Do Rio Tramandaí ao Tapajós: da proteção científica da universidade colonial até o ponto de não retorno. Artigo de Stella Petry

Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

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09 Abril 2026

Desde o que se entende por pesquisa científica para o desenvolvimento ter começado no Brasil, não existem mecanismos para garantir que a ciência impulsione o país para a soberania.

O artigo é de Stella Petry, ume(a) estudante do curso de licenciatura em história do 3° período da Unisinos.

Eis o artigo.

Optando por esse tema eu imaginei que não seria difícil de se lembrar de uma ofensiva contra o meio ambiente nos últimos meses e anos. Mas ai de, se uma década atrás, guardasse algo impactante na memória coletiva nacional no século XXI, era difícil!

A reflexão que trago veio à mente em virtude de muitos desses casos acontecerem no Rio Grande do Sul, na tentativa de contaminação do Rio Tramandaí, além do Rio Madeira e Tapajós em seu maior acirramento de intervenção externa e outros cinismos políticos. Me proponho discutir nossa posição desfavorecida na Divisão Internacional do Trabalho (DIT), como isso afeta nossa desunião entre conhecimento científico e pertencimento nacional e como promover uma unificação em torno da soberania nacional. Posso ser considerado suspeito ao julgar pelo meu interesse em trazer este assunto, se lembrar da disputa que eu toco a um tempo no meu município Montenegro contra a lisura do plebiscito popular sobre (não) instalação da PROAMB e seu lixão industrial (à propósito, depósito de todo os resíduos industriais do estado do Rio Grande do Sul). Existem conteúdos explicativos sobre projetos de “contenção” de cheias, sobre dragagem de rios do estado e o despejo de esgoto no Rio Tramandaí.

Transição gradual e… segura?

15 de março de 1974, governo Ernesto Geisel, no discurso de abertura do mandato, foi acenado para o povo brasileiro uma mudança nos marcos do governo militar, em que por ora se reproduzia o princípio do consumo dos produtos estrangeiros e a reflexão das estruturas tecnológicas, o que, considerando a antiga e nova lógica da DIT, (propiciando assim os famosos e arquetípicos valores de submissão dentro daquela cultura) proporcionou a inspiração de acadêmicos brasileiros na Academia Francesa de Ciências, a entidade abrangia três seções: a de Matemática, a das Ciências Físico-Químicas e das Ciências Biológicas; passou a ter seu financiamento e regulamentação dos estudos científicos desde a sua criação em 1916 (sendo regulamentada por um dos Decretos de Utilidade Pública em 1920, que reconhece instituições filantrópicas e técnicas ou desapropriações) e influenciou a criação do Instituto Butantan, Vital Brazil, Fiocruz e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, (SBPC) todas baseadas em instituições similares no norte global.

Isso tudo afeta de maneira significativa a nossa soberania atualmente, pois veio à custa da marginalização da força de trabalho, o que, de quebra, nos ajudará mais à frente a entender o mito de que qualquer política pública é boa. Dito isso, vamos à história: registros coloniais Hispanos-americanos e ingleses/portugueses apontam para a criação de universidades desde a colonização, chegando a estabelecer 28 células no continente inteiro, a maioria com forte influência jesuítica e dominicana, até os momentos de ruptura com as metrópoles ultramarinas (RIBEIRO, 1969).

Sob esse prisma estrangeiro, as universidades foram fisiologicamente se desenvolvendo em torno do que pode ser reconstruído facilmente através de discursos acadêmicos proferidos à época e repetidos até hoje:

“Esta imagem mirífica da universidade [...] comunidades fraternais de mestres e estudantes, ou que são corporações de sábios e uma série de outros postulados. Dentre êles, se destacam, por sua reiteração, a definição da universidade como uma instituição destinada a cultivar e fazer florescer o espírito humano em suas formas mais criativas; a desenvolver no corpo discente a consciência de sua dignidade humana, o zêlo por sua liberdade espiritual e os sentimentos mais profundos de tolerância, de serenidade, de justiça e de eqüanimidade; a alcançar para suas pátrias a prosperidade material juntamente com a felicidade espiritual, a alegria intelectual e a tranqüilidade moral.”
[...]

“a) üm conglomerado de estabelecimentos docentes que habilita uma parte da juventude, recrutada entre as camadas mais altas, para o exercício das profissões liberais, com o objetivo de cumprir atividades de govêrno, de produção e diversas modalidades de serviços indispensáveis ao funcionamento da vida social.
b) a instituição social que consagra e difunde a ideologia da classe dominante, contribuindo assim para a consolidação da ordem vigente.”

(RIBEIRO, Darcy. A Universidade necessária. 1969, p. 80 e p. 81)

Dessa maneira há de se reconhecer a matriz do despertencimento e distanciamento do espaço acadêmico da vida cotidiana, seja qual for a região habitante. existem estudos para demonstrar que as Universidades e academias, ainda aquelas que foram reconhecidas pela própria UNESCO, apropriadas pelos marcos do cultivo de saber e estudo científico e tecnológico, definidos pela estrutura universitária tradicional da América Latina, isto é, por suas exigências de formação profissionalista e pela dispersão de recursos materiais e humanos em cada setor, sob a forma de múltiplos e pequenos núcleos, instalados em cada unidade docente em que seu ensino seja requerido (RIBEIRO, 1969, p. 100).

Ainda seguindo essa linha de pensamento do autor, explicando a continuidade dessa lógica universitária, um pouco antes das independências das colônias, há de reconhecer que tinha começado amplamente no mundo o derretimento das estruturas do neocolonialismo e os Conselhos das Índias e donos de terras foram se emancipando cada vez mais do poder temporal, que vinha das coroas e da Igreja Católica à medida em que se pudesse manipular mais capital. Para tanto, Darcy destaca lucidamente a constituição elitista e de clientela política que se produziu desde então:

A função universitária de preparação de quadros especializados de nível superior, necessários para atuar na vida social, depende freqüentemente de grupos de clientela que devem fidelidade prioritàriamente aos grupos internos, secundàriamente às clientelas gremiais e, muito longinqüamente, às exigências da sociedade nacional e seus requisitos de desenvolvimento. Cada vez que se reclama a criação de uma nova linha de formação profissional é necessário montar outra entidade fechada, dotada de todos os recursos para dar a seus estudantes uma preparação integral. Simultâneamente, forma-se um nôvo grupo e vai-se constituindo uma nova clientela profissional, ambas zelosas de seus privilégios diante da sociedade total.”(RIBEIRO, 1969, p. 95)

Ainda em consonância, ele assinala a existência da produção de cursos de graduação para níveis de formação de 3ª, 2ª e 1ª categoria localizados e/ou para trabalhar nos Estados Unidos (p. 95 e p. 120)

Desta forma, muitas das razões solenemente invocadas em defesa do padrão acadêmico de pesquisa e de ensino apenas disfarçaram (e disfarçam) interesses inconfessáveis de corpos docentes, apenas interessados em defender seu empregos, área de poder/prestígio ou interesses gremiais, que não desejavam ver seus quadros sendo ampliados (p. 95).

Visão de rapina: roubar e fugir

Agora caribenho e o latino-americano já sabem aprofundadamente como é ter sua produção subjetiva roubada. Por isso, iremos desconstruir o processo de acumulação feito sobre a gestão dos recursos naturais no Brasil, como o saber científico do Brasil é manipulado pelo tripé universidade colonial, agronegócio e rentismo, do Rio Tapajós ao Tramandaí.

Destarte, na nova caminhada da burguesia “latina”, (sobretudo a brasileira) Florestan Fernandes destaca o processo de dominação política e econômica chamada “Revolução Passiva”, eliminando aspectos do sistema servil para evitar comoção social e assim tomar e gerir o latifúndio com mais facilidade.

Com a queda do império do café, houve uma fusão de interesses entre a velha oligarquia agroexportadora e a nascente burguesia industrial. O mesmo autor destaca que a burguesia brasileira abriu mão de ser uma classe "dirigente" plena, aceitando uma posição subalterna ao capital internacional em troca de manutenção do poder interno. Além disso, a partir da ditadura militar e, posteriormente, nos anos 90, houve uma forte concentração de capital e o surgimento de grandes grupos financeiros nacionais, que hoje exercem enorme influência sobre a política econômica e o Estado; dessa forma as pesquisas e produção de fármacos e equipamentos de 2º setor, vindas do investimento do capital obtido no café no desenvolvimento parcial do complexo econômico industrial, (com forte responsabilidade estatal cara e sem retorno imediato) aliada a fortes tarifas de importação e empréstimos subsidiados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES, sendo assim um grande amigo sócio e protetor) e agentes externos, sendo o Banco Mundial, (mecanismo de patrocínio aos projetos de dependência mundial) e o Security Exchange Comission, (SEC) grandes estruturas de pressão política e econômica para a especulação e rendimento constante do capital financeiro internacional às custas da manutenção de estruturas arcaicas dentro das economias subdesenvolvidas, são comprometidas a ficarem insuficientes sob a gestão neoliberal brasileira, que depende de equipamentos e ingredientes de fármacos.

“Segundo o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, (UFRRJ) houve uma reestruturação do sistema financeiro nacional logo no primeiro governo ditatorial, com o Castelo Branco. Entre as reformulações, estavam as criações do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional e também do mercado de capitais”, (BARBO, Sergio. Entre a Bolsa de Valores e a repressão. aPública, 01/04/2026).

A SEC ficou conhecida pelo Comissão de Valores Imobiliários dos EUA, foi instituída pelo Security Exchange Act de 1934, supervisionando valores mobiliários, incluindo bolsas, corretoras e dealers, interferindo na gestão e distribuição de dividendos de várias empresas internas e estrangeiras, como a Petrobrás, Eletrobrás e Sabesp.

Mas existe um fator, no mínimo, curioso: cadê os sujeitos dessas organizações privadas nos Power Points de escândalos de corrupção e até má gestão de empreendimentos? De forma geral, somente os governantes, que fortemente podem também ter ligação ou fazer parte desses grupos, são os principais culpados pela mídia dominante.

A ofensiva do governo sobre o Rio Tapajós e o rompimento da barragem de Mariana estão aí para ilustrar! Tratando do primeiro, o decreto 12.600, que previa a inclusão de rios no Programa Nacional de Desestatização (PND) é a cereja de um bolo cuja massa vem sendo sovada e assada desde o governo Fernando Henrique Cardoso (FAGUNDES, Clara. Tapajós, Madeira e Tocantins: “Devemos gratidão aos povos indígenas”. OUTRA SAÚDE, 24/02/2026). O OUTRAS MÍDIAS retrata esse projeto nos aspectos da concessão governamental:

“O Mpor, em parceria com a Antaq, a estatal Infra S.A. e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), conduz os estudos técnicos para estruturar os projetos de concessão das hidrovias. Segundo o governo, a promessa é modernizar a navegação e reduzir custos logísticos no transporte de grãos e minérios do Mato Grosso para o chamado Arco Norte, complexos de transporte rodoviário, ferroviário e hidroviário responsáveis pelo escoamento dessas cargas e insumos pelos portos ao Norte do Brasil.”

“Outras obras que ameaçam a vida e os territórios dos povos tradicionais da Amazônia estão na rota do Arco Norte, como a construção da ferrovia conhecida como Ferrogrão e a ampliação do asfaltamento da BR-163, considerada rota essencial para o escoamento da produção do agronegócio da região Centro-Oeste, com acesso direto ao porto de Miritituba (PA). Os principais investidores portuários privados do Arco Norte incluem grandes corporações do agronegócio e mineradoras como Hydro, Alunorte, Bunge, Cargill, Grupo André Maggi e Vale.”

Ao que se expressa no texto, observemos a ampla operância privada sobre todos os eixos do investimento, considerando a atuação do lobby estrangeiro e “nacional” no desenvolvimento do projeto, que vive sob a ameaça do pânico midiático sanção estrangeira, suspensão de dividendos a elementos do governo e etc, o que promove discursos e ações privatistas e entreguistas, disfarçados de modernização e tecnicidade de Estudos de Impacto (destruição) Ambiental e Relatórios de Impacto Ambiental, (EIA-RIMA) aparecendo como justificativas de bom-mocismo que caduca de falsidade.

Devemos marcar na nossa memória coletiva as vítimas vivas e mortas de Mariana (MG), que atualmente são caçoados pela Samarco e seu plano de quadruplicação de sua produção de minério até 2028, envolvendo a construção de grandes pilhas de rejeitos a 500 metros do subdistrito de Camargos.

Como unir a ciência e o patriotismo no Brasil

Antes de destrincharmos o conteúdo social e programático do nosso objetivo, devo manifestar o que considero como avanço importante, dentro das academias, para o avanço social na construção de um pensamento popular e crítico à ordem atual das coisas. Destaco que existem, no grosso modo, dois eixos estruturantes do pensamento anticolonial, principal elemento da luta anticapitalista brasileira em várias das suas dimensões, são a decolonialidade e uma espécie de junção do pensamento fanoniano e mariáteguismo.

De forma resumida a decolonialidade produziu uma certa forma de haste de cabideiro do pós-modernismo (ou seja, preconiza uma quebra no paradigma) e voltado para a universidade, ele produz elementos da nova era de crítica à imposição cultural com ecos do pensamento pós-colonial, (conhecidos como subaltern studies, há a premissa de que o problema colonial continua mesmo depois das lutas de libertação nacional e as independências) o que acaba dispondo um arcabouço de marcos teóricos sobre a formação da identidade, no entanto promove uma lógica de separação essencialista entre os pensamentos da europa (supostamente incapaz de produzir coordenadas para formação de um pensamento crítico) e da América-latina.

Nesse aspecto, é onde se encontra o ponto de ruptura entre o pensamento decolonial com pós-colonial e dissonância com o pensamento fanoniano-mariateguismo: esses dois últimos entendem a modernidade de forma heterogênea, ou seja, reconhece que a realidade, apesar de essencialmente ser realçada pelas estruturas coloniais, dispõe de vários elementos antagônicos, como o conflito entre indígenas e a burguesia da soja e do minério, o que permite, em larga medida, entender a sociedade em sua quase totalidade, assim permitindo a crítica e produção de uma práxis de ruptura do status-quo. Além disso, esse pensamento mais adaptado, reflete o reconhecimento da importância da descolonização mental, antirracismo e organização dos camponeses, indígenas e citadinos para tal mudança. Atualmente, arrisco dizer que esta visão universitária está largamente inserida na (ou próxima a) operância de grande parte do movimento operário e estudantil, (ambos acalentados historicamente pelo machismo e racismo) com virtude de inversão de valores; é como se a dimensão protagônica do debate identitário, que em si já apresenta defeitos, fosse uma correspondência da certa proeminência do debate classista; destarte, esquecem que a identidade (e suas contradições) moderna e contemporânea é tão heterogênea quanto as disputas no debate classista, de tal forma que não buscam debruçar-se na totalidade dos seres sociais para dialogar.

Para mudar a correlação de forças no Brasil entre despossuídos e possuidores dominantes devemos promover a desestruturação da lógica “pedestalizada” do corpo intelectual brasileiro e construir estratégias de união social entre todos os grupos sociais e políticos (anticapitalistas) para estandardizar o movimento de contragolpe à classe dominante brasileira.

Dito isso, para unificar as ideias dispostas acima, é necessária uma larga consideração dos estudos sistemáticos ambientais realizado pelos institutos, sobre agentes farmacêuticos, a potencialização da ciência a partir da quebra de patentes, previsões do clima em 2040, ignorados pelo governo Dilma em 2015, e ver neles o potencial de concentrar não só o discurso de teor crítico como também a prática crítica ao legado colonial da institucionalidade, influenciando o debate acadêmico e nacional com a junção das organizações sociais em luta.

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