Quando o corpo é exposto repetidamente a poluentes, seja matéria particulada no ar, seja metais pesados ou agrotóxicos, ele reage como reagiria a qualquer outra agressão, explica a pesquisadora
A poluição é um agravante que circula na rotina das cidades e nos campos. Na vida urbana, ela atinge as pessoas principalmente pela contaminação do ar que respiramos, inalando inúmeras partículas de metal diariamente. Já nas zonas rurais, a poluição vem de práticas tóxicas como o uso excessivo de agrotóxicos e práticas de mineração.
Em entrevista especial concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, a bióloga Marina Ziliotto explica que a “poluição ambiental já é associada ao desenvolvimento de uma lista (bem extensa) de doenças: câncer de pulmão, doenças cardiovasculares (infarto, AVC, hipertensão), diabetes tipo 2, doenças respiratórias crônicas como asma e DPOC, e até problemas que a gente não costuma associar à poluição de cara, como doença renal crônica, doença hepática e osteoporose. O que conecta esse leque diverso de doenças é, em boa parte, um mecanismo comum, a inflamação crônica”.
Ziliotto afirma que “no Brasil, o uso de agrotóxicos aumentou muito em pouco tempo, e seus efeitos ainda nem são completamente conhecidos, principalmente na exposição crônica”. A partir de sua dispersão “a substância se espalha pelo solo, carregado pela chuva e pelo vento, chegando a outras áreas, rios e até lençóis freáticos, muitas vezes distantes da aplicação original. Isso significa que a contaminação raramente é só um problema
Marina Ziliotto (Foto: Arquivo pessoal)
Marina Ziliotto é doutoranda em genética e biologia molecular pelo Programa de Pós-graduação em Genética e Biologia Molecular (PPGBM-CAPES 7) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), realizando atividades de pesquisa no laboratório de imunobiologia e imunogenética (UFRGS/Departamento de Genética). É mestra em Genética e Biologia Molecular (PPGBM) e bacharela em Ciências Biológicas (2021) pela UFRGS.
IHU – Quais impactos agravantes que a poluição causa em humanos e animais?
Marina Ziliotto – A poluição pode ser causada por uma grande diversidade de agentes, e seus efeitos sobre os organismos variam muito de acordo com o contexto. Isso torna os estudos sobre poluição especialmente complexos e interessantes.
A poluição do ar em áreas urbanas, geralmente causadas por automóveis, é composta principalmente por matéria particulada fina (PM 2.5). Sua composição é uma mistura complexa de partículas de carbono e carregam também metais pesados e hidrocarbonetos. Por serem finas, elas são inspiradas durante a respiração, entrando no pulmão e chegando na corrente sanguínea. A exposição a esses poluentes é geralmente crônica, porque é persistente em ambientes urbanos que circulamos no dia a dia. Essa exposição crônica já é associada a diversos problemas respiratórios e cardiovasculares, resultantes de estresse oxidativo, que danifica células e tecidos, processos inflamatórios que agravam condições respiratórias e redução da função pulmonar, o que sobrecarrega o sistema cardiovascular. Cada indivíduo é único, e por isso pode lidar de formas diferentes com essa exposição. Por exemplo, indivíduos com predisposição a asma e complicações cardíacas podem ser mais impactados.
Os efeitos podem ser extrapolados, mesmo que de forma generalizada. As outras espécies que convivem com humanos nos espaços urbanos também sentem seus efeitos, embora sejam muito menos estudados atualmente. Apesar de não ser comum vê-los na cidade como em regiões biodiversas, essas áreas urbanas também se tornaram habitats de várias outras espécies. Mesmo podendo apresentar efeitos semelhantes, cada espécie tem meios de processar elementos específicos ao seu metabolismo, o que faz com que os efeitos da poluição sejam também diferentes.
No ambiente rural, os principais poluentes são os agrotóxicos. O número de intoxicações agudas por agrotóxico aumentou muito nos anos recentes e geralmente envolvem trabalhadores rurais expostos diretamente durante a aplicação, com sintomas que podem ir de náuseas e convulsões até óbito.
No Brasil, o uso de agrotóxicos aumentou muito em pouco tempo, e seus efeitos ainda nem são completamente conhecidos, principalmente na exposição crônica. Outro ponto central é que, apesar da aplicação ser local, o agrotóxico não fica restrito ao ponto de aplicação. A substância se espalha pelo solo, carregado pela chuva e pelo vento, chegando a outras áreas, rios e até lençóis freáticos, muitas vezes distantes da aplicação original. Isso significa que a contaminação raramente é só um problema isolado de uma fazenda ou lavoura. A exposição, mesmo que a baixas doses, de forma prolongada já é associada a desenvolvimento de problemas neurológicos, hormonais, malformação fetal e aumento no risco de alguns tipos de câncer em humanos.
Considerando os animais, a forma como um agrotóxico vai afetar um organismo depende muito de características específicas de cada espécie: seu metabolismo, seu tamanho, sua dieta, se ele está no topo ou na base da cadeia alimentar (já que muitos compostos se acumulam ao longo da cadeia, num processo chamado bioacumulação) e o habitat que eles vivem. Um inseto, um anfíbio e um mamífero podem reagir de formas completamente diferentes ao mesmo composto. E na maioria das espécies a verdade é que a gente simplesmente não sabe quais são os efeitos de forma detalhada, apesar de os estudos que já temos apontarem para redução geral na capacidade do animal de sobreviver e se reproduzir com sucesso, danos genéticos e sistema imune enfraquecido. Os estudos toxicológicos existentes cobrem uma fração mínima da biodiversidade, então estamos lidando com um grau enorme de incerteza sobre o impacto desses compostos nos ecossistemas.
IHU – A queima de combustíveis fósseis é um dos principais agravantes da crise climática por causar poluição. Podemos confiar que essa prática irá se extinguir com o tempo ou a indústria continuará com o mesmo ritmo de exploração predatória?
Marina Ziliotto – Os combustíveis fósseis são, de fato, um dos principais agravantes da crise climática, e eu diria que também de crises políticas de vários países. Mas retomo um ponto da pergunta anterior: poluição é um conceito que depende muito do contexto. Um metal dentro de uma rocha não é um poluente; mas, se você extrai esse metal e concentra ele em outro ambiente, ele passa a ser. De forma semelhante, o carbono que está no petróleo, carvão e gás natural e fica armazenado embaixo da terra por milhões de anos, fora do ciclo ativo, não é um problema por si só. São a concentração e a velocidade com que ele está sendo adicionado à atmosfera que causam o desequilíbrio.
No Brasil, os principais emissores de gases de efeito estufa não são, na verdade, ligados diretamente à queima de combustíveis fósseis. As principais causas de emissão são mudanças de uso da terra (principalmente o desmatamento, para abrir espaço para a agropecuária, infraestrutura ou urbanização) e a agropecuária em si. Vale lembrar que boa parte da nossa matriz elétrica já é renovável (hidrelétrica, principalmente), o que ajuda a explicar por que motivo esse setor não é o maior emissor no Brasil, diferentemente do que acontece em outros países.
Por isso, eu diria que não dá para confiar que isso vai se resolver “com o tempo”, de forma automática. Depende de entender o problema específico de cada território. E isso não necessariamente o torna mais complexo. Na verdade, temos ainda mais clareza para lidar com essas questões. Já temos plataformas que analisam dados de poluição e suas principais causas de forma contínua, como o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) e o MapBiomas. Além disso, diversos problemas socioambientais comuns no Brasil como desmatamento, poluição e invasão de terras protegidas, apesar de serem questões diferentes entre si, na prática, se resolvem com as mesmas ferramentas: fiscalização efetiva, aplicação real da lei, vontade política e governança. São coisas que, historicamente, o Brasil tem dificuldade de sustentar de forma consistente, sobretudo quando há mudança de governo ou pressão de setores econômicos.
IHU – Como a contaminação por metais tóxicos afeta a saúde das populações que vivem em áreas urbanas e comunidades rurais?
Marina Ziliotto – Nas áreas urbanas, a principal porta de entrada é o ar. A matéria particulada (PM2,5 e PM10) que respiramos cotidianamente funciona como uma “carona” para metais como chumbo, cádmio, arsênio, cromo e mercúrio. Esses metais ficam aderidos às partículas e, quanto menor o tamanho, mais profundo chegam nos pulmões, podendo passar para a corrente sanguínea e se distribuir pelo corpo. O acúmulo dessa fuligem composta gera a antracose, que funciona como um indicador de quanto cada pessoa foi exposta à poluição atmosférica durante a vida. Estudos com motoristas de táxi em Porto Alegre, por exemplo, mostraram associação entre essa exposição e mais inflamação, estresse oxidativo, dano ao DNA e processos ligados a câncer. Para ter ideia da escala do problema em uma megacidade, um estudo em São Paulo estimou que viver lá equivale a fumar cerca de cinco cigarros por dia, considerando a quantidade de partículas microscópicas de poluição (PM2,5) inalada, e quanto mais tempo a pessoa passa no trânsito, maior essa carga.
Por isso, hábitos de vida são muito decisivos nesse aspecto. Gente que vive perto de áreas industriais ou passa mais tempo se deslocando (o que geralmente acontece com quem mora afastado dos centros ou longe do trabalho) acaba absorvendo uma carga maior de poluição, o que termina sendo também uma questão de desigualdade social.
Assim como a poluição no geral, o problema dos metais em área rural também é ligado ao uso dos agrotóxicos e fertilizantes. Alguns desses produtos contêm metais e metaloides na composição ou geram subprodutos tóxicos, e a aplicação intensiva, comum ao Brasil, que é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, contamina solo e água de forma persistente. A calda bordalesa, por exemplo, um fungicida utilizado em grandes quantidades na vinicultura, é um composto à base de sulfato de cobre que vai se depositando no solo de forma cumulativa.
O que esses metais fazem no organismo, na prática, é parecido independentemente da rota de entrada. Arsênio, chumbo e mercúrio são três metais poluentes de preocupação global. Eles interagem com quase 10 mil genes diferentes, conforme um estudo recente publicado pelo grupo de pesquisa que desenvolvo meu doutorado. Entre os genes mais afetados estão alguns ligados à resposta inflamatória e a defesa antioxidante da célula, o que sugere que esses metais geram um estresse celular crônico, equilibrando entre ativar inflamação e mecanismos de defesa. Isso ajuda a explicar por que a exposição a metais está associada a um espectro tão amplo de problemas, desde doenças do trato urogenital – que aparecem com destaque nos genes afetados, possivelmente porque o rim é a via de excreção desses elementos – até maior risco de câncer. Vale falar que o arsênio é um carcinógeno humano bem estabelecido, e o chumbo é considerado provável carcinógeno.
Os metais também apresentam características específicas para cada elemento, e nem todo metal tem “dose segura” de exposição. Embora alguns metais sejam essenciais para diversos processos biológicos, como o zinco, que participa de várias reações enzimáticas; o chumbo, por exemplo, é tóxico em qualquer quantidade que se acumule no organismo, então mesmo exposições aparentemente baixas e crônicas (como respirar ar urbano poluído por anos) têm efeito cumulativo preocupante.
Outro fator importante é que não podemos pensar num metal isolado quando falamos de exposição a poluentes. No cotidiano, as pessoas estão expostas a misturas complexas desses metais. Um trabalhador agrícola pode estar exposto simultaneamente a metais vindos de agrotóxicos e morar próximo um local de mineração; um morador de cidade respira material particulado (PM) com vários metais ao mesmo tempo. Os efeitos costumam ser sinérgicos, não apenas somados, o que torna a avaliação de risco mais complexa do que olhar para um elemento por vez.
IHU – De que forma a poluição ambiental pode contribuir para o aumento de doenças crônicas e do câncer?
Marina Ziliotto – A poluição ambiental já é associada ao desenvolvimento de uma lista (bem extensa) de doenças: câncer de pulmão, doenças cardiovasculares (infarto, AVC, hipertensão), diabetes tipo 2, doenças respiratórias crônicas como asma e DPOC, e até problemas que a gente não costuma associar à poluição de cara, como doença renal crônica, doença hepática e osteoporose. O que conecta esse leque diverso de doenças é, em boa parte, um mecanismo comum, a inflamação crônica.
Quando o corpo é exposto repetidamente a poluentes, seja matéria particulada no ar, seja metais pesados ou agrotóxicos, ele reage como reagiria a qualquer outra agressão. Aciona uma resposta inflamatória, e junto com isso o organismo passa a produzir mais radicais livres do que consegue neutralizar, entrando num estado chamado estresse oxidativo. Numa exposição pontual, essa resposta normalmente se resolve; mas numa exposição crônica, como respirar ar poluído todos os dias durante anos, essa inflamação nunca se desliga completamente.
Essa inflamação constante vira um estado de fundo, que permanece em baixo grau, mas é constante. Ela não fica restrita ao local de entrada do poluente, mas circula sistemicamente e contribui para processos que estão na raiz de boa parte das doenças crônicas que conhecemos: favorece a formação de placas de aterosclerose nas artérias (ligando poluição a infarto e AVC), interfere na sinalização da insulina (ligando a diabetes) e cria um ambiente celular mais propício a mutações e à progressão de células cancerígenas, porque o estresse oxidativo crônico danifica o DNA e, ao mesmo tempo, ocupa os mecanismos de reparo da célula que deveriam estar corrigindo esses erros.
Então há uma espécie de dupla via: por um lado, cada poluente pode ter efeitos bem específicos – metais como chumbo agindo diretamente sobre genes ligados a receptores hormonais, por exemplo, ou agrotóxicos com mecanismos próprios de toxicidade. Por outro lado, todos eles convergem nesse caminho comum de inflamação e estresse oxidativo, que é mais inespecífico, mas justamente por isso explica por que populações expostas cronicamente à poluição apresentam risco maior para um conjunto tão variado de doenças.
IHU – Como a poluição do solo, da água e do ar afeta a sobrevivência e a reprodução dos animais?
Marina Ziliotto – Acho importante relembrar que ainda não conhecemos toda a biodiversidade existente. Além disso, a emissão de poluentes é relativamente nova na história global, ainda mais considerando o aumento exponencial dos anos mais recentes. Por isso, também desconhecemos todos os efeitos desses poluentes em humanos a longo prazo. Em animais, sabemos menos ainda. A poluição do solo, da água e do ar afetam a sobrevivência e a reprodução dos animais por caminhos além da intoxicação aguda ou morte direta. Boa parte do dano conhecido é mais sutil e se manifesta na capacidade de uma espécie se reproduzir.
Muitos poluentes ambientais interferem diretamente no sistema hormonal dos animais, funcionando como disruptores endócrinos. O mecanismo costuma envolver a interação desses poluentes com genes de receptores hormonais, alterando processos que vão desde o metabolismo até a fisiologia reprodutiva.
O resultado, observado em campo repetidas vezes, é uma queda no sucesso reprodutivo com menos filhotes, embriões que não se desenvolvem corretamente, malformações em órgãos reprodutivos, alterações no momento e na velocidade de desenvolvimento dos jovens. Em peixes expostos a esses poluentes, por exemplo, já foram observados ovos em menor quantidade e filhotes que demoram mais para se desenvolver e nascem mais fracos, carregando esse desempenho reprodutivo reduzido para a vida adulta. Em moluscos marinhos, certos poluentes já foram associados ao chamado “imposex”, quando fêmeas desenvolvem estruturas reprodutivas anômalas que comprometem sua capacidade de procriar; em populações selvagens de mamíferos expostos a derramamentos de petróleo, já se observou dano direto ao material genético das células, que podem ser transmitidos para outras gerações. Esses danos cumulativos diminuem gradualmente a capacidade da população de se manter viável e só se manifestam em escala populacional, anos depois, quando o declínio já está instalado e fica mais difícil reverter.
Na água, os poluentes se acumulam e se “biomagnificam” subindo na cadeia alimentar. No Pampa gaúcho, por exemplo, pesquisas já encontraram agrotóxicos em níveis preocupantes em peixes como o lambari (Astyanax) e em organismos-modelo como o paulistinha (Danio rerio), com efeitos que vão de toxicidade reprodutiva a alterações comportamentais. Além dos efeitos negativos nesses animais, eles são também a base alimentar de outras espécies, então o problema se propaga.
No solo e no ar, os animais que vivem perto de áreas urbanas, industriais ou agrícolas também são expostos a poluição. Estudos brasileiros já encontraram acúmulo de metais nos pulmões de animais urbanos como pardais, pombos, e mamíferos como cães e tatus, resultantes da exposição crônica. Metais como arsênio, chumbo e mercúrio, além de afetarem diretamente o sistema imune (deixando os animais mais vulneráveis a infecções, o que por si só já reduz sobrevivência), também aparecem ligados a genes envolvidos em inflamação crônica que são o mesmo mecanismo de fundo que conecta poluição a uma cascata de problemas de saúde em humanos que comentei anteriormente.
A própria mudança de habitat causada pela poluição e pelos agentes poluidores é um efeito indireto que também afeta a reprodução e sobrevivência dos animais. Por exemplo, um curso de água contaminado por agrotóxicos ou metais deixa de ser propício a reprodução de peixes e anfíbios mesmo que o animal sobreviva à exposição; solo degradado por poluentes muda a vegetação que cresce ali, afetando quem depende dela para abrigo ou alimentação; áreas industriais e de mineração alteram a paisagem de um jeito que empurra espécies para fora e contamina seus territórios originais. Essa perda ou degradação de habitat se soma a esses efeitos fisiológicos diretos, e muitas vezes é esse combo que acelera o declínio das populações.
IHU – Quais os riscos que a poluição dos rios e oceanos traz à biodiversidade aquática?
Marina Ziliotto – A água funciona como um meio concentrador, onde os poluentes se acumulam ao invés de se dispersar. O plástico é talvez o poluente mais visível, e sua produção aumentou de maneira preocupante. Animais como tartarugas, aves marinhas, focas e peixes ingerem plástico confundindo com alimento, o que causa bloqueio do trato digestivo e lesão na mucosa estomacal, fazendo com que o bicho morra com o estômago “cheio” de plástico. Além disso, o plástico acumula uma camada de microrganismos na superfície, formando um biofilme. Esse biofilme aumenta a capacidade do plástico de atrair e concentrar metais pesados, que se acumulam na superfície dessas partículas. O acúmulo de plástico por si só gera alteração na paisagem do ambiente aquático, mudando características do sedimento no fundo de rios e oceanos, criando micro-habitats artificiais, podendo reduzir a quantidade de oxigênio disponível na água ao redor dele.
O plástico, com o tempo, se degrada em partículas menores que 5mm e passa a ser chamado de microplástico. Essas partículas já foram encontradas literalmente em todo lugar, inclusive no fundo do oceano e em regiões polares remotas, sendo ingeridas por organismos de pelo menos três grandes grupos taxonômicos diferentes, de zooplâncton a baleias. Além de fator preocupante desse material ser cosmopolita, pela alta razão superfície/volume, ele também funciona como esponja, concentrando poluentes orgânicos persistentes.
Os metais e outros poluentes chegam aos rios via agrotóxicos, esgoto industrial e mineração e se acumulam de um jeito particularmente grave em ambientes aquáticos por causa da biomagnificação, onde cada elo da cadeia alimentar concentra mais poluente do que o anterior, então um predador no topo (um peixe grande, uma ave que se alimenta de peixe) acaba recebendo uma carga concentrada de tudo que os organismos menores acumularam. Por isso, há preocupação ativa em casos como exploração de petróleo, como é o caso da extração na foz do Amazonas, justamente porque um possível vazamento ali se somaria a outras classes de poluentes que já ameaçam essa biodiversidade riquíssima e ainda pouco estudada.
Um exemplo concreto e bem brasileiro desse problema é o uso de mercúrio no garimpo ilegal de ouro, especialmente na Amazônia. Os garimpeiros usam o mercúrio para separar o ouro de outros sedimentos, e boa parte desse mercúrio acaba sendo descartado direto no rio durante a lavagem, gerando um alto nível de contaminação. Como o mercúrio biomagnifica subindo na cadeia alimentar, ele chega concentrado em quem depende desses peixes para se alimentar, incluindo comunidades indígenas e ribeirinhas. Isso faz com que os consumidores finais dos peixes que vivem nesses rios contaminados, como povos como o Yanomami, acabem sendo desproporcionalmente afetados pela contaminação, com os casos mais graves concentrados justamente nas aldeias mais próximas dessas áreas de garimpo. As consequências para essas populações vão de problemas neurológicos em adultos a impactos graves no desenvolvimento das crianças.
A poluição por agrotóxicos e fertilizantes que chega aos ambientes aquáticos pode causar eutrofização, que é o excesso de nutrientes como nitrogênio e fósforo na água, levando a um crescimento explosivo de algas. No processo de morrer e se decompor, consomem praticamente todo o oxigênio dissolvido na água. Isso causa a criação das “zonas mortas”, que são áreas onde a concentração de oxigênio cai e praticamente nada consegue sobreviver ali, forçando peixes e outros organismos móveis a fugirem (quando conseguem) e matando quem não tem essa opção, como moluscos e organismos bentônicos fixos no fundo.
Outro ponto relacionado especificamente aos ecossistemas aquáticos é que eles funcionam como sumidouro natural de quase todo tipo de poluição terrestre. O que é jogado no solo ou no ar eventualmente escoa, infiltra ou precipita na água. Isso significa que rios e oceanos recebem, de forma cumulativa, os efeitos de praticamente todas as outras formas de poluição que a gente já discutiu, o que torna ambientes aquáticos um dos pontos mais críticos e, ao mesmo tempo, mais difíceis de reverter.
IHU – A poluição causada pela mineração traz um risco muito grande para comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas. Quais as principais medidas de proteção que o poder público precisa ter para conter as invasões e proteger seus territórios?
Marina Ziliotto – A mineração gera uma mudança significativa na paisagem, tanto pelo próprio processo de retirada dos minerais quanto pela deflorestação associada e erosão do solo. Além disso, as operações poluem os rios locais através da poluição por metais pesados e produtos químicos utilizados e do assoreamento por sedimentos, o que compromete a qualidade da água, prejudica os ecossistemas aquáticos e afeta diretamente a biodiversidade e as fontes de alimento das comunidades locais.
A poluição do ar também é um problema grave: a extração e o processamento de minerais liberam diversos poluentes na atmosfera, causando problemas respiratórios nas comunidades próximas, enquanto a poeira das operações se espalha por grandes áreas, depositando metais pesados no meio ambiente. A isso se soma a perda de biodiversidade pela destruição de habitats, o impacto climático pelo desmatamento de áreas ricas em carbono, e a fragmentação de habitats causada pela infraestrutura de suporte (estradas, portos e linhas de energia) que interrompe rotas migratórias de animais. Todos esses impactos se agravam ainda pelo risco associado ao gerenciamento de rejeitos, cujo vazamento ou rompimento de barragens pode causar desastres de grande escala. Infelizmente temos exemplos muito recentes desses desastres, como o caso de vazamento de fluído de perfuração durante os testes para exploração de petróleo na foz da Amazônia em janeiro desse ano, e o rompimento das barragens de Mariana em 2015 e Brumadinho em 2019. Insatisfações e questionamentos relacionados a esses projetos já eram levantados por populações originárias e ambientalistas antes mesmo desses acontecimentos, mas foram ignorados em nome do “progresso econômico” que esses processos prometem gerar.
Ou seja, estamos falando de riscos que têm impactos locais profundos, mas que também se estendem de formas difíceis de quantificar. Comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas sofrem a maior parte desses impactos poluentes, diretos e indiretos, apesar de serem comunidades que têm mínima ou negativa contribuição para as emissões de carbono. Um estudo publicado na Science Advances em 2023 mostra que a mineração é o setor que mais frequentemente impacta povos indígenas, sendo responsável por 24,7% de todos os conflitos ambientais envolvendo essas comunidades. Perda de paisagem, perda de meios de vida e desapropriação de terras foram os impactos mais frequentes identificados nos 1.044 conflitos analisados. Esses dados demonstram que não se trata de casos isolados de má prática, mas de características sistêmicas do funcionamento desse modelo de extração.
Apesar de ser uma indústria cada vez mais crescente pela necessidade de minerais na transição energética e, de modo mais preocupante, na área militar, devemos lembrar que não existe mineração que seja completamente sustentável. O poder público, portanto, deve ter isso em mente. A posição frente a propostas de mineração deve ser pessimista e cuidadosa.
Isso passa, em primeiro lugar, por fiscalização rigorosa e produção contínua de dados. Ferramentas como o MapBiomas Mineração são fundamentais para monitorar o avanço nacional das atividades extrativas sobre territórios protegidos e identificar irregularidades. A mitigação da geração de impactos como adoção de padrões ESG, tecnologias de redução de emissões, economia circular e programas de recuperação de áreas degradadas, representam avanços importantes e são essenciais. No entanto, precisamos ser honesto sobre seus limites: essas medidas podem reduzir impactos, mas não os eliminam. Elas tampouco respondem às questões mais estruturais levantadas ao longo dessa conversa, como a violação de direitos territoriais, a perda de identidade cultural, o deslocamento forçado de comunidades e a distribuição profundamente desigual dos custos e benefícios da exploração mineral. Enquanto o debate se concentrar só em eficiência tecnológica e responsabilidade corporativa, as comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas continuarão sendo as mais afetadas e as menos ouvidas.
IHU – Quais consequências a perda de vegetação nativa pode trazer para espécies animais e vegetais?
Marina Ziliotto – A perda de vegetação nativa afeta espécies animais e vegetais principalmente pela destruição do habitat que reduz ou modifica o espaço onde elas conseguem se alimentar, se abrigar e se reproduzir, e isso tem consequências diretas sobre a capacidade de uma população se manter viável ao longo do tempo. Com menos espaço disponível, as populações ficam menores e mais isoladas umas das outras, o que reduz a diversidade genética e torna esses grupos mais vulneráveis a doenças, eventos climáticos extremos e aos efeitos da poluição.
Esse risco fica especialmente grave quando se trata de espécies endêmicas, que são aquelas que existem só numa região específica e em nenhum outro lugar do planeta. Perder o habitat de uma espécie endêmica pode significar a extinção da espécie inteira, e não apenas uma extinção local. Um exemplo disso é a Mata Atlântica, que é um hotspot de biodiversidade justamente por concentrar um número altíssimo de espécies endêmicas, mas que, por ter perdido a maior parte da sua cobertura original, mais de 80% das espécies de árvores exclusivas desse bioma já estão ameaçadas e também carrega o título de bioma brasileiro com maior número de espécies de animais ameaçados de extinção.
A perda de uma espécie vegetal afeta os animais que dependem dela para se alimentar ou se abrigar, e a perda de um animal polinizador ou dispersor de semente afeta a capacidade da flora local de se reproduzir e se espalhar, é cíclico. Quanto menor e mais isolada fica a biodiversidade de uma região, menor é a sua resiliência e menor a capacidade do ecossistema de se recuperar diante de qualquer novo distúrbio como uma seca, um incêndio ou mais uma onda de desmatamento.
IHU – Que tipos de políticas públicas poderiam reduzir a poluição química no Brasil?
Marina Ziliotto – O primeiro ponto que vejo como essencial para lidarmos com a redução da poluição química no Brasil é fiscalização constante com apoio de tecnologia e dados públicos. O MapBiomas, por exemplo, já tem um sistema chamado MapBiomas Alerta, que usa imagens de satélite para detectar desmatamento em tempo quase real e direciona esses alertas para órgãos como Ibama e ICMBio agirem. Na mesma linha, o governo lançou recentemente o Painel de Monitoramento de Agrotóxicos nos Recursos Hídricos, que reúne dados de bacias hidrográficas do país inteiro para acompanhar a presença de pesticidas nos rios.
A segunda é um controle regulatório mais rígido sobre agrotóxicos. Isso é extremamente urgente. O Brasil é o maior consumidor mundial, e o processo de aprovação desses produtos hoje vem sendo flexibilizado em favor da rapidez do agronegócio, em detrimento das avaliações técnicas de saúde e meio ambiente. Existem ainda cerca de 190 ingredientes ativos liberados aqui que já são proibidos na União Europeia. Precisamos reverter essa lógica e se posicionar como um país que leva a saúde das pessoas e a biodiversidade a sério, priorizando critério técnico sobre velocidade de aprovação. Isso seria um passo concreto.
A terceira é infraestrutura de saneamento básico. O Brasil é um país que tem problemas graves referentes ao alcance do saneamento básico. Muita poluição da água no Brasil vem simplesmente de esgoto não tratado sendo despejado direto nos rios, então investir em tratamento de esgoto e resíduos sólidos é uma medida básica, mas que tem impacto importante na diminuição dos efeitos da poluição e em outros aspectos relacionados a saúde humana e ambiental.
A quarta é controle de metais tóxicos e mineração, principalmente o garimpo ilegal. Hoje a legislação brasileira ainda deixa brechas que permitem o uso de mercúrio na extração de ouro sob certas condições, e isso vem sendo usado como porta de entrada para contaminação generalizada em terras indígenas e áreas protegidas. Uma política eficaz aqui precisaria focar em fechar essas brechas legais restringindo de forma mais clara e rastreável o uso de mercúrio, fortalecer a fiscalização em tempo real sobre áreas de garimpo ilegal e responsabilizar toda a cadeia por trás do ouro ilegal, incluindo quem compra e comercializa esse minério sem rastreabilidade de origem.
A quinta segue a mesma lógica da quarta, que é de regulação de poluentes industriais mais recentes, como microplásticos e resíduos de medicamentos, que ainda têm pouca regulamentação específica no país. É necessário estabelecer metas claras de redução na fonte, limitando ou banindo o uso de certos materiais em produtos de consumo; criar sistemas obrigatórios de coleta e descarte adequado para esses resíduos e responsabilizar legalmente as empresas que produzem esses materiais pelo ciclo de vida completo deles, tanto pela fabricação, quanto pelo destino final do produto. Também seria importante incluir esses poluentes emergentes nos programas de monitoramento ambiental já existentes, já que hoje boa parte deles ainda circula no ambiente sem nenhum tipo de acompanhamento sistemático.
Tudo isso depende de ação concreta e contínua. Apesar de termos tecnologias e monitoramento ambiental contínuo, hoje mais de 97% dos alertas de desmatamento no Brasil não têm nenhuma ação de fiscalização registrada depois, segundo dados do MapBiomas. Sabemos também da entrada e uso de diversos agrotóxicos que já são ilegais no país. Mesmo a fiscalização das leis que já existem nem sempre é cumprida, porque faltam monitores e fiscais e os próprios agentes do Ibama, um importante órgão fiscalizador, são alvos recorrentes de ameaças, emboscadas e ataques por parte de madeireiros, garimpeiros e grileiros ilegais, colocando a própria vida em risco.
IHU – Como o consumo de alimentos orgânicos pode contribuir para a redução da poluição agrícola?
Marina Ziliotto – O consumo de alimentos orgânicos contribui para a redução da poluição agrícola principalmente porque cada compra é um voto de demanda por um jeito de produzir que não depende de agrotóxico. Quanto mais gente compra orgânicos, mais vale a pena economicamente para outros produtores migrarem para esse modelo, e menos pressão fica sobre a agricultura que utiliza agrotóxicos para produção.
O cultivo orgânico se utiliza de técnicas como compostagem, rotação de cultura e controle biológico de pragas. Isso evita que resíduos químicos vão para o solo, os rios e para o lençol freático, além disso, tira boa parte da pressão sobre quem vive ali perto, sejam humanos ou animais. O solo também tende a ficar mais saudável e reter mais água, então ocorre menos erosão e menos necessidade de irrigação pesada.
Conforme cresce a demanda e a produção de orgânicos, isso também empurra a inovação e aprimoramento, criando espaço (e incentivo financeiro) para pesquisar e desenvolver novas formas de produzir alimento de um jeito mais sustentável, com técnicas melhores de manejo, novas variedades de plantas naturalmente resistentes a pragas e formas mais eficientes de fazer controle biológico em larga escala. Esse conhecimento vem do próprio produtor, que está ali em contato direto com o alimento, com a terra, observando o que funciona adaptando na prática, abrindo caminho para repensar o sistema de produção como um todo.
Para que esse efeito seja grande de verdade precisa de adesão em massa, preço acessível e políticas públicas de incentivo, porque hoje o orgânico ainda é uma fração pequena do mercado comparado à agricultura que utiliza agrotóxicos no Brasil. Então esse consumo ajuda, sim, sinaliza demanda e apoia o produtor local, mas sozinho não substitui a necessidade de uma transição mais ampla, incluindo aquela regulação mais rígida de agrotóxico que a gente já falou.
IHU – É possível conciliar crescimento econômico com preservação ambiental de forma efetiva?
Marina Ziliotto – É possível, sim, e o Brasil pode ser protagonista nesse tipo de crescimento econômico. Estive recentemente em um evento em que a secretária Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Julia Cruz, falou sobre as metas do ministério para articular políticas públicas focadas na descarbonização industrial, trabalhando junto aos setores mais carbono-intensivos do país para realizar uma transição responsável do nosso modelo de produção atual para um modelo descarbonizado por meio de instrumentos de crédito, incentivos fiscais e mecanismos de defesa comercial que garantam a viabilidade dessa transição.
Outro foco que achei bastante relevante é o de impulsionar a bioindústria e estruturar cadeias produtivas sustentáveis (especialmente na Amazônia). Na prática, isso significa oferecer incentivos financeiros e capacitação para fortalecer cadeias que já existem e fazem sentido socioambiental para a região, como a produção de açaí e cupuaçu na Amazônia, produtos que têm projeção internacional. Investir nessas cadeias é reconhecer e dar protagonismo às populações que já estão inseridas nesse contexto e querem se desenvolver a partir dele, em uma lógica que se aproxima da economia circular de produzir e consumir utilizando os recursos naturais de forma mais eficiente e sustentável ao longo de toda a cadeia produtiva.
Esses exemplos mostram que já existem estruturas institucionais pensando nisso. Vejo nessas propostas um ponto de partida relevante para pensar a relação entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental, mas é certo que apesar de ser um caminho promissor, ainda está em fase de implementação e os resultados concretos estão por ser demonstrados.
Para além disso, acredito que o desafio passa por reimaginar essas possibilidades: definir o que queremos em termos de presente e futuro para além do crescimento econômico, talvez até questionando os próprios parâmetros que usamos para medir progresso e desenvolvimento, e como podemos coexistir de forma sustentável dentro de cada realidade local. Reimaginar é urgente principalmente quando olhamos para as consequências sociais, ambientais e econômicas de seguir operando dentro de um mesmo modelo capitalista que já demonstrou inúmeras vezes sua incapacidade de conciliar esses dois objetivos.
IHU – Gostaria de acrescentar algo mais sobre a sua pesquisa?
Marina Ziliotto – Às vezes, pode parecer confuso discutir poluição porque é difícil falar de um exemplo isolado ou de um material isolado. Um mesmo químico pode agir de maneira completamente diferente dependendo do contexto. Gosto muito dessa característica do assunto, porque ela permite debater essas questões de forma ampliada. Um material plástico pode ser essencial em hospitais, mas se tornar um agente poluidor se descartado incorretamente ou produzido em escala excessiva, por exemplo. Ou, a discussão sobre poluição por mineração ou exploração de petróleo se intensifica em contextos geopolíticos de maior exploração desses recursos.
Vejo três pontos centrais nos estudos relacionados à poluição que influenciam o resultado final: a interação entre diferentes agentes poluidores (porque eles raramente agem isolados, e podem se somar ou se potencializar), os diferentes meios e quantidades de exposição (o mesmo poluente pode ter efeito bem distinto dependendo de chegar pelo ar, pela água ou pelo solo, e em que concentração), e os diferentes organismos expostos (porque cada espécie, e até cada indivíduo dentro da mesma espécie, tem uma capacidade diferente de lidar com aquele agente, seja por características biológicas, comportamentais ou pelo tipo de ambiente em que vive). Não existe uma resposta única e fixa sobre o que um poluente “faz”, porque o efeito final sempre depende de como essas três dimensões se combinam num caso específico.