27 Novembro 2025
"A parte mais difícil [do resgate de corpos em Gaza] não é apenas o peso dos escombros, mas o peso do próprio momento: quando ouvem a voz de uma criança pedindo socorro debaixo do concreto e não têm as ferramentas adequadas para alcançá-la rapidamente".
O artigo é de Eman Abu Zayed, escritor palestino, publicado por Il Manifesto, 26-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Terra devastada. Israel bloqueia o maquinário necessário para o resgate, as famílias em suspenso numa espera insuportável. A impotência dos socorristas, obrigados a cavar com as próprias mãos ou ferramentas rudimentares.
Desde a fase inicial da guerra em Gaza, dados do Ministério da Saúde indicam que mais de 7.000 pessoas estão presumivelmente soterradas sob os escombros. Entre elas, aproximadamente 3.600 famílias denunciaram o desaparecimento de seus familiares, uma imensa tragédia humana que vai muito além do número oficial das vítimas.
Em meio a esses números dolorosos, eu também carrego parte dessa tragédia. A família do meu pai está entre os desaparecidos sob os escombros desde os primeiros meses da guerra. Dez pessoas, entre as quais crianças, ainda estão lá, sem que tenhamos podido nos despedir. Até hoje, não conseguimos garantir-lhes um enterro digno, nem rezar por elas; não há túmulo para visitar, nem qualquer lugar que possa aliviar o peso dessa perda. Esperar meses por um sinal, uma notícia, uma pista, é uma dor que não aparece em nenhuma estatística, mas faz parte da vida de qualquer pessoa que ainda tem alguém sob os escombros.
As equipes de resgate em Gaza trabalham numa das condições humanitárias mais difíceis do mundo. Para chegar aos desaparecidos, é necessário maquinário pesado para levantar e remover os escombros, mas a maior parte desse equipamento está indisponível ou fora de uso devido aos bombardeios, à falta de combustível e à falta de peças de reposição. Muitos prédios desabaram uns sobre os outros, criando enormes camadas de concreto impossíveis de penetrar com ferramentas rudimentares. Além disso, as zonas de busca são frequentemente bombardeadas, obrigando os socorristas a parar ou recuar para proteger suas vidas. A recuperação extremamente difícil e lenta dos desaparecidos deixa milhares de famílias em uma espera angustiante.
Em uma breve conversa com Mohammed al-Madhoun, um dos socorristas, o cansaço em sua voz era evidente mesmo antes das palavras. Ele me contou que a parte mais difícil não é apenas o peso dos escombros, mas o peso do próprio momento: quando ouvem a voz de uma criança pedindo socorro debaixo do concreto e não têm as ferramentas adequadas para alcançá-la rapidamente.
Muitas operações são realizadas com as próprias mãos ou com ferramentas muito simples, completamente inadequadas diante da dimensão da catástrofe, e ainda assim continuam tentando, um passo de cada vez. Mohammed me contou sobre as horas passadas com seus colegas nas zonas bombardeadas, movendo-se apesar de saber que cada momento poderia ser o último. Mesmo assim, eles sempre se dirigem para lugares onde acham que possa haver crianças, convencidos de que salvar uma única vida vale qualquer risco.
Ele descreveu seus companheiros como pessoas que "entram nos locais como se estivessem entrando em suas casas", sem outro pensamento além de alcançar aquela voz, aquela respiração escondida entre os escombros. Esforços extraordinários foram mobilizados para recuperar os restos mortais de vinte e oito israelenses, enquanto milhares de palestinos permanecem sob os escombros sem equipes de resgate, sem meios, sem o menor interesse global. Essa disparidade reflete não apenas um preconceito político, mas uma ideia hierárquica do valor humano, na qual a vida de alguns recebe prioridade absoluta, enquanto a de outros é deixada a um destino silencioso, percebido apenas por suas famílias.
Uma injustiça que afeta profundamente o lado psicológico das pessoas, obrigadas a viver entre perda e incerteza, privadas até mesmo do direito básico de enterrar seus entes queridos, como se suas mortes não merecessem reconhecimento nem compaixão. Deixar milhares de vítimas sob os escombros não é um destino inevitável, mas o resultado direto da ausência de justiça e da decisão do mundo de fechar os olhos diante do sofrimento de um povo que pede apenas dignidade.
Há uma necessidade urgente de mecanismos humanitários independentes e de uma intervenção internacional para acabar com essa desigualdade e que restitua aos mortos o direito de serem encontrados, identificados e sepultados com dignidade. Restituir a dignidade aos mortos é o primeiro passo para restitui-la aos vivos e para construir uma memória fundada não na negação, mas no reconhecimento e na justiça.
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