Marcha das Igrejas dos cinco continentes: escutem os últimos

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18 Novembro 2025

Dom Óscar Romero, bispo salvadorenho e ícone de uma Igreja fiel ao Reino e, portanto, capaz de estar ao lado dos oprimidos, mesmo até as últimas consequências. Margarida Maria Alves, leiga e sindicalista, voz poderosa e corajosa dos camponeses explorados durante a última ditadura militar brasileira. Os Yanomami, povo indígena que resume em sua própria história de massacres cíclicos — a última emergência foi em 2022 —as feridas da colonização, antiga e nova. Chico Méndez, defensor apaixonado da floresta. E, obviamente, Dorothy Stang, assassinada por denunciar os abusos de latifundiários a setecentos quilômetros ao sul de Belém, também no estado do Pará. Cinco "mártires" no sentido literal do termo: testemunhas da ecologia integral, o processo de conversão essencial para garantir a vida do planeta e seus habitantes. Cinco biografias que representam milhares e milhares de outras: porque no Sul do mundo, a proteção ambiental não é uma "moda verde", mas sim uma luta desarmada contra interesses bilionários e ferozes.

A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 14-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini

Seus nomes ecoaram na Avenida Nazaré, iluminada como se fosse dia. Ainda estão ali as luzes do Círio de Nazaré, a procissão católica mais popular do mundo: três milhões de fiéis se reúnem em torno da vela carregada por uma corda de 400 metros todos os anos, no segundo domingo de outubro, em homenagem à Virgem. Mais uma vez, a estatueta de madeira de Maria de Nazaré — encontrada, segundo a tradição, pelo indígena Plácido às margens do rio — percorreu a rua de mesmo nome, liderando a "Marcha dos Mártires", com a qual a Igreja quis iniciar os dias de oração e reflexão por ocasião da Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas (COP30). "Confiar a cúpula aos mártires indica a gravidade da questão enfrentada e a urgência de encontrar soluções concretas", explica Paolo Andreolli. O bispo auxiliar de Belém, enquanto os participantes desfilam segurando uma longa faixa azul representando o Rio Amazonas. No último ano e meio, com o arcebispo Júlio Endi Akamine, trabalharam juntos com as principais organizações católicas, a pedido da arquidiocese, para organizar o acompanhamento da Igreja à cúpula.

Quatro centros espalhados por Belém — o Colégio de Santa Catarina, a Faculdade Católica, o Santuário de São João Batista e o complexo de Santa Bárbara — foram palco de discussões, ao longo da semana, de quatro temas: impacto social, educação, engajamento dos jovens e sustentabilidade. Enquanto isso, no Palácio da Cidade, uma série de eventos está sendo realizada para levar a mensagem dos últimos para o centro das negociações. Entre esses eventos, destaca-se o diálogo socioambiental, em colaboração entre a ONU e o Conselho Episcopal Latino-Americano, coordenado por Emilce Cuda, secretária da Comissão Pontifícia para a América Latina. Em ambos os espaços — no coração das negociações entre líderes internacionais e na cidade onde grande parte da sociedade civil está mobilizada — as Igrejas dos cinco continentes quiseram lançar seu apelo conjunto para que a COP seja realmente um motor de transformação. "Nossa proposta é simples e pode ser resumida em uma palavra: implementação. Pedimos aos países que implementem os empenhos assumidos em cúpulas anteriores, em especial aquela de Paris", enfatiza o Cardeal Jaime Spengler, presidente da Conferência Episcopal Brasileira e do CELAM.

"O Sul do mundo está sofrendo de forma particularmente dramática as consequências da crise, pela qual tem menos responsabilidade. Por isso, o princípio norteador da ação ambiental deve ser a justiça climática", continua. "A fé cristã nos auxilia nesse processo de conversão ecológica. Basta pensar nas orações litúrgicas onde repetimos que Deus é o Criador. Se o mundo é obra de suas mãos, não podemos destruí-lo nem nos destruir: todas as vidas importam." "Esse é o ponto central", afirma o cardeal congolês Fridolin Ambongo, que preside o Simpósio das Conferências Episcopais da África e de Madagascar, "recuperar o valor do ser vivo e colocá-lo acima da ganância por dinheiro e poder. Quando as grandes empresas vêm à África para extrair minerais para revende-los no mercado internacional, pensam apenas em quanto dinheiro vão ganhar, não nos campos devastados ou nos rios envenenados. Ou nos jovens forçados a partir e condenados a morrer no deserto ou no mar."

"Tudo está interligado. Por isso, se realmente queremos promover a convivência entre países e povos, o que implica justiça, é necessário fazer as pazes com a Terra”, reitera o cardeal indiano Felipi António Sebastião do Rosário Ferrão, presidente da Federação das Conferências Episcopais da Ásia, que lembrou o documento elaborado pelas Igrejas do “Sul global”, apresentado em julho e inspirado pela Laudato si’ do Papa Francisco e pelas mensagens de Leão XIV. Ao seu grito se somam a Oceania em grandes dificuldades, representada por Ryan Jiménez, presidente da Conferência Episcopal do Pacífico e da Europa, pelo Cardeal Ladislav Nemet, vice-presidente do Conselho das Conferências Episcopais Europeias, e pelo Núncio Apostólico no Brasil, Giambattista Diquattro.

Todas as vozes, como os afluentes do Rio, se tornam canto e oração na Avenida Nazaré: "Vidas pela vida".

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