25 Março 2026
"A incapacidade de integrar a sexualidade pode levar à rigidez antropológica: uma teologia do corpo e uma moralidade sexual vivenciadas não como uma proposta libertadora, mas como um sistema de controle, no qual o conflito interno é projetado externamente na forma de julgamento", escreve Giorgio Bozza, professor permanente de Teologia Moral no ISSR de Pádua e na Faculdade de Teologia de Triveneto, em artigo publicado por Settimana News, 26-03-2026.
Eis o artigo.
Existe uma tensão profunda no âmago da vida consagrada que raramente é mencionada abertamente: a presença de homossexuais entre padres e religiosos, e o silêncio quase total que envolve essa realidade. Isso não é segredo — psicólogos, educadores, sociólogos, teólogos e qualquer pessoa familiarizada com o funcionamento interno das instituições eclesiásticas estão cientes disso — mas trata-se de um silêncio estrutural que produz consequências concretas e, muitas vezes, dolorosas.
O paradoxo é evidente: a Igreja fez progressos significativos no reconhecimento da dignidade das pessoas homossexuais no mundo laico. O Catecismo fala do acolhimento dos homossexuais com respeito e sensibilidade, a Amoris Laetitia de Francisco abriu espaços para um discernimento pastoral mais amplo, e documentos recentes como a Fiducia Supplicans expandiram ainda mais esses limites. No entanto, dentro das estruturas eclesiais, reina um duplo silêncio: um imposto pela instituição e outro internalizado pelo próprio indivíduo.
A sexualidade como uma dimensão constitutiva e não acessória
A sexualidade não é uma característica opcional da existência humana. Não é uma função biológica separável do resto da pessoa, nem uma mera característica comportamental que possa ser simplesmente "desativada" com um voto ou uma promessa. A psicologia contemporânea — assim como a antropologia teológica séria — reconhece que a sexualidade é uma forma de estar no mundo : a maneira como nos relacionamos, desejamos, criamos laços com os outros, construímos intimidade e vivenciamos a vulnerabilidade. Ela permeia nossa afetividade, nosso corpo e nossa espiritualidade.
Dizer que uma pessoa é homossexual – ou heterossexual – não descreve apenas por quem ela sente atração sexual, mas algo mais profundo: uma estrutura relacional do eu.
Isso significa que o voto/promessa de celibato — que diz respeito ao comportamento sexual e à renúncia à vida matrimonial — não afeta, e não pode afetar, a orientação sexual. Um padre homossexual continua sendo homossexual após a ordenação, assim como antes. A questão não é se essa dimensão existe, mas como ela é vivenciada, integrada e reconhecida.
A falta de reconhecimento como uma ferida psicológica e espiritual
Aqui emerge a dinâmica mais crítica. A psicologia que estuda a identidade demonstrou que o reconhecimento é uma necessidade fundamental do desenvolvimento humano: não somos indivíduos isolados que constroem sua identidade do zero, mas seres que se constituem através do olhar dos outros. A filosofia do reconhecimento, portanto, demonstrou como a negação do reconhecimento produz conflitos, distorções do eu e dinâmicas de humilhação internalizada.
Aplicando essas teorias ao nosso tema, o seguinte mecanismo é desencadeado: um religioso ou religiosa homossexual que vive em uma instituição que estruturalmente nega ou minimiza sua identidade encontra-se em um estado de cisão identitária. São chamados a vivenciar a integração evangélica da pessoa — que é o cerne da vida consagrada — enquanto uma dimensão fundamental de si mesmos permanece nas sombras, inominável, incompartilhável e inintegrável.
As consequências dessa cisão não são neutras. Se a vergonha sentida por essa situação for internalizada, ela produz uma relação conflituosa com o próprio corpo e com o desejo, que não desaparecem, mas são reprimidos ou dissociados. A busca por compensação emocional pode se traduzir em rigidez doutrinal, escrúpulos morais ou, inversamente, em uma vida dupla que vive nas sombras o que nega à luz. Por fim, a solidão estrutural — a incapacidade de compartilhar autenticamente as próprias experiências com o superior e os companheiros monges — isola a pessoa de uma maneira que vai muito além da solidão fisiológica do celibato.
“Derivativos” como sintoma de integração falhada
Não se trata de fazer um julgamento moral sobre as pessoas, mas de constatar um fato: aquilo que não é integrado retorna, frequentemente de forma distorcida.
A história da psicologia – desde Freud, com todas as revisões críticas necessárias – documentou abundantemente o mecanismo da formação reativa : o sujeito que não consegue aceitar uma parte de si mesmo tende a combatê-la com particular acrimônia.
A incapacidade de integrar a sexualidade pode levar à rigidez antropológica: uma teologia do corpo e uma moralidade sexual vivenciadas não como uma proposta libertadora, mas como um sistema de controle, no qual o conflito interno é projetado externamente na forma de julgamento.
Fala-se também de uma dependência da autoridade e do papel: quando a identidade pessoal não está integrada, o papel institucional torna-se a única fonte de autoestima e reconhecimento, produzindo formas de clericalismo e entrincheiramento no poder. Além disso, existem dificuldades nas relações de cuidado: o sacerdote ou religioso que não fez as pazes com a sua própria afetividade tem dificuldade em interagir com a afetividade dos outros de forma livre e não compulsiva.
Celibato integrado versus celibato reprimido
Vale a pena fazer uma distinção clara. O problema não é o celibato em si, nem a homossexualidade em si. O problema é o celibato não integrado, que é algo diferente.
O celibato verdadeiramente livre — o que a tradição espiritual descreve como um "dom" e não apenas uma renúncia — pressupõe que a pessoa tenha se reconciliado com sua afetividade e sexualidade, e não que as tenha reprimido. Os grandes místicos e pastores da história cristã foram pessoas de extraordinária intensidade afetiva: Agostinho, Francisco, Teresa de Ávila, Dom Bosco. Sua castidade foi fecunda precisamente porque não se tratava da negação do desejo, mas de sua transformação consciente.
Este caminho de integração é possível para uma pessoa homossexual consagrada, mas exige que ela se reconheça como é, encontre espaços para partilha autêntica e desenvolva uma linguagem interior que não seja composta apenas de culpa e silêncio. Onde este espaço não existe — seja na formação, na direção espiritual ou na vida comunitária — o celibato corre o risco de se tornar não uma forma de liberdade, mas uma forma de autoaniquilação disfarçada de virtude.
Em direção a uma proposta: a coragem do reconhecimento
O que significa levar essa realidade a sério em nível institucional?
Significa ter a coragem de promover um discurso eclesial adulto sobre a identidade sexual de homens e mulheres consagrados: não para resolver questões doutrinais que permanecem em aberto e complexas, mas para remover o peso do silêncio e da invisibilidade de pessoas que muitas vezes servem à Igreja com grande dedicação e que merecem fazê-lo íntegros, e não fragmentados.
As instituições que afirmam prescindir de uma dimensão fundamental da realidade humana, porém, não a eliminam; simplesmente a expulsam, e ela retorna pela janela em formas menos controláveis. A Igreja, que tem em seu âmago uma visão da encarnação — Deus que leva a sério a carne, a vulnerabilidade, a concretude da humanidade — possui, de fato, os recursos teológicos para enfrentar esse desafio com mais ousadia do que tem feito até agora.
Não se trata de mudar doutrinas, nem de resolver todas as tensões teológicas de uma só vez. Trata-se de parar de fingir que o problema não existe e acreditar que a verdade — mesmo a incômoda — é, em última análise, mais libertadora do que o silêncio.
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