O que muda na Amazônia, muda em nós. Artigo de Valcléia Lima

Foto: Samara Souza/Greenpeace

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04 Outubro 2025

Transformações na floresta já afetam o clima, a saúde, a economia e o cotidiano, mostrando que conservar a Amazônia é também conservar a nossa própria vida.

O artigo é de Valcléia Lima, superintendente de Desenvolvimento Sustentável da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), publicado por ((o))eco, 02-10-2025. 

Eis o artigo. 

A Amazônia influencia a vida de todos, mesmo de quem nunca esteve nela. As chuvas que irrigam plantações no Sudeste, a estabilidade do clima nas grandes cidades e até os alimentos que chegam à mesa estão ligados à floresta em pé. O que acontece aqui não fica apenas aqui, reverbera primeiro na vida das populações tradicionais e depois chega ao cotidiano de quem mora em capitais brasileiras ou até em outros países.

As mudanças climáticas deixam isso evidente. Quando os rios secam, não é apenas a comunidade ribeirinha que sofre, é toda uma rede de consequências. Em 2023, o Amazonas registrou a estiagem mais severa em 121 anos, afetando mais de 600 mil pessoas em 60 municípios. Crianças deixaram de ir à escola porque o transporte fluvial parou. Famílias caminharam quilômetros para buscar água, tarefa que recai quase sempre sobre mulheres, idosos e crianças. Produtos básicos como açúcar e café encareceram com o isolamento, e alimentos da floresta, como a castanha e o tucumã, perderam sua safra no tempo certo. Até os peixes, privados de alimento nos igarapés secos, chegaram ao consumo com a carne comprometida.

Esse é o retrato da injustiça climática: os que menos contribuem para a crise são justamente os que mais sofrem com ela. Povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas, que conservam a floresta em benefício de todos, vivem em territórios onde carecem de serviços básicos e infraestrutura. Quando a temperatura sobe, resta apenas suportar o calor extremo, enquanto que nas áreas urbanas há alternativas como ligar o ar-condicionado. Essa diferença expõe o peso desigual da crise e revela como a adaptação é muito mais dura para quem está na linha de frente da conservação.

Quando a floresta está em pé, todos ganham. Ela refresca o ambiente, garante a continuidade das chuvas e protege a saúde das pessoas ao evitar o avanço das queimadas. Também sustenta economias locais, criando alternativas de renda para comunidades que vivem da pesca, do artesanato, do turismo de base comunitária e dos frutos da sociobiodiversidade. Além disso, mantém vivas culturas ancestrais que carregam soluções para enfrentar a crise climática e ensinam outros modos de viver em equilíbrio com a natureza. Cuidar da Amazônia é muito mais do que proteger um território, é sobre assegurar que continuemos a ter alimento, água e bem-estar para as próximas gerações.

Por isso, dar voz aos povos da floresta é essencial. Não basta que especialistas falem sobre a Amazônia, é preciso ouvir quem a vive no dia a dia. Suas histórias trazem as soluções. Para compreender a Amazônia profunda, você deve ir além de visitar Manaus ou Belém. É preciso entrar nos rios, conhecer as comunidades, sentir a distância entre uma torneira de água potável e um balde cheio carregado na cabeça. É nesse contato que nasce a consciência de que conservar a floresta é preservar a nós mesmos.

A COP30, que será realizada em Belém, pode ser uma oportunidade histórica. É hora de ir além dos discursos e avançar para a ação. Que essa conferência seja lembrada não apenas pelas negociações diplomáticas, mas por abrir espaço real para lideranças indígenas, quilombolas e ribeirinhas. O mundo precisa ouvir de quem conserva que a floresta não pode esperar e que a Amazônia não é cenário, mas protagonista da luta climática.

A mensagem é clara: não existe planeta B. Temos apenas este, e a Amazônia é uma de suas colunas de sustentação. Ela nos convoca a olhar para além das fronteiras e reconhecer nossa interdependência. Cada decisão sobre a floresta é também uma decisão sobre o nosso futuro. E é juntos que precisamos escolher mantê-la viva.

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