancourt, que está sendo investigado na Espanha e na Suíça por seu suposto envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo bilhões de dólares da estatal petrolífera venezuelana PDVSA — acusações que ele nega.

Dib acredita que a confirmação do compromisso da presidência com a NABEP representa "uma institucionalização ainda maior da corrupção, agora com o apoio dos Estados Unidos". Para a pesquisadora, fechar um acordo dessa magnitude com uma empresa contradiz os supostos objetivos de democratização da Venezuela. "Os Estados Unidos, longe de serem um bastião da democracia e da liberdade, estão se mostrando o principal motor da erosão democrática em todo o continente", lamenta ela.

“É verdade que houve quase mil libertações da prisão desde 3 de janeiro, mas também é crucial, ao fazer um balanço, observar o que não mudou. E, na verdade, quando se analisa tudo, percebe-se que a Venezuela não está passando por uma transição democrática. Meu maior temor é que este acordo petrolífero dê espaço a atores que sabemos serem responsáveis ​​pela corrupção; portanto, fortalece o sistema autoritário e cleptocrático”, conclui Dib.

A parceria com a empresa de Betancourt inclui a aquisição, pelo Pentágono, através do seu Escritório de Ativos Estratégicos, de uma participação de 35% na empresa-mãe da NABEP. O Departamento de Estado também terá garantias de compra de 20% da produção de todos os poços de petróleo atualmente e futuramente operados pela empresa venezuelana, a preço de custo. Além disso, terá direito de prioridade na compra dos 80% restantes do petróleo, "o que garantirá uma fonte de energia em nosso hemisfério em situações de emergência".

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Possíveis contratempos

Além do fato de que levará décadas para reconstruir a indústria petrolífera danificada e retomar a extração de petróleo bruto, Dib destaca que, mesmo após a aprovação deste acordo pelo Congresso dos EUA, ainda poderão ocorrer mais contratempos. Isso é especialmente verdadeiro se, após as eleições de novembro, os democratas conseguirem retomar o controle de ambas as casas do Congresso.

“Há muitas questões jurídicas sobre as implicações deste acordo com um governo ilegítimo”, alerta o pesquisador, que enfatiza: “O artigo 12 da Constituição venezuelana estipula que os recursos minerais e petrolíferos pertencem à República e, portanto, possuem um marco legal próprio que os regulamenta”. 

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