O programa nuclear "exponencial" da Coreia do Norte: por que Kim Jong-un acelerou a expansão de seu arsenal?

Foto: Wikimedia Commons | Office of the President of the Russian Federation

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08 Julho 2026

Especialistas apontam para as lições da guerra com o Irã, a ameaça representada pelos aliados dos EUA no Extremo Oriente e a afirmação do poderio militar de Pyongyang como possíveis razões para o endurecimento da retórica belicosa do país.

A informação é de Raphael Rashid, publicada por El Diario, 07-07-2026.

A expansão constante das forças nucleares da Coreia do Norte é a "forma mais adequada e singular" de fazer frente a um mundo cada vez mais instável, declarou no mês passado Kim Jong-un, o líder do país, em uma reunião do Partido dos Trabalhadores. O mandatário norte-coreano justificou essa estratégia pelo que descreveu como ameaças crescentes por parte dos EUA e seus aliados.

A intervenção de Kim é a última mostra do endurecimento do discurso de Pyongyang. Nos últimos meses, o dirigente norte-coreano prometeu equipar navios de guerra com mísseis nucleares, duplicar a produção de material apto para armamento nuclear e ampliar o arsenal do país a um "ritmo exponencial".

A Coreia do Norte costuma exagerar o alcance de suas capacidades militares. No entanto, para além da retórica cada vez mais agressiva de Pyongyang, os especialistas sublinham que a questão já não é se o país possui armas nucleares, mas por que parece precisar de um arsenal tão amplo.

Lições da guerra do Irã

Peter Ward, pesquisador especializado em Coreia do Norte no Instituto Sejong, um dos principais centros de análise de política externa e segurança da Coreia do Sul, aponta que "trata-se de uma força tão grande e tão dispersa que nenhum ataque isolado poderia eliminá-la, e parece cada vez mais difícil de desmantelar pela via diplomática". O especialista acredita que a Coreia do Norte está utilizando a dispersão de seu arsenal para se proteger contra uma intervenção similar à que ocorreu no Irã. "Não sabemos onde está todo o seu arsenal. Não sabemos do que são capazes. E suas ameaças são deliberadamente ambíguas", afirma.

Os recentes ataques dos EUA contra o Irã reforçaram uma lição que a Coreia do Norte aprendeu há tempos: os Estados que não chegam a dispor de um arsenal nuclear plenamente operativo ficam expostos a ser atacados em vez de dissuadir seus adversários.

"Um país que fica às portas (de contar com um arsenal nuclear plenamente operativo) coloca uma enorme mira nas próprias costas (arrisca-se a ser um alvo)", afirma Ward.

Projetado para sobreviver a um primeiro golpe, o arsenal norte-coreano inclui lançadores móveis implantados por estrada e ferrovia, instalações subterrâneas fortificadas e uma frota de submarinos em constante expansão.

A Coreia do Norte começou este ano a realizar testes de lançamento de mísseis de cruzeiro com capacidade nuclear a partir de um novo destroyer de 5.000 toneladas, e na quarta-feira Kim prometeu que o país construiria outros dois navios de guerra por ano durante os próximos cinco anos.

"A Coreia do Norte se enfrenta ao guarda-chuva nuclear dos EUA, às forças conjuntas dos EUA e da Coreia do Sul e à cooperação trilateral com o Japão", afirma Hong Min, pesquisador sênior do Instituto Coreano para a Unificação Nacional, um centro de estudos financiado pelo governo sul-coreano. "Isso vai além da mera dissuasão", adverte.

As armas nucleares estão blindadas pela Constituição do país após uma reforma realizada no início deste ano, que outorgou a Kim o comando constitucional sobre as forças nucleares e a faculdade de delegar a autoridade de lançamento a um comando independente, uma medida que os especialistas interpretam como uma salvaguarda contra um ataque ao líder do país.

Lee Ho Ryung, pesquisadora principal do Instituto Coreano de Análise de Defesa (KIDA), um dos principais centros de estudos estratégicos da Coreia do Sul, afirma que Pyongyang buscava consolidar a ideia de que a desnuclearização já não é uma opção para a Coreia do Norte e desenvolver capacidades que obrigassem Washington a levar o regime a sério.

Nesse sentido, ela aponta que o argumento da Coreia do Norte "é que neste momento não cabe negociar a redução do arsenal".

Oficialmente, a desnuclearização continua sendo o objetivo declarado de Seul no que se refere às relações com a Coreia do Norte. O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, a converteu em um pilar fundamental da política de seu governo.

Donald Trump e Xi Jinping reafirmaram em maio o que a Casa Branca descreveu como um "objetivo comum" de desnuclearizar a Coreia do Norte. Mas quando Xi viajou a Pyongyang, os comunicados chineses não mencionavam o particular.

O estreitamento dos laços militares da Coreia do Norte com a Rússia e o fortalecimento de sua relação com a China isolaram ainda mais Pyongyang do tipo de pressão externa que outrora tornou concebíveis as negociações. Os três Estados, apesar de suas diferenças, compartilham o interesse por frear o poder estadunidense.

Lee Ho Ryung, do KIDA, afirma que Washington e Seul continuarão defendendo a desnuclearização como seu objetivo oficial, mas que, na prática, é provável que o enfoque se desloque para o controle de armamento: limitar e reduzir gradualmente o arsenal em vez de eliminá-lo. Em sua opinião, provavelmente "ao final seja a única via".

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