Petróleo venezuelano confiscado por Washington: o que aconteceu com as receitas petrolíferas desde 3 de janeiro de 2026? Artigo de Eric Toussaint

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18 Agosto 2026

“O ataque armado perpetrado pelos militares dos EUA e a submissão das autoridades de Caracas permitiram que Washington assumisse o controle das exportações de petróleo do país e, sobretudo, controlasse as contas nas quais a receita dessas exportações é depositada”. A reflexão é de Eric Toussaint, em artigo publicado por Sin Permiso, 16-08-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos lançaram uma operação militar contra a Venezuela que culminou na captura e sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, e sua transferência forçada para os Estados Unidos. Durante essa agressão, realizada com 150 aeronaves, aproximadamente 100 pessoas perderam a vida, incluindo 32 cubanos que tentavam proteger o palácio presidencial; as demais vítimas eram venezuelanas. Poucas horas após essa intervenção, Donald Trump anunciou que Washington pretendia controlar temporariamente a Venezuela e explorar seus recursos petrolíferos.

Essa intervenção, portanto, marcou um ponto de inflexão crucial na história recente da Venezuela. A vice-presidente da República e outras autoridades, na prática, aceitaram a situação e se submeteram à vontade de Donald Trump e sua administração. O ataque armado perpetrado pelos militares dos EUA e a submissão das autoridades de Caracas permitiram que Washington assumisse o controle das exportações de petróleo do país e, sobretudo, controlasse as contas nas quais a receita dessas exportações é depositada.

Essa questão assume ainda maior importância considerando que a Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Durante décadas, o petróleo tem sido a principal fonte de renda externa do país. O controle dessa receita é, portanto, um instrumento essencial de controle econômico e político.

Receitas petrolíferas relativamente modestas antes da intervenção dos EUA

Primeiramente, vale a pena relembrar as receitas petrolíferas registradas antes da intervenção de 3 de janeiro de 2026. De acordo com dados publicados em março de 2026 pelo Banco Central da Venezuela, as exportações de petróleo geraram US$ 18,4 bilhões em 2024 e US$ 18,2 bilhões em 2025. [1] Essas são receitas provenientes das exportações de petróleo e não do lucro líquido da estatal petrolífera PDVSA nem das receitas fiscais do Estado.

Estes valores são relativamente baixos considerando o potencial e as reservas petrolíferas do país. Refletem, em particular, o nível de produção, que permanece muito abaixo do das décadas anteriores, as dificuldades enfrentadas pela indústria petrolífera, as sanções dos EUA e as condições em que a Venezuela teve de comercializar o seu petróleo.

O contraste com o período posterior a 3 de janeiro de 2026 é, portanto, particularmente marcante.

Após 3 de janeiro: Washington assume o controle das exportações

Após o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa, o governo Trump flexibilizou algumas sanções, permitindo que a Venezuela vendesse seu petróleo mais livremente nos mercados internacionais. No entanto, a receita dessas vendas não pode ser livremente controlada pelo governo venezuelano. Ela foi transferida para contas administradas pelas autoridades dos EUA.

O decreto presidencial dos EUA de 9 de janeiro de 2026 é particularmente revelador. [2] Ele estabelece um mecanismo destinado a proteger as receitas petrolíferas venezuelanas depositadas em contas do Tesouro dos EUA. Washington apresenta legalmente esses fundos como pertencentes ao governo venezuelano, mas os coloca sob a custódia e o controle das autoridades dos EUA.

Portanto, do ponto de vista jurídico e de acordo com o mecanismo dos EUA, não se trata de uma simples apropriação de receita pelo Tesouro estadunidense. Mas o resultado político e econômico é fundamental: a Venezuela não controla mais livremente a receita proveniente de sua principal exportação. Washington controla sua arrecadação, sua preservação e sua distribuição.

Essa situação confere ao acordo uma dimensão nitidamente neocolonial.

Joaquín Castro, deputado democrata, declarou ao Financial Times: “A invasão da Venezuela por Trump foi motivada, desde o início, pelo petróleo, pelo poder e pela corrupção, já que o governo Trump controla bilhões de dólares da receita petrolífera venezuelana sem qualquer transparência ou salvaguardas”. Ele acrescentou que o Congresso estava sendo mantido “no escuro”. [3] O Financial Times observa que “logo depois da incursão de janeiro, o presidente Trump declarou que essas receitas ‘seriam controladas por mim’”.

Segundo o jornal londrino, “Em junho, Trump afirmou que os Estados Unidos haviam recuperado o custo da operação militar na Venezuela 28 vezes graças ao petróleo, acrescentando que os Estados Unidos também estavam ganhando muito dinheiro”

Um aumento acentuado nas exportações

A tomada de controle pelos EUA foi acompanhada por um rápido aumento nas exportações de petróleo.

De acordo com o Council on Foreign Relations, o valor estimado das exportações controladas pelos EUA subiu de cerca de US$ 600 milhões em janeiro para cerca de US$ 3,7 bilhões em abril de 2026. Os Estados Unidos absorveram cerca de 43% das exportações, a Índia 26% e a Espanha 8%. [4] No primeiro trimestre de 2026, o Banco Central da Venezuela registrou US$ 5,49 bilhões em receita com exportações de petróleo, representando um aumento de 21,5% em comparação com o primeiro trimestre de 2025. [5] No entanto, é preciso fazer uma distinção entre duas coisas: a receita registrada pelas estatísticas venezuelanas e os valores realmente disponíveis para o governo venezuelano. É precisamente neste segundo ponto que a falta de transparência começa.

Mais de US$ 13 bilhões em receita desde janeiro

No final de julho de 2026, o Financial Times estimou que as vendas de petróleo venezuelano geraram mais de US$ 13 bilhões desde o início do ano e que essa receita passou por contas controladas pelo governo dos EUA. [6] Essa estimativa se baseia nos volumes exportados e nos preços pelos quais o petróleo venezuelano foi vendido.

O valor é considerável. Em apenas alguns meses, representa aproximadamente 70% da receita petrolífera que a Venezuela obteve durante todo o ano de 2025.

No entanto, esses US$ 13 bilhões não devem ser interpretados como lucro líquido para os Estados Unidos. Trata-se de uma estimativa do valor da receita proveniente das vendas de petróleo sujeita ao controle do aparato estadunidense. Uma parte dessa receita deve cobrir os custos relacionados à comercialização, transporte, intermediação e operação da indústria petrolífera.

A questão crucial, portanto, é: qual parcela dessas receitas realmente chegou à Venezuela?

Quanto dinheiro realmente foi transferido para a Venezuela?

É aqui que a falta de transparência se torna particularmente relevante.

Em janeiro, um mecanismo inicial foi estabelecido por meio de uma conta no Catar. O secretário de Estado Marco Rubio indicou que US$ 300 milhões haviam sido transferidos para a Venezuela, enquanto aproximadamente US$ 200 milhões permaneciam na conta. Posteriormente, o secretário de Energia Chris Wright afirmou que os US$ 500 milhões completos haviam sido finalmente transferidos para a Venezuela.

Mais tarde, o Departamento de Estado dos EUA informou ao Congresso que aproximadamente US$ 3 bilhões haviam sido autorizados para transferência à Venezuela. Washington declarou que esses fundos se destinavam, entre outras coisas, a financiar as despesas operacionais do governo venezuelano e da indústria petrolífera.

No entanto, essa declaração não nos permite saber com certeza o valor efetivamente transferido e gasto.

Segundo o Financial Times, o governo venezuelano publicou um registro de transferências em março de 2026. No entanto, de acordo com um artigo do Financial Times de 22 de julho de 2026, esse registro mostrava apenas uma única transferência de US$ 300 milhões. Conseguimos encontrar um link para um portal criado pelo governo de Delcy Rodríguez: Transparencia Soberana, destinado a tornar públicas as receitas e despesas. Na data da consulta, 15 de agosto de 2026, o portal mostrava apenas uma transação de US$ 300 milhões, correspondente a uma “venda extraordinária de óleo combustível”, destinada integralmente, segundo informações do site, ao Fundo de Proteção Social para o aumento do salário mínimo dos trabalhadores na forma de bônus.

O Departamento de Estado, por sua vez, afirma que cerca de US$ 3 bilhões foram autorizados ou desembolsados. Atualmente, não há uma prestação de contas pública completa que permita conciliar esses dois valores.

Onde Washington diz estar usando o dinheiro?

As autoridades estadunidenses forneceram algumas indicações. Segundo informações fornecidas ao Congresso, os fundos foram utilizados, entre outras coisas, para pagar os salários de funcionários do governo venezuelano e para financiar equipamentos e suprimentos necessários para a indústria petrolífera.

No entanto, Washington não publicou nenhum detalhamento mostrando quanto foi alocado para salários, quanto para equipamentos petrolíferos e quanto para outras despesas.

Essa falta de transparência é ainda mais surpreendente, visto que o Departamento de Estado havia anunciado a implementação de um mecanismo de auditoria pela KPMG, com relatórios trimestrais. O Council on Foreign Relations observou recentemente que nenhum relatório público detalhado foi publicado.

Além disso, o Departamento de Estado assinou um contrato com a KPMG, potencialmente no valor de US$ 84,4 milhões, para um mecanismo de transparência relativo às receitas de recursos naturais da Venezuela. [7]

A situação é, portanto, paradoxal: os Estados Unidos controlam bilhões de dólares em receitas petrolíferas venezuelanas e estabeleceram um mecanismo de auditoria, mas o público ainda não tem acesso a um relatório detalhado que permita rastrear todos os fluxos financeiros.

Um controle que fornece a Washington um poderoso meio de pressão

O controle das receitas petrolíferas proporciona aos Estados Unidos uma considerável influência sobre o governo de Delcy Rodríguez.

O governo venezuelano pode continuar exportando petróleo, exceto para Cuba – que, no entanto, precisa desesperadamente dele –, mas não tem livre controle sobre a receita gerada por essas exportações. Washington decide as condições sob as quais os fundos são liberados e, dessa forma, pode influenciar diretamente os gastos do governo.

Portanto, o mecanismo vai muito além das sanções econômicas que precederam a intervenção.

As sanções visavam impedir ou limitar determinadas transações com a Venezuela. O novo sistema permite que Washington controle o fluxo financeiro da grande maioria das exportações venezuelanas.

O retorno das companhias petrolíferas estrangeiras

O controle das receitas é acompanhado por uma transformação do setor petrolífero.

O novo governo venezuelano aprovou uma reforma da legislação de hidrocarbonetos que abre ainda mais o setor ao investimento estrangeiro e reduz algumas das prerrogativas anteriormente desfrutadas pela PDVSA. Diversas empresas estrangeiras retomaram ou expandiram suas operações na Venezuela. Entre elas, Chevron, Shell, Eni, Repsol e, agora, BP.

Esse desenvolvimento não significa que todas essas empresas estejam trabalhando para o governo dos EUA. Mas faz parte de uma reorganização do setor petrolífero impulsionada por Washington: aumento da produção, retorno de empresas ocidentais, maior abertura ao capital estrangeiro e controle dos EUA sobre o circuito de financiamento das exportações.

Dessa maneira, a Venezuela está se tornando uma produtora de petróleo cuja capacidade de exportação está aumentando rapidamente, mas cujas receitas não estão mais sob o controle absoluto do Estado.

Um paradoxo: mais petróleo, mas não necessariamente mais recursos disponíveis para o Estado

Em 2024 e 2025, a Venezuela arrecadou aproximadamente US$ 18 bilhões anualmente com suas exportações de petróleo. Após a intervenção dos EUA, as exportações aumentaram consideravelmente e o valor das vendas controladas por Washington ultrapassou os 13 bilhões de dólares em poucos meses.

Seria de se esperar que este aumento das receitas se traduzisse rapidamente numa melhoria substancial da situação econômica e social do país.

No entanto, os efeitos permanecem limitados. O Financial Times salientou em julho que a economia venezuelana não parecia estar registrando uma melhoria proporcional à magnitude das receitas petrolíferas geradas.

Um sistema de caráter neocolonial

A Venezuela tem os recursos. As empresas extraem e vendem petróleo. Os compradores internacionais pagam por essas remessas. Mas as receitas são transferidas para contas sob o controle das autoridades estadunidenses, que determinam as condições sob as quais o governo venezuelano pode dispor desses recursos.

É precisamente o controle dos rendimentos que constitui neste caso o principal desafio.

O mecanismo estabelecido após 3 de janeiro de 2026 estabelece uma relação de dependência econômica particularmente profunda: um Estado “soberano” continua a produzir e exportar as suas principais riquezas naturais, mas uma potência estrangeira controla os rendimentos financeiros derivados dessas exportações.

O próprio Financial Times salientou que este mecanismo poderia ser considerado uma relação “quase neocolonial”, em que Washington exerce a sua influência sobre o Governo venezuelano através do controle das suas receitas petrolíferas.

Conclusão

A agressão militar dos EUA de 3 de janeiro de 2026 marcou, portanto, o início de uma nova etapa na história da Venezuela.

Pela primeira vez nesta escala, os Estados Unidos controlam diretamente o circuito financeiro das exportações petrolíferas venezuelanas. Washington afirma atuar como depositário de fundos pertencentes à Venezuela e quer utilizá-los em benefício da população. Mas a ausência de uma contabilidade pública completa ainda não nos permite saber com precisão quantos milhões foram efetivamente transferidos para a Venezuela, quantos foram gastos no seu funcionamento e na sua indústria petrolífera, e quanto permanece sob controle dos EUA.

Essa opacidade não é um problema menor. Ela está no cerne da nova relação neocolonial estabelecida na Venezuela.

A questão da dívida venezuelana também deve ser analisada dentro desse novo contexto: o controle das receitas do petróleo tornou-se um elemento central no equilíbrio de poder entre credores, o governo venezuelano e os Estados Unidos.

Uma auditoria cidadã das contas públicas é essencial, com acesso a todas as informações necessárias, tanto sobre as receitas do Estado – incluindo as receitas do petróleo – quanto sobre a dívida pública (novas dívidas contraídas, dívidas existentes e pagamentos efetuados).

É necessário reivindicar a soberania nacional: a soberania do povo sobre os recursos do país, a soberania do povo sobre as contas públicas, a soberania plena e absoluta.

Notas

[1] Reuters, “Las exportaciones de petróleo de Venezuela generaron 18 000 millones de dólares en 2025, según el Banco Central”, 24-03-2026.

[2] Donald J. Trump, Casa Blanca, Ordem Executiva 14373 “Safeguarding venezuelan oil revenue for the good of the american and venezuelan people” (Salvaguardar as receitas petrolíferas venezuelanas em benefício dos povos estadunidense e venezuelano), 9-01-2026. Acessado em 14-08-2026.

[3] Extrato do Financial Times, “The U.S. has collected about US$13 billion of Venezuela's oil money. Where is it?” (Os Estados Unidos arrecadaram cerca de 13 bilhões de dólares do dinheiro do petróleo da Venezuela. Onde está esse dinheiro?), 22-07-2026. Acessado em 14-08-2026.

[4] Roxanna Vigil, “The U.S. Took Over Venezuela's Oil Industry. Where Has All the Money Gone?” (Os Estados Unidos assumiram o controle da indústria petrolífera da Venezuela. Para onde foi todo o dinheiro?), publicado pelo Council on Foreign Relations em 03-06-2026. Acessado em 14-08-2026.

[5] Investing.com, “Venezuela oil export revenue rises 21.5% in first quarter” (As receitas de exportação de petróleo da Venezuela aumentam 21,5% no primeiro trimestre), publicado em 22-06-2026. Acessado em 14-08-2026.

[6] Financial Times, “The U.S. has collected about US$13 billion of Venezuela's oil money. Where is it?” (Os Estados Unidos arrecadaram cerca de 13 bilhões de dólares do dinheiro do petróleo da Venezuela. Onde está esse dinheiro?), 22-07-2026. Acessado em 14-08-2026.

[7] Consultar o site do governo do Estados Unidos.

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