02 Julho 2026
"Temos que aprofundar os princípios fundantes da fé cristã e que constituem a genuína vitalidade da Igreja, como sacramento universal de salvação e sinal do Reino de Deus entre nós", escreve Matias Soares, pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório-Natal/RN, Capelão da UFRN.
Eis o artigo.
O drama teológico do contemporâneo é que não aprofundamos mais o mistério de Deus. A teologia necessita redescobrir a sua vocação por excelência. Depois que foi preceituado que a religião ficaria limitada pelos ditames da razão, houve a desconstrução sistemática e continuada da necessidade de Deus ao ser humano. A substituição do teológico pelo antropológico nos mancos e miseráveis do objeto da nossa condição transcendental, que está cada vez mais sendo revalidada em nossos dias. Contudo, a questão que se nos impõe é que temos muita religião, mas pouca fé; quando consideramos que é "Deus o objeto da teologia" (Santo Tomás). A partir das construções filosóficas dos "mestres da suspeita" — Freud, Marx, Feuerbach e Nietzsche — tivemos o reconhecimento de como o discurso sobre Deus na passagem da modernidade à pós-modernidade estaria sendo vulnerabilizado na cultura pós-cristã.
O que temos como percepção dos sinais dos novos tempos é que o fenômeno religioso ganha corpo. Está presente nos meios de comunicação, nas periferias das grandes cidades, espaços de poder, como as assembleias legislativas, com as bancadas da bíblia, e outras estruturas institucionais que não podem ser desconsideradas por nós. Contudo, parece-me que precisamos aprofundar essa diferença entre a narrativa religiosa, que permanece no âmbito da construção racional — mesmo tendo presente que para nós cristãos católicos a razão e a fé são duas vias que nos levam ao conhecimento da Verdade. O desenvolvimento teórico elaborado por aqueles "mestres da suspeita" (Paul Ricoeur) encontra força num cristianismo que potencializou os elementos religiosos, que são secundários, depois do distanciamento gradual e histórico do acontecimento central e fundamental do Cristianismo das comunidades primitivas, com sua clarividente experiência do "encontro pessoal com Jesus Cristo" (Bento XVI, Deus Caritas est, 1).
Diante deste cenário, que deveria ser preocupante à nossa pastoralidade e à nossa ação evangelizadora, quero provocar essa reflexão como observador de um cenário, principalmente na ordem sistêmica e social do nosso Brasil, que mesmo sendo de tradição católica, tem tomado cada vez mais elementos que são consumidos para os alívios das frustrações existenciais e sociais, com a sonegação das lideranças religiosas que lucram e são alimentadas por estes métodos pervertidos do mal uso da boa fé das pessoas, principalmente das pobres e abatidas, do "Cristianismo Puro e Simples", ou da "Essência do Cristianismo" (C.S. Lewis; Bruno Forte). Ouso afirmar que, em alguns casos, há mais religião eivada de paganismo. A teologia precisa apresentar esse problema, como uma preocupação pastoral delicada e que poderá nos trazer confusões, tanto para a própria identidade da Igreja, como para o desenvolvimento humano e integral das pessoas e seus reflexos na salubridade do ordenamento social. Temos que aprofundar os princípios fundantes da fé cristã e que constituem a genuína vitalidade da Igreja, como sacramento universal de salvação e sinal do Reino de Deus entre nós.
Sem dúvida, o "estatuto epistemológico" da teologia não pode ser mais construído a partir da lógica medieval. Com a reviravolta copernicana na filosofia da ciência, aprimorada por Immanuel Kant (A Crítica da Razão Pura), que inverteu a pirâmide dos fundamentos do saber, e o reconhecimento deste paradigma pela Igreja já com o Concílio Vaticano II, que colocou o mistério do ser humano, que só é respondido pela Verdade sobre Jesus Cristo (Gaudium et Spes, 22), os rumos da ciência teológica também passam a considerar essa "mudança antropológico-teológica" no desenvolvimento do seu sistema. Sem dúvida, além de outros, merece menção o teólogo Karl Rahner, que representa bem essa reforma dos fundamentos (Curso Fundamental da Fé). Vejamos que há uma evolução que, quando chamamos em causa um outro gigante da teologia moderna, nos ombros do qual deveríamos subir — como o teólogo Teilhard de Chardin —, somos chamados a ter presente que no início e no fim, tudo nos levará ao Cristo Total-Cósmico.
Por fim, merece uma atenção especial da nossa parte a encíclica do Papa Leão XIV, a Magnifica Humanitas. Com ela, a Igreja reconhece que estamos vivendo amplamente — Igreja, sociedade, planeta, cultura — uma nova mudança de época. Tivemos a passagem do teológico ao antropológico; e agora uma outra superação do humano com as narrativas de fundo do transumanismo e pós-humanismo (MH, 115-117). O ensinamento deste formidável documento do Magistério Social tem muito a nos dizer, inclusive ao modo com o qual teremos de pensar o dinamismo da fé nesta nossa Era. A expressão transversalizada pelo filósofo francês Edgar Morin — Complexidade —, recentemente falecido, pode ter um lugar interessante na nossa reflexão teológica, caso queiramos estar situados aos problemas que nos são apresentados; pois estamos em tempos complexos. Enquanto humanos abertos ao transcendente, podemos nos abrir às possibilidades da ciência teológica, a fim de que ela possa ser um farol para fazermos a hermenêutica da história, iluminados pelo que ela genuinamente pode nos oferecer: a abertura da nossa condição humana às possibilidades do Amor e da Verdade que só Deus pode Ser. Assim o seja!
Leia mais
- "O Deus desconhecido": religiões e narrativa de Deus na pós-modernidade
- De Niceia a Teilhard: o elo entre Deus e o Universo. Artigo de Paolo Gamberini
- Viver no mistério. Entrevista com Karl Rahner
- Falar da fé dentro da mudança cultural. Artigo de Rinaldo Paganelli
- Magnifica Humanitas: o que a primeira encíclica do Papa Leão XIV nos alerta sobre a inteligência artificial
- A teologia cristã em paradigma pós-teísta e as inspirações místicas de Teilhard de Chardin
- O que 'Magnifica Humanitas' não entendeu sobre a Torre de Babel, Neemias e IA. Artigo de Cathleen Chopra-McGowan
- A síndrome de Babel e a reconstrução da comunicação humana: uma primeira leitura de Magnifica Humanitas. Artigo de Moisés Sbardelotto
- “Parem a construção de mais uma Torre de Babel”: o apelo de Leão XIV para salvar a humanidade
- Inteligência Artificial e a Igreja: desafios e possibilidades. Conferência de Moisés Sbardelotto
- Vozes e rostos através do espelho da IA: a comunicação digital segundo Leão XIV. Artigo de Moisés Sbardelotto
- Encíclica do Papa Leão XIV: "Vamos desarmar a IA e permanecer humanos"
- Permanecer humanos na era dos algoritmos. Artigo de Andrea Tornielli
- A encíclica de Leão XIV: a IA deve servir à humanidade, não ao poder de poucos
- “Parem a construção de mais uma Torre de Babel”: o apelo de Leão XIV para salvar a humanidade. Artigo de José Manuel Vidal
- ‘Magnifica Humanitas’: inteligência artificial e a urgência de preservar o humano. Artigo de Artigo de Robson Ribeiro
- "Magnifica Humanitas": O Vaticano e o algoritmo. Artigo de Antonio Spadaro
- A encíclica do Papa Leão XIV chega em boa hora: a inteligência artificial levanta questões que só a religião pode responder
- Um novo humanismo na era da Inteligência Artificial. Encíclica do Papa Prevost
- Vaticano tem falado muito sobre inteligência artificial. Um guia introdutório antes da encíclica do Papa
- "Somos um desejo, não um algoritmo!" Papa pede aos jovens da Sapienza que transformem "sua inquietação em profecia"
- Starmer anuncia proibição do uso de redes sociais para menores de 16 anos
- Leão XIV revela sua teologia política na Espanha. Artigo de Thomas Reese