02 Julho 2026
"Existem muitas questões e problemas de nosso tempo sobre os quais Jesus, e, portanto, o homem religioso que crê em Jesus, realmente têm muito a dizer. E se todos os cristãos assumissem publicamente a responsabilidade por eles, o cristianismo certamente exerceria uma influência benéfica muito maior nos assuntos mundiais", escreve Severino Dianich, doutor em teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, em artigo publicado por Settimana News, 28-06-2026.
Eis o artigo.
E por que não?
O evangelista Lucas, ao iniciar a narrativa de sua missão, não deixa de situá-la, com riqueza de detalhes, em um contexto sociopolítico muito específico:
"No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe tetrarca da Itureia e Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene, durante o sumo sacerdócio de Anás e Caifás, a palavra de Deus veio a João, filho de Zacarias, no deserto" (Lc 3,1-2).
A partir de cada um desses nomes, poderíamos começar a desvendar o quadro de uma situação política específica e complexa, na qual os homens de seu tempo e, portanto, ele próprio, estavam inexoravelmente envolvidos.
O que a história conta?
Na verdade, é um absurdo aquela afirmação que às vezes ouvimos, não só em conversas informais, mas também nos mais altos escalões do debate público, de que a religião não tem nada a ver com a política.
Mesmo o budismo, que defende a mortificação dos desejos humanos para alcançar a felicidade e, portanto, certamente não incentiva o ativismo social, desempenhou um papel político significativo em vários momentos da história e continua a fazê-lo em muitas situações específicas. Isso inclui o governante indiano Ashoka, que fez da doutrina budista um princípio de governo, e o Tibete, que, até o século passado, foi governado por uma teocracia liderada pelos Dalai Lamas.
Na Itália, em 1984, a religião oficial foi abolida; no Camboja, em 1993, o Artigo 43 da nova Constituição foi redigido, declarando o budismo como religião oficial.
Alguns até observaram, não sem divertimento, que, ao contrário do que parece, duas teocracias ainda existem no mundo atual: o Tibete e o Vaticano. Além disso, foi somente em meados do século XX que o Imperador Hirohito do Japão assinou um decreto imperial, conhecido como a "Declaração da Humanidade", proclamando oficialmente o fim da doutrina do imperador como um ser divino.
É sabido que a arte política nasceu e se desenvolveu dentro de uma visão de mundo religiosa e foi cultivada nas instituições religiosas de um povo: basta pensar nos faraós do antigo Egito, considerados dotados de uma natureza divina. Garantidores da ordem cósmica, eram vistos como responsáveis pela harmonia entre a natureza, a sociedade e o mundo divino.
O rei da Assíria era considerado um vigário do deus Assur. De fato, teria sido impossível, no início, estabelecer a autoridade e o exercício legítimo do poder sem recorrer ao senso imponente do sagrado.
Até mesmo os romanos chegaram ao ponto de declarar solenemente o imperador Augusto um Divus no Senado, embora ainda sentissem saudade das liberdades da república.
O chamado cristianismo constantiniano, tanto no Oriente quanto no Ocidente, incluindo as igrejas surgidas com a Reforma Protestante, estabeleceu-se plenamente em todos os sistemas de governo dos chamados países "cristãos", ou seja, na Europa e nas Américas.
Trata-se da modernidade em sua maturidade, com a Revolução Francesa, o fim do Antigo Regime, o longo e agora completo processo de secularização, a estabilização do Estado laico e o advento da democracia parlamentar, que marginalizou, senão expulsou radicalmente, do debate político qualquer afirmação verídica de natureza religiosa, como garantia de liberdade religiosa e igualdade entre as religiões. Daí uma espécie de censura, exercida sobre o nome de Jesus, sempre que se discute política.
Somente uma figura política singular, de grande profundidade, como Giorgio La Pira foi na Itália nas décadas de 1960 e 1970 do século passado, poderia se dar ao luxo, e teve a audácia, de proclamar nas ruas, em seus comícios, bem como no parlamento, o futuro advento da Jerusalém celestial.
Essa estranha censura ao nome de Jesus
O curioso é que essa censura também era praticada pelos papas em seus discursos perante a Assembleia Geral das Nações Unidas. Eles sempre apresentavam seus pontos de vista com base nos valores humanos compartilhados por todos, e sequer mencionavam o nome de Jesus.
É fácil entender que os cristãos não apresentaram ali a sua fé na ressurreição de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Simone Weil teria dito, na sua justificação, que "a linguagem da praça pública não é a do quarto nupcial" (Waiting for God, Rusconi, Milão 1984, 51-52).
Menos compreensível é que eles nem sequer propuseram a figura histórica pura e simples de Jesus de Nazaré, sua personalidade e sua história humana, com toda a sua carga de valores que podem ser propostos e compartilhados por todos, independentemente de sua adesão à fé nele como o ressuscitado e o Filho de Deus.
Assim como se citam Montesquieu, Alexis de Tocqueville ou Karl Marx, o que impediria alguém de citar Jesus em um debate parlamentar? A encarnação do Filho de Deus é objeto de fé; a existência e a história de Jesus de Nazaré são objeto de história.
A relutância dos cristãos em introduzir o tema de Jesus no discurso público está enraizada numa espécie de consciência culpada. Depois de séculos exigindo que todas as instituições públicas se conformassem aos ditames da doutrina católica e que a legislação estatal não se desviasse da sua moralidade, parece que ainda não se encontrou o equilíbrio certo entre o desejo de impor os preceitos da fé à legislação estatal, por um lado, e, por outro, a proibição de qualquer proposta religiosa no discurso público. Tudo isto, na verdade, quando Jesus disse: "O que eu vos digo nas trevas, dizei-o à luz do dia; e o que vos é sussurrado, proclamai-o dos telhados" (Mt 10,26-27).
Em sermos cristãos, existe algo secreto, oculto nas profundezas da nossa consciência, que, mesmo que quiséssemos, jamais poderíamos revelar completamente, nem aos outros, nem mesmo a nós mesmos.
É verdade que a fé é uma atitude interior, escolhida livremente, em consciência, por cada indivíduo em seu íntimo, mas isso não significa que se deva a um desfrute íntimo e individualista. Se a pregação de Jesus tivesse sido dessa natureza, ninguém se daria ao trabalho de eliminá-lo violentamente da cena pública.
A fé cristã possui um valor social e político essencial e decisivo: "Pregue-a dos telhados". O fato de, ao longo da história, a fé ter sido frequentemente explorada de forma vulgar por aqueles que a proclamam publicamente, para servir aos seus próprios interesses, não é motivo para que ela seja reduzida aos sussurros de crentes falando entre si.
Relendo os Evangelhos
Bastaria pegar um dos quatro Evangelhos e folheá-lo desde a primeira página para notar quantas vezes, e com que sugestões, ele aborda temas e problemas eminentemente políticos ou que têm implicações políticas.
Já no fato de Lucas, no início de seu texto, narrar o nascimento de Jesus em Belém, em uma situação extraordinária de dificuldades e pobreza, o problema político mais decisivo e dramático, o da distribuição desigual da riqueza, irrompe na manifestação de Jesus ao mundo.
O fato de os Magos terem vindo do Extremo Oriente para adorá-lo abriu imediatamente seus horizontes para uma visão de humanidade que transcendia fronteiras; o fato de Herodes querer eliminar a criança foi uma denúncia, gritada aos quatro ventos, dos usos injustos do poder, e assim por diante.
A questão do poder, além disso, surge explicitamente para Jesus durante seu retiro no deserto, antes de iniciar sua missão. Longos dias de oração e reflexão: um tempo para decisões e o tormento da dúvida, da incerteza sobre o caminho a seguir. Ele poderia ter despertado o entusiasmo do povo, atraído-o para si, conquistado o poder e estabelecido o Reino de Deus na Terra. Mas tornou-se claro para ele: essas eram tentações satânicas.
Nem vamos mencionar a declaração de Jesus sobre o que poderia ser definido como o princípio político cristão fundamental: "Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mt 22,21).
Em última análise, devemos enfatizar a absoluta necessidade de não ceder à tentação de restringir, mesmo as mais mínimas referências ao Evangelho, a esta ou aquela posição, ou a este ou aquele partido. Em vez disso, ele deve se tornar o princípio fundamental de cada proposta apresentada em debate público.
Em conclusão, existem muitas questões e problemas de nosso tempo sobre os quais Jesus, e, portanto, o homem religioso que crê em Jesus, realmente têm muito a dizer. E se todos os cristãos assumissem publicamente a responsabilidade por eles, o cristianismo certamente exerceria uma influência benéfica muito maior nos assuntos mundiais.
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