A Casa Branca confirma a “privatização” do setor petrolífero da Venezuela com um contrato de um século

Foto: GANESH RAMSUMAIR/Pexels

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01 Setembro 2026

A concessão permanece nas mãos da North American Blue Energy Partners (NABEP), de propriedade do milionário venezuelano Alejandro Betancourt, que está sendo investigado pelo sistema judiciário.

A reportagem é de Macarena Vidal Liy, publicada por El País, 01-09-2026.

A Casa Branca confirmou oficialmente a "privatização" do setor de hidrocarbonetos da Venezuela em um comunicado divulgado na noite de segunda-feira, publicando novos detalhes do acordo pelo qual o governo dos EUA obtém o controle de um quinto das reservas de petróleo bruto do país sul-americano. Segundo essa versão, o governo interino de Delcy Rodríguez concedeu uma concessão de 100 anos para 17 campos de petróleo, contendo aproximadamente 65 bilhões de barris de reservas, à North American Blue Energy Partners (NABEP), empresa pertencente ao bilionário venezuelano Alejandro Betancourt, que está sob investigação. Essa empresa firmou parceria com o governo dos EUA, conforme confirmado pela Casa Branca.

A divulgação dos novos detalhes ocorre três dias após o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciar o pacto, que ele descreveu como “o maior acordo petrolífero da história”. Analistas e especialistas do setor apontam, no entanto, que o que se sabe até agora sobre os termos levanta inúmeras questões sobre como e se ele será implementado. Modernizar a debilitada indústria petrolífera da Venezuela levará anos, afirmam. Alguns também alertam para a possibilidade de um governo venezuelano diferente repudiar o pacto no futuro. E há as sombras que cercam Betancourt, que está sendo investigado na Suíça e na Espanha por seu suposto envolvimento em um esquema de lavagem de bilhões de dólares provenientes da PDVSA, a estatal petrolífera.

O governo republicano argumenta que o pacto criará uma nova potência petrolífera no continente, sem custos para o contribuinte americano e em benefício da segurança nacional do gigante norte-americano.

Como parte do plano, o acordo concede ao Pentágono, por meio de seu Escritório de Ativos Estratégicos, a propriedade de 35% da empresa controladora da NABEP. O Departamento de Estado terá garantias para adquirir 20% da produção de todos os poços de petróleo atualmente e futuramente operados pela empresa venezuelana, a preço de custo. Terá também o direito de preferência na compra dos 80% restantes, "o que garantirá uma fonte de energia em nosso hemisfério em situações de emergência".

Este fornecimento permitirá o reabastecimento da reserva estratégica de petróleo dos EUA, atualmente em seu nível mais baixo em quatro décadas, e também será utilizado para “fins militares e outros fins sensíveis”.

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Direito de veto

O governo dos EUA terá poder de veto sobre a nomeação de todos os membros do conselho de administração da nova empresa. A Casa Branca especifica que a maioria deles deve ser composta por cidadãos americanos. A nova entidade contará com "prestigiados auditores, advogados e consultores americanos". O acordo entre o governo e a NABEP estará sujeito à jurisdição dos tribunais e às leis dos EUA. As concessões de petróleo, de acordo com a nova lei venezuelana de hidrocarbonetos.

“A NABEP desenvolveu um plano ambicioso para expandir rapidamente a produção, investindo até US$ 100 bilhões em novas infraestruturas petrolíferas na Venezuela. Isso ajudará a gerar crescimento econômico, sustentar milhares de empregos bem remunerados na Venezuela e gerar centenas de bilhões em atividade econômica mais ampla”, afirmou a Casa Branca em comunicado. A Casa Branca também confirmou a estimativa de que a NABEP deverá pagar aproximadamente US$ 200 bilhões em royalties e impostos nos primeiros 25 anos do acordo — Delcy Rodríguez havia mencionado anteriormente US$ 209 bilhões. Essas receitas, segundo o comunicado, fornecerão apoio “crucial” aos “governos atual e futuro da Venezuela para financiar a reconstrução e o desenvolvimento social”.

O gabinete presidencial apresenta o acordo como um triunfo da chamada Doutrina Donroe — um jogo de palavras que combina o nome do atual presidente com a Doutrina Monroe, que no século XIX proclamava que a América deveria ser para os americanos — a política da administração Trump em relação à América Latina. Essa nova "Doutrina" defende uma intensificação da influência política e econômica dos EUA na região em detrimento de seus rivais.

Assim, especifica que as concessões petrolíferas incluídas no acordo — que Caracas revelou estarem localizadas na Faixa do Orinoco e no Lago Maracaibo, e algumas das quais nunca foram exploradas — estiveram sob o controle de interesses russos e chineses, ou de oligarcas corruptos associados ao chavismo, durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. “Esses agentes estrangeiros malignos saquearam os recursos da Venezuela em benefício de adversários dos EUA, como Cuba, Rússia e China”, observa o comunicado. “O presidente Trump restabeleceu a Doutrina Monroe para expurgar a influência estrangeira maligna de nossa região e garantir que a hegemonia dos EUA em nosso hemisfério nunca mais seja questionada.”

A Casa Branca também afirma que Washington facilitou negociações de reconciliação entre parte da oposição e as autoridades interinas do país. Segundo essa versão, o processo já resultou em "reformas significativas" no judiciário do país e levou à libertação de centenas de presos políticos.

Apesar do triunfalismo com que o governo dos EUA descreveu o plano, ele recebeu inúmeras críticas na Venezuela, tanto do chavismo quanto da oposição, que denunciam uma operação para se apropriar dos recursos nacionais de um país de uma forma que parece saída diretamente do colonialismo do século XIX, e com a aquiescência de um governo interino venezuelano forçado a dizer sim a tudo o que os Estados Unidos fazem para se manter no poder.

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