Na Saxônia, o AfD pretende fazer com que as pessoas esqueçam o nazismo: "Chega de arte e memória"

Foto: AfD | Getty Images

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02 Setembro 2026

Na votação de domingo, a extrema-direita poderá chegar ao poder pela primeira vez desde 1945: ela ensinará o "pensamento alemão".

A reportagem é de Tonia Mastrobuoni, publicada por La Repubblica, 02-09-2026.

Mary Pünjer foi presa em julho de 1940 por ser “lésbica”; dois anos depois, um médico a designou para o “tratamento especial 14f13”. Um eufemismo: os nazistas eram mestres em figuras de retórica, em “soluções finais”, como nos ensina Viktor Klemperer. E esse programa, com nome aparentemente inocente, ocultou por anos uma operação colossal para aniquilar pessoas consideradas “inaptas para o trabalho” por terem síndrome de Down ou epilepsia, serem cegas ou surdas, esquizofrênicas ou deprimidas. Ou talvez por algo completamente diferente. Mary Pünjer foi levada à força para uma das seis “Tötungsanstalten”, “clínicas da morte”, espalhadas pelo Terceiro Reich. Ela chegou à instituição psiquiátrica de Bernburg em 28 de maio de 1942. No mesmo dia, foi gaseada e cremada no porão da clínica. Ela era um "lastro", um "peso morto", era "indigna de viver": era assim que os nazistas definiam as pessoas que não se conformavam à norma, fossem elas deficientes, inquietas ou homossexuais.

Ao todo, 14.000 pessoas "indignas" foram massacradas em Bernburg, Saxônia-Anhalt. E até hoje, a câmara de gás permanece praticamente intacta. Ela ainda causa arrepios: conserva toda a eficiência das máquinas de extermínio de Hitler, as mesmas de Treblinka ou Birkenau. Há a pequena janela que permitia aos médicos observar o progresso da asfixia; o piso quadriculado em preto e branco inclina-se ligeiramente em direção à entrada para facilitar a limpeza após a remoção dos corpos. E a fumaça dos mortos "indignos" e dos pacientes "normais" do hospital adjacente passava por uma única e gigantesca chaminé que ainda se ergue ao lado da clínica.

Milhares de estudantes de escolas de toda a Saxônia-Anhalt, bem como de outras regiões da Alemanha, vêm a Bernburg todos os anos. "Já estamos com as reservas esgotadas até 2027", conta Judith Gebauer, diretora do Memorial. "É importante que as crianças aprendam sobre a história da perseguição a pessoas com deficiência ou rotuladas como 'incompetentes'. É uma história diferente, uma nova história da crueldade nazista, que se soma ao extermínio dos judeus, dos sinti e dos roma. E aqueles que vêm aqui costumam ficar profundamente comovidos."

Mas, tendo em vista as eleições de domingo, a diretora do Memorial de Bernburg está "preocupada", confessa. Porque o AfD pode vencer as eleições e chegar ao poder. E ela já deixou claro, por escrito, que lugares como Bernburg correm grande risco: a extrema-direita quer abolir o instituto que financia as visitas escolares aos memoriais, o Landesinstitut für Politische Bildung (Instituto Estadual de Educação Política). O partido, além disso, difama aqueles que visitam os campos de extermínio, chamando-os de "zumbis nazistas", como se fosse um culto doentio e não uma experiência fundamental para milhões de crianças que vivenciam em primeira mão o inferno da desumanização de Hitler.

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Desde a sua criação, o AfD desenvolveu uma obsessão por relativizar e minimizar o nazismo. De fato, apropria-se da sua linguagem e até mesmo das suas ideias. Através dos seus líderes mais extremistas, como o líder da ala völkisch, Björn Höcke, o partido almeja uma "guinada de 180 graus" na sua abordagem ao Terceiro Reich. E se os nazistas chamavam os deficientes de "Ballast" (lastro) e os exterminavam, Höcke os definiu, há três anos, como "Belastung" (fardo).

Essas analogias e semelhanças são deliberadas. Afinal, o ex-líder Alexander Gauland disse que a era Hitler deveria ser considerada "merda de passarinho" na história milenar da Alemanha. E a Saxônia-Anhalt, onde um dos expoentes mais radicais do partido, Hans-Thomas Tillschneider, está cotado para se tornar Ministro da Educação e Cultura, terá que estar na vanguarda dessa monstruosa mistificação histórica e purificação étnica.

Há anos que o AfD grita "basta do culto da culpa", um termo emprestado de teóricos da Nova Direita que querem transformar os alemães de algozes em vítimas. E Tillschneider, pró-Rússia e admirador de Putin, já criou um slogan eloquente, que deveria ser aplicado em museus e escolas, instituições culturais e teatros: "Mais Bismarck, menos Hitler". Acima de tudo, ele gerou uma hashtag que não deixa espaço para a imaginação: #deutschdenken (#pensealemão). Ela vem diretamente do nazismo, uma citação de um famoso discurso de 1938, quando o Führer se dirigiu à Juventude Hitlerista e bradou: "Esta juventude não aprende nada além de pensar alemão, agir alemão, sentir alemão". No outono de 2023, em Schnellroda, sede do "papa" da Nova Direita alemã, Götz Kubitschek, Tillschneider disse que "nosso passado não deve mais ser um fardo para nós, mas um desejo".

A revista semanal Spiegel revelou que, em 2017, Tillschneider pretendia apresentar uma moção para abolir completamente a fundação memorial regional. Na ocasião, Björn Höcke proferiu sua frase mais infame: "O Memorial do Holocausto de Berlim é uma vergonha". A tempestade que se abateu sobre o líder da Turíngia convenceu seu homólogo da Saxônia-Anhalt a engavetar a proposta. Mesmo assim, o AfD apresentou uma moção para criar um memorial para as vítimas dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. As vítimas dos Aliados, é claro.

A guerra contra a cultura, no entanto, é mais ampla e assustadora. Tillschneider chamou a Bauhaus, um dos movimentos artísticos mais importantes da história, de "um caminho errado para a modernidade", uma escola "desprovida de identidade".

Vale lembrar que a escola fundada por Walter Gropius foi forçada a deixar Weimar na década de 1920, durante o primeiro governo apoiado pelos nazistas na Turíngia. Era considerada arte "degenerada", judaica demais e expressão de um espírito "decadente". Os artistas se mudaram para Dessau, na Saxônia-Anhalt. E, em seu desejo de trazer de volta os "costumes", o "Brauchtum" germânico, para museus e instituições, um partido de extrema-direita ameaça — mais uma vez — um monumento da modernidade como a Bauhaus.

Parece uma piada de mau gosto. Mas não é. Tanto que, juntamente com dezenas de instituições, incluindo o Memorial de Bernburg, o Museu Luterano, o Teatro Magdeburg, Ferropolis, a Associação de Museus da Saxônia-Anhalt e a Bauhaus em Dessau, a associação assinou um apelo alertando contra a "política cultural patriótica" anunciada pelo AfD, que "visa apenas expressar uma comunidade etnicamente homogênea", exibindo traços "nacionalistas" perturbadores. Ela visa destruir a arte como um "espaço aberto e pluralista". E admite apenas a "identidade alemã". Uma perturbadora sensação de déjà vu.

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