29 Novembro 2025
"Daí a prioridade da missão da Igreja: em todos os tempos, certamente, mas de modo particular neste tempo. Trata-se – como afirma o papa Francisco na Evangelii gaudium – de concentrar o anúncio do Evangelho no essencial, naquilo que é mais belo, mais grande, mais atraente e ao mesmo tempo mais necessário (35). O kerygma é trinitário", escreve Piero Coda, secretário da Comissão Teológica Internacional, em artigo publicado por Settimana News, 26-11-2025. O artigo foi publicado originalmente no blog da Editrice Queriniana Teologi@Internet (15 de novembro de 2025).
Eis o artigo.
A viagem do papa Leão XIV à Turquia coroa, por assim dizer, o aniversário dos 1700 anos do Concílio de Niceia, celebrado em várias ocasiões ao longo de todo o ano de 2025. Pedimos a Piero Coda, secretário-geral da Comissão Teológica Internacional, uma síntese deste ano de comemorações, para que permaneçam claros o sentido e o legado daquele primeiro e decisivo evento eclesial. No coração da policrise em que hoje nos encontramos e que continuamente nos pressiona, o olhar do pensamento parece ter ficado cego. Assim escreve um intérprete lúcido do nosso tempo como Edgar Morin. Com que luz será possível reacendê-lo?
Reacender o olho da Igreja
Fazer memória do Concílio de Niceia, 1.700 anos após sua celebração, revelou-se para a Igreja, ao longo deste ano, uma graça e uma responsabilidade: o chamado a dar testemunho, com fidelidade criativa e incisividade histórica, daquela luz que em Niceia – escreve São Gregório, o Teólogo, lembrando a intrépida testemunha de Santo Atanásio de Alexandria – acendeu o santíssimo olho da ecúmena (Oratio 25, PG 35, 1213 A). Tanto que a próxima peregrinação do papa Leão a İznik (a antiga Niceia), em 28 de novembro, com a assinatura conjunta prevista com o patriarca Bartolomeu de uma Declaração no dia seguinte, anuncia-se como o selo desse percurso.

Se existe uma prioridade na missão que Deus confiou à Igreja, é aquela indicada pelo vidente do Apocalipse: Eu te aconselho a comprar de mim colírio para ungir os teus olhos, a fim de que possas ver (3,18). O olho que vê foi aceso uma vez por todas por Jesus, a luz do mundo (cf. Jo 8,12). A comunidade apostólica testemunha isso desde o princípio (cf. 1 Jo 1,1): Nós contemplamos sua glória, glória do Filho único do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo 1,14b). E é de Jesus que a Igreja recebe sempre novamente o colírio para ungir seus olhos e renovar seu olhar.
Ora, a luz testemunhada pela fé apostólica em Niceia foi publicamente assumida e proposta pela Igreja una como o olho com o qual, em Cristo, se pode contemplar o rosto do Deus que ninguém jamais viu, e com essa luz nos olhos é possível compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer a ágape de Cristo que supera toda ciência (Ef 3,18-19).
O Símbolo niceno possui, portanto, uma relevância específica na configuração da identidade da Igreja, promovendo sua missão ao corresponder, com a profissão da reta fé, ao evento de Jesus Cristo e ao mistério do Deus vivo, uno e trino, que Ele revela em si mesmo para nos fazer participantes da natureza divina (2 Pe 1,4). E justamente por isso tem também uma relevância decisiva em termos culturais e sociais: porque expressa e promove a transformação do pensamento e da prática que brotam da vinda de Jesus e da inserção da existência humana no mistério do Deus vivo.
Disso deram testemunho, ao longo do ano, entre outros, o documento da Comissão Teológica Internacional Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador e o volume da Editrice Queriniana Recomeçar de Niceia. Para ler a fé dentro de novos horizontes, que tive o prazer de organizar com Stefano Fenaroli, seu idealizador e cuidadoso articulador.
Uma metanoia da linguagem
Como escreve o apóstolo Paulo, se é verdade que o Espírito perscruta tudo, até as profundidades de Deus (1 Cor 2,10), o que implica que não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito de Deus para conhecer o que Deus nos concedeu (2,12)? Significa – responde o apóstolo – que temos o nûs, a mente, o pensamento de Cristo (2,16): sendo chamados a exercer no mundo a sua mesma phrónesis, seu modo de pensar e agir segundo o coração de Deus (cf. Fl 2,2.5).
Fazer memória de Niceia significa assumir essa herança extraordinária e geradora. No Símbolo niceno, o evento da encarnação do Filho de Deus é reconhecido e professado com uma linguagem que – correspondendo com palavras humanas à Palavra da revelação – ofereceu o vocabulário fundamental para expressar a inteligência da fé e para articular um pensamento e uma prática conformes à novidade realizada em Jesus. É o léxico agápico da reciprocidade trinitária, que descreve a vida de Deus revelada em Jesus e comunicada no Espírito Santo às criaturas.
A formulação consciente desse léxico – no nível teológico, mas também antropológico, com seu impacto irrenunciável no plano ecológico – constitui a mais formidável revolução espiritual, intelectual e prática jamais ocorrida na história. No léxico da reciprocidade trinitária, a paternidade de Deus é contemplada como a iniciativa do dom que se expressa no dar que dá tudo ao destinatário do dom, o Filho unigênito. A ordem do reconhecimento é aquela que vai do Pai ao Filho, o qual é Filho precisamente porque se reconhece como tal, conhecendo e reconhecendo o Pai como Pai.
No coração do mistério de Deus vive uma reciprocidade que equilibra a assimetria da origem com a simetria da gratuidade e totalidade do dom: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Não apenas porque o Pai dá tudo ao Filho, exercendo a paternidade não como superioridade que reserva algo para si, mas porque o Pai é Pai porque assim o conhece e reconhece o Filho. Sem deixar de lado o fato de que essa reciprocidade não é fechada em si mesma, mas trinitária: acontece sempre nova no Sopro exuberante e inesgotável de vida do Espírito Santo, e por isso é efusiva, é uma reciprocidade 'reciprocante', que se verifica ao suscitar, comunicando-a, a dinâmica de liberdade e gratuidade da ágape na qual vive.
Um anúncio que se faz dedicação
Daí a prioridade da missão da Igreja: em todos os tempos, certamente, mas de modo particular neste tempo. Trata-se – como afirma o papa Francisco na Evangelii gaudium – de concentrar o anúncio do Evangelho no essencial, naquilo que é mais belo, mais grande, mais atraente e ao mesmo tempo mais necessário (35). O kerygma é trinitário.
É o fogo do Espírito que se oferece sob forma de línguas de fogo e nos faz crer em Jesus Cristo, que com sua morte e ressurreição nos revela e nos comunica a infinita misericórdia do Pai (164). Essa é a luz que, do coração da fé professada em Niceia, pode reacender o olhar de um pensamento e de uma prática capazes de discernir e enfrentar os desafios que nos interpelam. Aplicando concretamente o léxico da reciprocidade trinitária como graça de vida eclesial e como tarefa ética, política, ecológica.
Trata-se de confessar a reta fé em Cristo vivendo, no plano comunitário e social, na ágape, a liberdade solidária com que Ele, em resposta à ágape do Pai, se entregou para nossa salvação. Essa fé atuante na ágape (cf. Gl 5,6) é a expressão viva da filiação recebida em Cristo no Espírito, de Deus, reconhecido em sua incondicional vontade de bem como Pai, através da dedicação incondicional de si mesmo, sob o seu olhar, para a libertação e a salvação de todos e de cada um.
Uma dedicação não atribuível apenas à fé entendida em sentido confessional, mas que – ensina o Vaticano II (cf. Lumen gentium 16; Gaudium et spes 22) – se expressa no diálogo e na cooperação com todos aqueles em quem a graça está presente e atua de fato. Para todos, com efeito, a dedicação à causa da gratuidade e da solidariedade é suscitada pelo Espírito, na liberdade responsorial que acolhe e testemunha a verdade e a justiça que interpelam cada consciência, no emaranhado também contraditório da história. História observada – e assumida em seus desafios mais duros e em suas derrotas mais dolorosas, em solidariedade com os últimos e excluídos – com os olhos da esperança que não decepciona (cf. Rm 5,5).
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